04 TERRITÓRIO DELIMITADO

1233 Words
ERICK NARRANDO A noite passa mais devagar do que deveria. Não é insônia eu conheço bem esse tipo de madrugada em que o corpo pede descanso, mas a mente se recusa a obedecer. Fico sentado na varanda, um copo de uísque esquecido na mão, observando as luzes da cidade lá embaixo. O Rio nunca dorme. Parece sempre em movimento, pulsando como se tivesse vida própria. Diferente de mim, que estou parado, suspenso entre decisões que evitei por tempo demais. Augusto não sai da minha cabeça. A reunião com o conselho, a proximidade dele com meu pai, o sorriso contido que sempre aparece quando ele percebe qualquer fraqueza minha. Ele não precisa me atacar diretamente. Basta esperar. Sempre bastou. Erick — Um mês… _murmuro, passando a mão pelo rosto. Um casamento. Um contrato social para garantir poder. Simples no papel. As mulheres que meus pais escolheriam não me assustam. Já estive com muitas. O problema nunca foi o corpo. Foi tudo o que vem depois. Expectativas. Sentimentos. Dependência. Promessas que eu não sei cumprir. Volto para dentro e subo para o quarto. A cama enorme parece vazia demais. Reviro-me por alguns minutos antes de finalmente pegar no sono. [...] Acordo com o som discreto de passos na cozinha. Olho o relógio: seis e vinte. Letícia. Claro. Há algo previsível nela, e isso deveria me tranquilizar. Não tranquiliza. Tomo um banho rápido e desço ainda ajeitando os botões da camisa. O cheiro de café fresco já se espalha pelo ambiente. Ela está de costas, concentrada, o cabelo preso de forma simples. Há algo quase doméstico na cena, e isso me causa um incômodo que não sei nomear. Erick — Bom dia. _ Ela se vira, surpresa leve no olhar. Letícia — Bom dia. O café fica pronto em alguns minutos. _ Assinto e me sento à mesa. Observo enquanto ela termina o que está fazendo. Cada movimento é preciso, econômico. Nada é exagerado. Nada é feito para chamar atenção. Ainda assim, chama. Erick — Dormiu bem? _ A pergunta escapa sem planejamento. Percebo isso no instante em que ela me olha. Letícia — Sim. Obrigada. _ A resposta é educada, mas encerra o assunto. Uma linha invisível sendo reafirmada. Ela serve o café e organiza a mesa como se segue um mapa mental. Quando se afasta para buscar algo, percebo que meus olhos a acompanham. Aperto o maxilar. Erick — Você vai sair mais cedo hoje? Letícia — Pretendo ir ao hospital depois daqui. _ Hospital. A palavra fica suspensa no ar. Erick — Alguém da sua família? _ Ela hesita por um segundo. Muito pouco para alguém menos atento perceber. Letícia — Minha mãe. _ Não há drama na voz. Apenas um fato. Erick — Ela está doente? _ A pergunta é direta demais. Sei disso no momento em que faço. Letícia — Está. _ Ponto final. Não há a******a para mais. Assinto, respeitando o limite que ela deixa claro. Ainda assim, algo em mim se contrai. Talvez porque eu não esteja acostumado a ouvir respostas que não giram em torno de mim. Erick — Se precisar sair antes do horário, não há problema. _ Ela me encara, surpresa genuína agora. Letícia — Obrigada. _ O silêncio que se segue não é desconfortável. É atento. Como se ambos estivéssemos medindo o espaço que ocupamos um na vida do outro, mesmo sem querer. LETICIA ALENCAR NARRANDO Erick Smith está diferente hoje. Não mais gentil... não exatamente, mas menos armado. Como alguém que acordou cansado de sustentar o próprio personagem. Isso me deixa alerta. Mudanças sutis costumam ser mais perigosas do que confrontos diretos. Enquanto ele toma café, organizo a cozinha. Sinto o olhar dele em mim mais vezes do que gostaria. Não