Noites de Fogo, Dias de Doçura

1240 Words
Litoral Central do Chile – Dois Meses Após o Encontro No primeiro dia em que ele apareceu no restaurante, senti o mundo prender o fôlego, o sino da porta soou como se anunciasse algo antigo,não um cliente, mas um fantasma, ele entrou com passos lentos, olhos escuros e um jeito de quem sabia exatamente onde estava, e mais do que isso ,como se soubesse quem eu era, disfarçou com um sorriso torto, uma cantada boba, algo como: — “Você serve comida, mas devia ser servida num altar.” Ridículo, mas eu ri, não pelo elogio e sim pela forma como ele me olhava, como se estivesse prestes a cair de joelhos, não por charme… mas por culpa, ele se apresentou como Mateo, disse que era argentino, que estava viajando pelo litoral para "desaparecer de si mesmo" e que tinha encontrado o paraíso no meu sorriso, clichê,mas, estranhamente, acolhedor, começou a aparecer todos os dias, sempre na mesma mesa, sempre com flores, e rosas, margaridas, tulipas roubadas de alguma praça próxima ele dizia, e com o tempo, comecei a esperar por ele, a sorrir antes mesmo que ele falasse, a contar os minutos entre uma visita e outra, nunca perguntei muito sobre o passado dele, e ele, curiosamente, nunca insistiu em saber sobre o meu, talvez por medo de descobrir a verdade, ou talvez… por já saber, houve um dia em que me olhou demoradamente, enquanto eu secava os copos atrás do balcão. E disse: — “Você já foi muito amada. Eu sei disso, e também foi muito traída, dá pra ver no jeito como você hesita antes de sorrir.” Fiquei em silêncio, porque… ele estava certo, mesmo sem lembrar do meu passado,carrego a estranha sensação de ter sido ferida, arrancada, destruída, e ainda assim, inteira, Mateo me ouvia como ninguém, me fazia rir, e mais de uma vez, me fez esquecer que eu era alguém sem origem, comecei a me apaixonar, pelas palavras dele, pelos gestos, pela forma como parecia me enxergar, mesmo quando eu me escondia de mim mesma, e um dia, sem pressa, sem cerimônia, ele me beijou e eu deixei, começamos a sair, caminhadas à beira-mar, jantares simples, toques suaves, a noite, ele me deitava nos braços como se eu fosse feita de vidro ou de saudade, me olhava com um misto de adoração e tormento, como se beijar minha pele fosse ao mesmo tempo um desejo… e uma penitência, mas aos poucos, comecei a notar as falhas na sua encenação, um nome que ele pronunciou dormindo: Milena, uma vez, me chamou assim, eu sorri, achando graça, mas ele empalideceu, depois, houve o dia em que rasgou a foto antiga de uma mulher parecida comigo, escondida entre suas coisas, e quando questionei, ele apenas disse: — “Não importa quem ela foi, você é quem eu escolhi agora.” As vezes, ele me observa como se tentasse compararm, como se buscasse em mim algo que não encontra, e eu sinto, sinto que ele me ama… mas não como sou, e sim como alguem que eu lembre, a cada noite que passa, vejo Mateo se perder um pouco mais dentro dele mesmo, os olhos dele mudam, ocarinho se torna mais tenso, o silêncio mais pesado, e eu começo a perguntar, quem era ela, de verdade? e quem é ele? há um espelho no meu quarto que evito, não porque não gosto do que vejo, mas porque, toda vez que me olho,tenho a nítida impressão de que estou mentindo pra mim mesma, que há uma história escondida nas cicatrizes da minha pele. um grito preso no fundo da garganta, as vezes sonho com tiros, com uma mulher forte, de olhar furioso, com um homem de barba malfeita chorando sobre o corpo dela, as vezes acordo gritando e Mateo me abraça, diz que está tudo bem,mas não está, nada está. Hoje encontrei uma carta escondida dentro de uma das flores que ele me deu, uma carta com o meu nome escrito… não como Julieta, mas como Milena, eu não a li ainda, ela está guardada, dentro do meu travesseiro, pesando como uma bomba, porque agora, pela primeira vez…eu tenho medo de descobrir quem sou, e mais ainda de descobrir que ele me ama não por mim mas pelo fantasma de uma mulher que talvez… tenha morrido, ou que ainda vive dentro de mim, calada, esperando o momento certo pra voltar. O mar me chama, o vento sussurra nomes que não reconheço, mas meu coração bate diferente agora,porque talvez,meu passado esteja de volta, tenha o rosto daquele que diz me amar. Litoral Central do Chile – Seis Meses Depois Durante o dia, Mateo me ama como se eu fosse feita de flores, ele me toca com cuidado, me beija o pescoço devagar, segura minha mão no mercado, me prepara café como se fosse um ritual, as vezes, ele senta no batente da porta enquanto penteio o cabelo, e sorri como se fosse o homem mais feliz do mundo, outras, me observa dormindo e diz baixinho: — “Eu sou teu até quando você me mandar embora.” E eu acredito, porque de dia, ele é luz, ele é abrigo, ele é o lar que nunca tive, mas à noite…a noite ele muda, nos lençóis, Mateo se transforma em outra coisa, não me ama me toma, com fome, com força, com um desejo que parece ter esperado vidas pra me devorar, me prende pelos pulsos, morde meus lábios até sangrar, sussurra no meu ouvido: — “Você é minha. Só minha. E nunca foi de mais ninguém.” E quando termina, me abraça como uma criança assustada, pede desculpas, diz que é só o medo de me perder, que sou tudo que ele tem, e eu, ainda suada, ofegante, com os joelhos tremendo… sorrio e acaricio seus cabelos, porque eu também o amo, Mateo é ciumento, mas diz que é só p******o, quando alguém me elogia no restaurante, ele aparece do nada, fica em silêncio, mas me aperta pela cintura como se dissesse “lembra de quem é você”, quando saio com Beatriz, ele pergunta com quem falei, o que disse, onde fui, eu achava até doce no começo, outro dia, ele quebrou um copo na parede, disse que um dos clientes me olhou “com desejo demais”, eu gritei, ele chorou. — “Eu não quero te machucar. Juro, só tenho medo de te perder.” Depois, passou horas na varanda, trancado em si mesmo, e eu fiquei ali… tentando entender se aquilo era amor ou… outra coisa, mas então ele aparece no dia seguinte com flores, um vestido novo, beijos no pescoço, café com canela, e tudo volta a ser doce, tudo volta a ser “nós dois contra o mundo”. Nosso s**o… é feroz, quente, longo, as vezes assustador, eu amo, mas às vezes, sinto que não me pertence, que quando ele me olha, não está vendo a Julieta que ama girassóis e cozinha pão de queijo em domingos chuvosos…mas alguma versão minha que eu ainda não conheço, e isso me excita e me apavora, Mateo sussurra coisas que não entendo. — “Você não lembra, né?” — “Você foi minha antes disso.” — “Agora você é só minha e de mais ninguém.” Acho que são só devaneios, frases soltas de quem ama demais, ou de quem já perdeu alguém como eu.
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