Dirigi a noite toda até a cabana que pertenceu à minha irmã, Olivia. Dylan ainda não havia recuperado a consciência e seus ferimentos sangravam profusamente, manchando o banco do carro. Parei o veículo diante da varanda e, com uma dificuldade hercúlea, tentei retirá-lo de lá. Não consegui dar dois passos; o peso dele nos derrubou com tudo no chão.
— Por favor, Dylan, acorda! — implorei, sentindo o pânico subir pela garganta. — Você tem que me ajudar, seu i****a! Não pode morrer sem conhecer seu filho.
Levantei-me, encarando-o naquele estado deplorável. A preocupação me consumia.
— É sempre assim... nós, mulheres, sempre damos um jeito quando precisamos nos virar sozinhas — murmurei para mim mesma.
Entrei na cabana, fui até o quarto e peguei o edredom mais pesado que encontrei. Voltei até Dylan e consegui acomodá-lo sobre o tecido, arrastando-o para dentro da casa como se estivesse carregando o próprio mundo nas costas. O homem era um brutamontes, pesado como pedra. Improvisei uma cama de lençóis no chão para não precisar erguê-lo até a cama alta.
Rasguei sua blusa encharcada de sangue e retirei sua calça para limpar os ferimentos. Após desinfetar e fazer os curativos necessários, segurei sua mão com firmeza. Invoquei Lia, minha loba, pedindo que ela canalizasse energia para ajudá-lo na regeneração. Mesmo em silêncio, Lia respondeu, poupando-me da exaustão de uma transformação completa durante a gravidez.
Passei a tarde pensando em Gael. A preocupação com ele era uma pontada constante no peito. Nosso laço de companheiros estava enfraquecido e m*l sentíamos a dor um do outro, mas o vínculo existia e sempre existiria. Acabei pegando no sono ali mesmo, sentada, segurando a mão de Dylan, que ardia em febre.
Acordei sobressaltada com a voz do meu pai no elo mental.
— Oi, pai... o senhor está bem? — perguntei, ainda grogue, verificando a temperatura de Dylan. A febre havia cedido; ele agora suava sob o edredom.
— Estou bem, filha. Onde você está? Está ferida?
— Calma, pai. Estou segura, não se preocupe. O Dylan vai ficar bem.
— Onde você está, estrelinha? Eu e o Gael vamos para aí.
Saber que Gael estava seguro trouxe um alívio imediato, que logo foi substituído por um desejo absurdo de comer banana com requeijão.
— Pai, não se preocupe. Eu aviso qualquer coisa, mas preciso ir agora. Estou com um desejo estranho de novo. Tchau!
Levantei-me e fui até a cozinha. Encontrei o requeijão, mas quando percebi que não havia uma única banana na fruteira, desabei em uma crise de choro frustrada.
— Eu ainda não morri... por que está chorando assim? — Uma voz fraca ecoou da sala.
— Estou chorando porque não tem bana... — Parei de falar, percebendo que não era minha consciência respondendo. — Você acordou!
Corri para o quarto e o abracei com força.
— Acho que vou ter que sofrer um acidente toda semana se for para receber um abraço desses — ele disse, com um sorriso frágil.
— Para de rir, seu palhaço! Você quase morreu queimado! — Dei-lhe um soco leve no ombro, alternando entre risos e lágrimas. — Tem noção do susto que me deu? Pensei que meu filho não conheceria o pai.
Dylan soltou um gemido de dor, segurando o braço onde bati, mas seu olhar mudou instantaneamente. Ficou sério, profundo.
— Stella... o que você acabou de dizer?
— Que você me assustou... foi por pouco, Dylan.
— Não isso. A outra parte. Esse bebê que você espera... é meu? — Ele olhou fixamente para a minha barriga.
O segredo não podia mais ser guardado.
— Desculpa por mentir, falando que você não era o pai. Eu tive tanto medo, Dylan... e tinha a sua história com a Anika — confessei, chorando de nervoso.
— Estrelinha, para de chorar, por favor — ele pediu, buscando minha mão.
— Você pode me perdoar? Por mentir sobre algo tão importante?
— Eu entendo que você estava assustada. Eu provavelmente faria o mesmo no seu lugar — ele respondeu, suavizando a expressão. — Como estou? Me sinto melhor.
— Seus ferimentos já estão cicatrizando. Mas Dylan... tem uma coisa que você precisa saber.
— O quê, Stella? — Ele sentou-se com dificuldade.
— A Anika foi sequestrada ontem. As bruxas a levaram.
O efeito das minhas palavras foi devastador. Dylan entrou em um transe paralisante por alguns segundos. Então, como se um interruptor de fúria tivesse sido ligado, ele se levantou bruscamente, vestiu a calça e saiu da cabana sem nem vestir a camisa.
— Vamos voltar. Agora. Entra no carro, Stella! — rosnou ele, já assumindo o volante.
— Dylan, você precisa descansar! Seus ferimentos podem abrir, a cura será lenta se você se esforçar assim! — protestei, sentando-me no banco do passageiro.
— Não importa. Temos que voltar agora!
Naquele momento, enquanto o carro ganhava velocidade, a realidade caiu sobre mim com um peso esmagador. Dylan finalmente percebeu que ama a Anika. Por mais que eu tente fingir que não dói, meu coração se estilhaça. A verdade estava bem diante do meu nariz, e eu fui a única que se recusou a enxergar.