Abrir meu coração para Anika foi como pisar em espinhos. Relembrar aquela noite que destruiu meu mundo e me obrigou a erguer barreiras ao meu redor foi torturante. Eu esperava que ela me culpasse, como todos os outros fizeram, mas ela simplesmente sorriu, compreendeu e me beijou.
Eu retribui com a mesma intensidade. Deixei o beijo dizer as palavras não ditas, as emoções e os desejos reprimidos. Quando ela revelou que eu seria o seu primeiro, precisei de todo o meu autocontrole para não tomá-la ali mesmo. Harpe queria marcar nossa companheira, e eu a desejava como nunca desejei ninguém. Porém, pensei em meus irmãos. Eles perderam a oportunidade com Olívia; não seria justo tirar deles a chance de serem os primeiros de Anika também.
Anika ficou chateada, e estava nítido seu ciúme de Stella. Mas, se ela está disposta a ser minha companheira, terá que aceitá-la em minha vida, pois afastá-la está fora de cogitação.
No caminho de volta, a tensão era palpável. Anika evitava meu olhar, mas, para aliviar o clima, segurei sua mão, entrelaçando nossos dedos. Senti-a relaxar aos poucos. Quando chegamos, a mansão estava em silêncio absoluto. Subimos as escadas devagar e a levei até a porta de seu quarto. Ela me convidou para entrar, mas eu não confiava em mim mesmo perto dela; resolvi dormir no meu próprio quarto.
Antes de nos despedirmos, ela me olhou com apreensão.
— Você não vai mudar de ideia amanhã? Quando perceber que está comprometido comigo, e não com a Stella?
Congelei. A ideia de não ter mais nada com Stella me causou um incômodo profundo. Percebendo minha luta interna, Anika pegou minha mão e a beijou em um gesto carinhoso, fazendo meu coração disparar.
— Eu estou com você agora — as palavras saíram sem que eu pensasse, pois, a cada toque dela, cada parte de mim gritava por sua presença.
Despedi-me com um beijo e esperei que ela entrasse. Caminhei pelo corredor escuro e vi a luz escapando pela fresta da porta do meu quarto. Eu havia esquecido completamente de Stella. Peguei a chave, destranquei a porta e lá estava ela. Dormia na minha cama, abraçada ao meu travesseiro, vestindo apenas meu blazer e uma cueca branca minha. Seu semblante era calmo, sereno; os cabelos negros espalhados, a boca entreaberta, completamente vulnerável. Fiquei alguns minutos apenas observando-a.
"Você já se olhou no espelho?", Harpe perguntou, sério.
"O que foi, Harpe?", indaguei mentalmente, tirando a camisa para o banho.
"Você está deslumbrado, babando pela mulher errada."
"É diferente, Harpe. Eu amo Anika como mulher e companheira. Por Stella, tenho um carinho e um instinto de proteção de amigos", retruquei, entrando no chuveiro. Deixei a água morna levar a sujeira e a exaustão. Meia hora depois, saí, sequei-me e vesti apenas uma calça de moletom cinza.
Voltei ao quarto e Stella continuava mergulhada no sono. Apaguei a luz e deitei-me ao seu lado. Quase por instinto, envolvi-a em meus braços. Mesmo dormindo, ela se encaixou entre minhas pernas e repousou a cabeça em meu peito, como se seu corpo soubesse que era eu.
Stella foi a única que me apoiou quando Olívia morreu. Lembro-me como se fosse ontem: eu chegando com o corpo sem vida de Olívia nos braços; meus irmãos perdendo o controle, seus lobos querendo me estraçalhar; Romeu me olhando com desprezo e decepção... E Stella. Ela se ajoelhou ao meu lado e ao corpo da irmã, segurou minha mão e chorou descontroladamente.
Desde aquele dia, aquela adolescente de apenas dezesseis anos nunca mais soltou minha mão. Ela esteve comigo nos momentos mais sombrios. No começo, eu não facilitei: brigava, ignorava, afastava... mas ela permanecia ali, determinada a não me deixar. Com o tempo, ela deixou de ser apenas a "pirralha e irmã caçula" para ocupar espaços vitais na minha vida. Tornou-se amiga, companheira de treinos e patrulhas.
Ela floresceu. Tornou-se mulher. E, com aquele jeito cuidadoso e sexy, ela me beijou. Fui seu primeiro em tudo. Apesar da muralha que construí, Stella foi a única a conhecer minha melhor versão.
Mas então surgiu Anika. Ela me desestruturou, enxergando minha alma apenas com um olhar, mexendo com minha cabeça e meu coração. Por Anika, sou capaz de tudo para fazê-la feliz, mesmo sendo eu uma bomba-relógio prestes a levá-la ao abismo. Um abismo onde apenas Stella entrou por livre e espontânea vontade, presenciou todas as minhas ruínas e, de algum modo, saiu ilesa.