— Chloe, não! Por favor! — Você não veria, Nick, nem se estivesse tatuado na minha testa!
— Desculpa, Chloe! Por favor, me perdoe!
— Você o deixou fazer isto comigo, Nick, eu avisei-te e você não quis ver. Você não quis ver, irmãozinho.
— Não, Chloe! Eu não deixei, eu apenas não vi, por favor, me desculpa!
Acordei com meu coração acelerado.
Como sempre, a voz da minha irmã ecoando no meu cérebro. Minhas mãos tremiam.
Levantei-me e fui até o bar, pegando um copo cheio de uísque, que virei em um só gole. O líquido desceu queimando por todo o caminho, permitindo a dor sair e eu chorei. Chorei como fazia quase todas as noites sentindo a dor e a culpa me corroer lentamente.
Lá estava eu, sentado à beira da cama suando, coração disparado. Eram assim todas as noites. Eu me culpava por não ter visto, não ter dado o apoio que ela buscou em mim. Mas como eu poderia saber? Como?
*******
Minha irmãzinha Chloe era sem dúvida a bebê mais linda que já havia visto.
Eu tinha seis anos quando ela nasceu, tinha cachinhos castanhos dourados, pele clara e carinha brava.
Lembro-me de ter dito a minha mãe para devolvê-la porque ela não gostava de mim. Minha mãe riu e nos apresentou como se isso fosse possível.
— Oi, filha, esse é seu irmão, Nick. Ele te ama muito, ele conversava com você todos os dias enquanto ainda estava na barriga da mamãe. E prometeu proteger-te e te ensinar tudo.
Lembro-me, que a Chloe fez uma expressão que lembrava um riso, segurou firme o meu dedo e aquilo foi suficiente para que eu me apaixonasse incondicionalmente por ela.
Eu a ensinei a andar de bicicleta, levava-a para passear, lia histórias. Também fui eu quem a ensinou a jogar videogame e a gostar de futebol. Na maioria das vezes era para minha cama que a Chloe corria quando algo a assustava à noite, trovões ou barulhos imaginários que a assustavam e a levavam até o meu quarto.
Fui seu confidente quando ela se apaixonou por meu melhor amigo, Paul. Sempre ameaçava os garotos saidinhos na escola e a ouvia ler e reler os seus livros favoritos.
Meus pais nos criaram livres, sempre nos deram várias oportunidades, nos ensinaram que era importante praticar esportes, gostar de música e sempre respeitaram as nossas escolhas.
Meus pais trabalharam muito, mas sempre tiveram tempo para nós.
Lembro-me do meu pai desmarcando reuniões importantes para ir a um dos meus jogos ou a uma apresentação de música da Chloe.
Meu pai era um importante empresário, dono de uma das maiores empresas no ramo de biotecnologia e genética do país. E tinha um hobby para lá de estranho, comprava hotéis e resorts, os revitalizava e depois revendia. Meus pais amavam viajar, então sempre passávamos as nossas férias na estrada.
Mamãe era uma bela mulher, alta, cabelos loiros e cacheados, um sorriso que inspirava confiança. Sempre fora uma sonhadora nata, professora de literatura e cultura italiana em uma das mais importantes universidades do mundo.
Mas mesmo trabalhando muito, eles sempre estiveram lá para mim e para a Chloe.
Quando nos metíamos em alguma encrenca digna de castigo, meu pai dizia: — Vocês são melhores que isso. Confio em vocês!
Ou então dizia olhando em nossos olhos — Quando estiverem prontos quero ouvir sobre isso!
Era pior que levar uma bronca na maioria das vezes.
Aos dez anos Chloe começou a ficar diferente, já não ria tanto, não brincava tanto e sempre estava com as mãos cheias de livros.
Ela já não saia muito e quando o fazia queria ir às livrarias e bibliotecas.
No começo Chloe dizia:
— Não me interrompam, preciso estudar se quero me tornar a maior referência em Dante da história!
Claro que mamãe sorria de orelha a orelha.
Chloe não tinha amigos, nada de compras, shopping. Nada.
E nem mesmo as viagens com o papai, que ela amava.
Papai sempre nos levava aos hotéis que ele tinha no Brasil.
Quando éramos crianças, eu ia a todas as férias com ele e Chloe adorava, mas chegou um tempo que nem isso mais.
Eu sentia falta dela em meu quarto fazendo perguntas e mexendo nas minhas coisas. Mas agora eu era um adolescente do Ensino Médio estava me ocupando demais em outros assuntos para me preocupar tanto.
Meus pais sempre davam festas e recebiam amigos, principalmente o seu advogado e amigo, Charles Skran, e sua esposa alcoólatra e de outro planeta, Yeda.
Charles estava sempre em nossa casa. Muitas vezes aparecia à noite para conversar com meu pai e acabava pernoitando. A desculpa era, quase sempre, a ET que ele chamava de esposa.
Chloe vinha agora da escola direto para casa. Nem mesmo na casa do Paul, que era o único lugar onde ela gostava de ir ela ia mais. Mas como eu estava no auge da adolescência não insisti muito. Eu amava minha irmã, mas ela não combinava com as festas, futebol e claro com garotas.
Uns dias antes de ir para a faculdade. Chloe entrou no meu quarto e pulou em minha cama, eu afaguei seus cabelos.
– Hey, tratorzinho, cuidado! – ela riu e pediu para deixá-la dormir no meu quarto. Eu estranhei, mas pensei que era por eu estar indo embora.
– Está tudo bem, Chloe?
– Maninho você não veria nem se tivesse escrito em meus olhos.
Após a resposta ela virou de costas para mim. Tentei argumentar, mas não respondeu mais, fingindo dormir.
Ir para a universidade estudar Bioengenharia e com o bônus de ter três dos meus melhores amigos por perto era mais-que-perfeito.
A parte r**m era estar longe dos meus pais e da Chloe.
Eu disse a minha mãe que a Chloe estava estranha, mas ela respondeu que era coisa de adolescente, que ia passar. Meu pai disse que era normal, que talvez ela estivesse apaixonada.
Ninguém questionou. Pelo menos não até ser tarde demais.
Eu estava com dezoito anos, em outro estado a milhas de distância da minha família. Saí de lá um garoto e voltaria um homem, mas antes era hora de curtir a vida, curtir muito a vida.
E foi o que eu fiz.
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Para todas as meninas vítimas de abuso, que, como eu, sonhava em ter um herói, como o Nicholas Tarrant Miller, para resgatá-las e vingá-las do seu abusador. Esse livro é dedicado a todas as meninas que não podem falar, por que não tem quem as ouça. E para todas que conseguiram ser suas próprias heroínas.
Ella D Oliveira