Aquela noite na varanda deveria ter trazido paz. E, de certa forma, trouxe. Camila tinha ido embora. O número estava bloqueado. O passado parecia finalmente encerrado.
Mas Lara sentia.
Sentia que ainda havia algo não resolvido. Não sobre traição. Não sobre desamor. Mas sobre silêncio.
Na manhã seguinte, enquanto Davi ainda dormia, ela acordou com uma inquietação diferente. Não era ciúme. Era intuição. A mesma que, três anos atrás, tinha avisado que algo estava errado — mesmo quando ele dizia que estava tudo bem.
Ela se levantou devagar e foi até a cozinha. Preparou café, observando a luz fraca atravessar a janela. Lembranças começaram a surgir como peças soltas de um quebra-cabeça antigo.
Na semana em que terminaram, Davi estava estranho. Distante. Sempre cansado. Evitando falar sobre o futuro.
E então, de repente, ele terminou.
Sem explicação convincente.
“Eu preciso ficar sozinho.”
“Não é sobre você.”
“Eu não estou bem.”
Frases vagas. Frases que nunca fizeram sentido completo.
O barulho do quarto a trouxe de volta ao presente. Davi apareceu na cozinha, ainda sonolento, e sorriu ao vê-la.
— Bom dia.
Ela respondeu com um sorriso suave, mas seus olhos estavam sérios.
— A gente pode conversar hoje?
Ele percebeu imediatamente o tom diferente. Sentou-se à mesa.
— Claro. Sobre o quê?
Ela respirou fundo.
— Sobre três anos atrás.
O silêncio caiu entre eles como um peso conhecido.
Davi desviou o olhar para a xícara.
— Eu achei que a gente já tinha superado isso.
— Superar não é o mesmo que entender — ela respondeu com delicadeza, mas firmeza. — Você foi embora da minha vida sem me deixar lutar por nós. Eu preciso saber por quê. De verdade.
Ele ficou imóvel. Os dedos apertaram levemente a borda da mesa.
— Lara…
— Eu não estou brigando — ela disse, aproximando-se. — Eu só não quero construir um futuro em cima de uma dúvida.
Os olhos dele se fecharam por um instante. Quando abriu, havia algo diferente ali. Algo mais vulnerável do que ela já tinha visto.
— Eu não terminei porque deixei de te amar.
Ela sentiu o coração apertar.
— Então por quê?