é invasivo, mas é presente. Constante. Finjo não perceber. Letícia — Vou limpar o escritório hoje, se o senhor permitir. Erick — Pode limpar. Mas não mexa nos documentos. Letícia — Não mexerei. _ O escritório é amplo, moderno, frio. Computadores, pastas organizadas, tudo no lugar certo. Limpo com cuidado, respeitando cada limite. Sobre a mesa, uma foto chama minha atenção: um Erick mais jovem, sorrindo ao lado de uma mulher. O sorriso dele ali é diferente. Aberto. Quase irreconhecível. Desvio o olhar imediatamente. Não é da minha conta. O celular vibra no bolso do avental. Mensagem da cuidadora. MENSAGEM OFF Cuidadora — Sua mãe está acordada e pediu para te ver hoje. _ Respiro fundo. Alívio e preocupação se misturam. Letícia — Estarei aí mais cedo. _ MENSAGEM OFF Guardo o celular e contínuo o trabalho. Preciso manter a cabeça no lugar. Preciso lembrar por que estou aqui. ERICK SMITH NARRANDO O escritório está mais limpo quando entro. Organizado demais. Como se alguém tivesse passado ali não apenas para limpar, mas para respeitar o espaço. Isso é raro. Sento-me à mesa e encaro a foto que sempre deixo virada para baixo. Alguém a colocou de pé. Franzo a testa. Erick — Letícia. _ Ela aparece à porta quase imediatamente. Letícia — Sim? Erick — Você mexeu nisso? _ Aponto para a foto. Ela segue meu olhar, compreende na hora. Letícia — Não mexi. Estava caída no chão. Apenas coloquei de volta. _A resposta é simples. Honesta. Erick — Pode deixar como estava. _ Ela se aproxima, vira a foto novamente. Antes de sair, hesita. Letícia — Posso perguntar algo? _ Ergo os olhos, surpreso. Erick — Pode. Letícia — O senhor prefere silêncio… ou apenas não está acostumado a ser ouvido? _ A pergunta me atinge com força inesperada. Não há julgamento. Apenas curiosidade cuidadosa. Erick — Eu prefiro controle. _ Ela assente, como se aquela resposta confirmasse algo que já suspeitava. Letícia — Entendo. _ Ela sai, me deixando sozinho com pensamentos que eu não queria enfrentar. Controle. Sempre foi isso. Controlar pessoas, situações, narrativas. Talvez por isso eu tenha perdido coisas importantes sem perceber. LETICIA ALENCAR NARRANDO Saio da mansão mais cedo naquele dia. O hospital me espera, e minha mãe também. No ônibus, penso na pergunta que fiz. Talvez tenha sido ousada demais. Mas algo naquele homem pede confronto silencioso, não submissão. No quarto do hospital, minha mãe sorri quando me vê. Mãe — Você está cansada. Letícia — Um pouco. Mas é um bom trabalho, mãe. Mãe — Bom é o que te deixa em paz. _ A frase fica comigo mais do que eu gostaria. ERICK SMITH NARRANDO À noite cai e meu celular começa a tocar. Sai de lá para ter paz e parece que todos vem tentar tirar ela. Vejo uma do Augusto e atendo. LIGAÇÃO ON Augusto — Erick, só liguei para saber se está aproveitando as férias. _ O tom é cordial demais. Erick — Aproveitando o suficiente. Augusto — Ótimo. O conselho gosta de homens comprometidos. Em todos os sentidos. _ O recado é claro. Erick — Diga ao conselho que eu volto em breve. Augusto — Estamos ansiosos. _ Encerro a ligação com o coração acelerado. O prazo se aproxima. A pressão aumenta. LIGAÇÃO OFF Olho em volta da casa silenciosa. Penso em Letícia. Na forma como ela ocupa o espaço sem pedir permissão. Na dignidade com que impõe limites. Erick — Território delimitado — digo em voz baixa. Mas a verdade é que, aos poucos, esse território já não parece tão sob meu controle quanto eu gostaria. O QUE SERÁ QUE VAI ACONTECER ENTRE ESSES DOIS. COMENTEM E VOTEM MUITO.
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