Milena
Minha mente ainda estava fervendo. A adrenalina corria como fogo nas veias. As mãos ainda tremiam de raiva, de fúria contida. Do lado de fora, o sol parecia zombar da confusão que ardia aqui dentro. Era como se o mundo seguisse normal, enquanto eu era engolida por um furacão que nunca dava trégua.
eu caminhava devagar pelo pátio da escola, sentindo os olhares atravessarem minha pele. Uns de medo, ou de admiração. Mas ninguém ousava se aproximar. eu sempre tive esse poder: ou você respeitava, ou apanhava tentando entender por quê não fez isso antes.
— “Tu tá ficando doida, Milena?” — ouviu a voz conhecida do Rodrigo, o único que não me abandonou desde que tudo desandou.
— “Faz o teu, Digo. Tô de boa.”
— “‘Tô de boa’? Tu quase matou a Katia, bicho! Peu vai vir seco atrás de você.”
Eu parei, virando me com um meio sorriso.
— “Tô esperando.”
Não demorou. Naquela mesma tarde, enquanto caminhava para casa sozinha, senti os passos apressados atrás de mim. Não precisou olhar. Conhecia aquele cheiro barato de perfume misturado com cigarro e ressentimento. Era o Peu.
— “QUE m***a TU FEZ, MILENA?!” — ele gritou, empurrando-me contra o muro.
Ele não me intimidou. Levantei o queixo, o encarando com os olhos firmes, cheios de uma dor que ele nunca quis entender.
— “Ela mexeu onde não devia. Tu sabe o que aconteceu comigo, Peu. E tu sabe o que tu fez quando virou as costas.”
— “CALA A BOCA! TU É LOUCA! EU TE AMEI, p***a! E TU... TU...” — a voz dele falhava entre ódio e algo que parecia arrependimento.
— “Me deixou. Sozinha. Quando eu mais precisei.”
Ele não respondeu. Apenas me olhou, confuso. Entre o ódio, o desejo e o peso da culpa. O silêncio virou faca entre nos dois.
eu o empurrei com força.
— “Se tu acha que vou baixar a cabeça, tu me conhece pouco.”
E sai andando, sem olhar pra trás.
Mas eu sabia... essa história ainda estava longe de acabar.
Naquela noite, depois de passar o dia inteiro fora, cheguei em casa e subi direto para não dar de cara com a mala da Clara, cabeça fervia, mas o coração… o coração parecia de pedra. Joguei a mochila na cama e fui direto pro espelho do banheiro. Ainda dava pra ver o sangue seco embaixo da unha. “Ela mereceu”, pensei, encarando seu reflexo com os olhos de quem já apanhou da vida demais pra ter medo de apanhar de alguém.
Mas, no fundo bem no fundo havia algo que doía mais do que a briga. Era a lembrança do bebê que perdi,dos meus pais,da solidão da recuperação e da ausência do meu irmão,de alguma forma,do desprezo do Peu quando mais precisei. E agora, ele ainda tinha a cara de p*u de aparecer, como se fosse a vítima.
não dormi,fiquei acordada planejando. Tinha algo crescendo dentro de mim de novo — mas dessa vez não era um bebê, era sede de justiça. De mostrar que eu não ia mais ser pisada.
No dia seguinte, eu fui à escola como se nada tivesse acontecido. Usava um casaco escuro, capuz baixo, fone de ouvido, cara fechada. Os olhares estavam todos em mim, e a diretora já a esperava na porta.
— “Milena, você está suspensa até segunda ordem. Sua madrasta já foi notificada.”
— “Ótimo. Menos tempo convivendo com cobra.” — eu respondi, sem hesitar.
Virei as costas e fui embora com um sorriso sarcástico. Mas não pra casa. Peguei o caminho contrário.
Desci os becos da vila como quem sabia onde pisa. Parei em frente a uma garagem com portão de ferro. Bati três vezes. Um rapaz abriu.
— “E aí, Milena… faz tempo, hein.”
— “Preciso de um favor, Dinho. E você me deve um.”
Ele não hesitou, só abriu passagem. Lá dentro, uma mesa com três celulares, duas pistolas e várias anotações.
— “Tô ouvindo.”
Contei tudo. Da gravidez. Da traição. Da Katia. Do Peu. E do ódio que crescia como veneno nas veias.
Dinho ouviu calado. Depois coçou o queixo.
— “Quer vingança ou justiça?”
Sorri. Um sorriso frio, perigoso.
— “As duas.”
Mais tarde naquela semana, as coisas começaram a acontecer. Primeiro foi um vídeo vazado da Katia humilhando outras meninas da escola — caiu como uma bomba no grupo dela. Depois, Peu foi abordado por dois caras numa moto que deram um "aviso" direto: “Para de mexer com quem não te quer mais.”
Ninguém sabia quem tava por trás.
Mas eu sabia.
E eu não tinha terminado ainda.
Os dias passaram, eu tornava-se cada vez mais um nome temido pelos corredores da escola e pelas ruas da vila. Não porque eu era violenta — mas porque agora eu sabia jogar o jogo. E jogava com frieza.
Dinho se tornou um aliado. Ele não fazia perguntas, só entregava resultados. Enquanto isso, Eu mantinha a cara de quem não se envolve em nada... por fora.
Mas por dentro, eu planejava tudo.
Na noite de sexta-feira, Peu estava em uma festinha na casa de um conhecido. Muita bebida, funk, risada falsa e o ego inflado como sempre. Katia estava lá também, de maquiagem nova e olhos sempre atentos — sabia que a qualquer momento, Eu podia aparecer. Ela vivia com medo, desde aquela surra.
Mas não sou burra. Sabia que o caos se cria em silêncio.
Enquanto isso, Dinho recebia um pacote: uma caixa com um celular descartável, chips e uma câmera pequena — dessas que dá pra esconder em uma mochila ou num boné. Eles estavam prontos.
Eu liguei o celular novo e mandei um vídeo anônimo para vários contatos do colégio, incluindo a diretora, professores e os “amigos” de Peu: imagens dele vendendo cápsulas escondido atrás do colégio meses antes, num flagrante perfeito.
Mas não era só isso. Em outro vídeo, Katia aparecia rindo com amigas, falando sobre como planejou me provocar até eu “perder a cabeça”.
A internet fez o resto.
Na segunda-feira, a escola estava em chamas. Não literalmente, mas emocionalmente. A polícia apareceu. A diretora estava em colapso. Katia chorava nos corredores, dizendo que era tudo montagem. Peu? Sumiu. Ninguém sabia onde ele estava.
Até que recebo uma mensagem:
“Tu foi longe demais. Vamo resolver isso do nosso jeito. Hoje. 22h. Na quadra.”
— Peu
Olhei o relógio. Sorri.
Era o que eu queria.
Às 21h50,cheguei na quadra onde a molecada jogava bola de dia e resolvia treta à noite. eu usava calça preta, tênis firme e uma jaqueta que escondia algo pesado no bolso.
Do outro lado, Peu apareceu com dois caras. Um deles, armado.,eu reconheci: eram do bonde antigo que Peu vivia puxando o saco.
— “Veio armada, Milena?” — ele gritou.
— “Não. Só vim enterrar de vez tua reputação de macho fraco.”
Os caras riram, mas havia tensão. Ninguém fazia piada de verdade comigo.
— “Tu estragou minha vida!” — Peu avançou.
Mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, um carro preto chegou derrapando. Era Dinho. Ele desceu devagar, com mais dois no banco de trás. Um deles segurava uma arma. A mira apontava pra Peu.
— “Encosta. Agora.” — Dinho ordenou.