02 LINHAS INVISIVEIS

1214 Words
ERIK SMITH NARRANDO A casa fica grande demais quando ela se afasta. Não pelo silêncio eu gosto do silêncio, mas pela sensação incômoda de que algo mudou de lugar sem pedir permissão. Fico alguns minutos encarando o prato vazio, tentando decidir se a comida realmente estava boa ou se eu disse aquilo apenas para encerrar o assunto. Mentira. Estava boa. Boa demais. Caseira demais para uma mansão alugada por um playboy em fuga. Levanto-me e caminho até a janela. O mar continua ali, indiferente. A cidade pulsa lá embaixo, viva, quente, caótica. Eu vim para descansar, não para pensar. Ainda assim, a imagem dela atravessa minha cabeça com insistência: postura firme, respostas medidas, nenhum pedido de desculpa desnecessário. Não é comum. Não para alguém no lugar dela. Erick — Ridículo_ murmuro para mim mesmo. O celular vibra no bolso. Uma mensagem da minha mãe. Chegou bem? Seu pai espera que você ligue hoje. Fecho os olhos por um segundo. Simone Smith sempre escreve como quem já sabe a resposta, mas finge delicadeza. Meu pai espera. Sempre espera. E sempre cobra. Erick — Mais tarde_ digo, mesmo sabendo que ela não pode ouvir. Caminho até a cozinha. Letícia está ali, lavando a louça com movimentos calmos, concentrados. O cabelo preso deixa o pescoço à mostra; noto o detalhe contra a minha vontade. Paro a alguns passos de distância, encostado na bancada. Erick — Preciso que você organize o restante da semana. Horários, refeições, limpeza básica. Nada além disso. _ Ela não se vira de imediato. Termina o que está fazendo, seca as mãos com calma, então se volta para mim. Letícia — Claro. O senhor tem alguma preferência? _ A pergunta é simples. O jeito, profissional. Ainda assim, sinto um impulso estranho de testar limites. Erick — Prefiro que não circule pela casa à noite. E… nada de visitas. _ Ela sustenta meu olhar por alguns segundos. Não há afronta, apenas atenção. Letícia — Eu não recebo visitas durante o trabalho, senhor Smith. E meu horário termina às dezenove. _ Isso me pega desprevenido. Erick — Você não mora aqui? Letícia — Não. Vou e volto todos os dias. _ Assinto, escondendo o incômodo. Não sei por que isso me incomoda. Talvez porque eu tenha assumido que tudo inclusive as pessoas estivesse à minha disposição durante essa semana. Erick — Certo. Amanhã quero café às sete. Letícia — Estarei aqui às seis e meia. _ Eficiência. Nada além disso. Ainda assim, quando ela se vira para guardar os utensílios, sinto a linha invisível entre nós se esticar. Não cruzada. Apenas ali. Presente. Erick — Letícia. _ Ela para. Letícia — Sim? Erick — Seu inglês… onde aprendeu? _ A pergunta escapa antes que eu possa impedir. curiosidade é um luxo perigoso. Ela hesita por um segundo, o suficiente para eu perceber. Letícia — Faculdade. Cursos. Prática. Erick — Faculdade de quê? _ Ela me encara. Vejo o cuidado com que escolhe as palavras. Letícia — Administração. _ Administração. O mundo parece inclinar alguns graus. Erick — E você trabalha como empregada? _ Não deveria ter soado daquele jeito. Mas soou. Ela respira fundo, mantendo a compostura. Letícia — Eu trabalho com o que paga as contas no momento. _ Há algo definitivo na resposta. Um ponto final que me impede de seguir adiante. Assinto, dando a conversa por encerrada. Erick — Pode ir. Nos vemos amanhã. _ Ela pega a bolsa, caminha até a porta. Antes de sair, se vira. Letícia — Boa tarde, senhor Smith. _ Erick — Boa tarde. _ A porta se fecha. E, pela primeira vez em muito tempo, sinto vontade de ligar para o meu pai só para contrariá-lo. Só para provar que ainda tenho controle. Mas controle é exatamente o que está escapando por entre os meus dedos. LETICIA ALENCAR NARRANDO O ar da rua me atinge como um alívio quando saio da mansão. O sol já começa a baixar, mas o calor continua intenso. Caminho alguns metros antes de permitir que meus ombros relaxem. Lá dentro, tudo parece maior. Mais pesado. Ele incluído. Erick Smith não é apenas arrogante. Ele é o tipo de homem que está acostumado a mandar sem ser questionado. E isso, curiosamente, não é o que mais me assusta. O que me assusta é o silêncio por trás das palavras dele. A ferida m*l disfarçada. No ônibus, sento perto da janela e apoio a testa no vidro. Penso na conversa. Na pergunta sobre minha formação. No jeito como ele franziu o cenho ao ouvir “Administração”. Não por julgamento. Por surpresa. Letícia — Não se envolva_ digo para mim mesma, em voz baixa. _ Meu celular vibra. É a cuidadora. Cuidadora — Dona Letícia, sua mãe perguntou por você. Está mais consciente hoje. _ Sorrio, mesmo com os olhos marejados. Letícia — Estou indo agora. Obrigada por avisar. _ Desço dois pontos antes do hospital para comprar frutas. Pequenos rituais me mantêm firme. No quarto, minha mãe dorme quando chego. O peito sobe e desce com esforço, mas há paz no rosto dela. Seguro sua mão com cuidado. — Eu consegui um bom trabalho, mãe _sussurro. — Vai dar tudo certo. Não sei se acredito totalmente nisso. Mas preciso dizer. Fico com a minha mãe por um tempo, mas ela não acorda. Então decido ir para casa. [...] Mais tarde, em casa, reviso a agenda da semana. Horários. Refeições. Deslocamento. Tudo sob controle. Exceto meus pensamentos. Eles insistem em voltar para o olhar atento de Erick, para a forma como ele me observou sem me reduzir. Letícia — É só trabalho_ repito. Ainda assim, há uma inquietação nova. Uma sensação de que essa semana não será apenas sobre limpar, cozinhar e cumprir horários. ERICK SMITH NARRANDO À noite, a casa parece ainda mais silenciosa. Abro uma garrafa de uísque e me sirvo de um copo curto. A bebida desce queimando, como deveria. Ligo para meus pais porque sei que, se não ligar, minha mãe ligará. LIGAÇÃO ON Simone — Erick, querido, chegou bem? Erick — Cheguei. Eduardo — Já resolveu o que tinha que resolver? _ Meu pai entra na ligação sem pedir licença. Erick — Estou cuidando disso. Eduardo — O prazo não muda. Augusto já está se preparando. _ Fecho os olhos. Aperto o copo. Erick — Eu sei. Simone — Seu pai só quer o melhor para você. Erick — Para a empresa _corrijo. Silêncio do outro lado. Eduardo — Lembre-se do acordo. Casamento. Estabilidade. Confiança. Erick — Eu volto em alguns dias. Encerro a ligação antes que digam mais. LIGAÇÃO OFF Caminho pela sala, inquieto. A palavra “casamento” pesa como chumbo. Um contrato social para salvar um império. Um teatro necessário. Paro diante da porta da cozinha. A bancada está limpa. Organizada. Do jeito que eu gosto. Do jeito que eu não pedi, mas recebi. Erick — Administração_ repito, pensativo. Uma ideia incômoda começa a se formar. Ainda vaga. Ainda distante. Mas presente. Volto para a janela. A cidade continua viva. E, em algum lugar ali, Letícia Alencar organiza a própria semana para trabalhar na minha casa. A linha invisível entre nós permanece. Esticada. Silenciosa. E eu tenho a estranha sensação de que, se puxá-la, nada ficará no lugar. COMENTEM E VOTEM MUITO. LANÇAMENTO DIA 05/01
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