O DONO DO MORRO

1059 Words
Nicole aprendeu cedo a reconhecer o som do medo. Não era só o barulho dos tiros. Era o silêncio que vinha depois. O jeito como as pessoas fechavam as portas, como as conversas morriam no meio da frase, como o ar ficava pesado mesmo quando ninguém dizia nada. No Morro dos Prazeres, o medo tinha rotina. Hora. Endereço. Ela cresceu ali, correndo descalça pelas vielas, aprendendo a desviar de poças d’água, de olhares perigosos e de perguntas que não deviam ser feitas. Aprendeu cedo que algumas coisas não se perguntam. Não se discutem. Não se encaram de frente. Uma dessas coisas tinha nome. Caio Vinícius. C.V. O nome corria baixo, nunca alto demais. Era dito com respeito, com cuidado, às vezes com raiva contida. Para Nicole, o nome chegou antes do rosto. Chegou como um aviso. — Não fica parada aí — a mãe dizia. — O Caio tá passando. Nicole não entendia direito o que aquilo significava quando era pequena. Só sabia que, quando ele passava, o morro mudava de respiração. Como se todo mundo prendesse o ar ao mesmo tempo. Ela tinha uns doze anos quando o viu de verdade pela primeira vez. Estava sentada na escada de casa, o caderno aberto no colo, fingindo fazer lição. O sol batia forte no cimento quente, e o morro estava mais quieto do que o normal. Nicole ergueu os olhos quando sentiu a movimentação antes mesmo de ouvir os passos. Caio Vinícius vinha subindo a viela. Não vinha com pressa. Não vinha armado à mostra. Não precisava. Os homens ao redor dele se moviam com atenção, respeitando um espaço invisível que ninguém ousava cruzar. Ele não olhou para ela. E, ainda assim, foi impossível desviar os olhos dele. Caio não era bonito do jeito óbvio. Era intenso. Tinha o corpo firme, o olhar duro, a postura de quem não precisava provar nada para ninguém. O tipo de homem que não pedia passagem — o caminho simplesmente se abria. Nicole sentiu algo estranho no peito. Não soube nomear. Não era medo. Também não era admiração simples. Era uma sensação de atenção forçada, como se algo dentro dela tivesse acordado sem pedir permissão. — Entra pra dentro — a mãe chamou, baixo, urgente. Nicole obedeceu, mas não sem olhar mais uma vez. Caio já tinha passado. Levava consigo o silêncio. Naquela noite, Nicole perguntou o nome dele. — Não pergunta essas coisas — a mãe respondeu. — É melhor não saber. Mas Nicole já sabia. Sabia que aquele homem mandava ali. Sabia que ninguém falava dele em tom leve. Sabia que havia histórias — e que nenhuma terminava bem. Ela também sabia que o irmão, Rafael, andava cada vez mais próximo daquele mundo. Rafael era mais velho. Forte. Bonito. Carregava no corpo o mesmo ar de quem não tinha medo de nada. Nicole o admirava, mas também tinha medo por ele. No morro, homens assim não envelheciam fácil. Com o tempo, Caio passou a aparecer com mais frequência. Não na casa deles. Nunca assim. Mas nas esquinas, nas lajes, nos pontos onde o morro parecia respirar diferente. Nicole crescia observando. Observava o jeito como ele falava pouco. Como não precisava levantar a voz. Como ninguém discutia suas ordens. Observava o respeito duro que o cercava. O tipo de respeito que não nasce do carinho, mas da certeza de consequência. Ela crescia rápido demais. Não por escolha. Por necessidade. Aos quinze, já entendia que havia dois mundos ali. O de quem obedecia. E o de quem mandava. E Caio Vinícius estava no topo do segundo. Ela também já entendia que havia coisas proibidas não porque eram erradas, mas porque custavam caro demais. E, mesmo assim, sem perceber quando começou, Nicole passou a amar o homem errado. Não foi de repente. Não foi paixão adolescente impulsiva. Foi silencioso. Cresceu junto com ela. Cresceu nos olhares roubados, nas presenças à distância, nos momentos em que ele passava e ela fingia não notar. Caio nunca olhava para ela. Nunca do jeito que olhava para outras mulheres. Nunca do jeito que olhava para ninguém. E isso doía mais do que qualquer rejeição explícita. Quando Nicole tinha dezesseis anos, Rafael levou Caio até a casa deles pela primeira vez. Foi rápido. Uma conversa curta. Um favor pequeno. Nada que justificasse o impacto que aquilo causou nela. Caio entrou como quem pisa em território neutro. Olhou em volta com atenção calculada. Cumprimentou a mãe com respeito seco. Falou pouco. Nicole estava no canto da sala, sentada, fingindo ler. Sentiu o corpo inteiro ficar alerta. Cada músculo tenso. Cada pensamento desorganizado. — Essa é a sua irmã? — Caio perguntou a Rafael. A voz dele era grave, baixa, controlada. Rafael assentiu. — Nicole. Caio a olhou pela primeira vez de verdade. Não foi desejo. Não foi interesse. Foi avaliação. Um olhar rápido, atento, que não ultrapassou o limite. — Prazer — disse ele, educado. — Prazer — Nicole respondeu, a voz mais firme do que se sentia. E foi só isso. Mas, para ela, foi tudo. A partir daquele dia, algo mudou. Caio passou a tratá-la com um cuidado distante. Nunca brincava. Nunca se aproximava demais. Nunca permitia brecha. Ela entendeu rápido: não era falta de interesse. Era escolha. Ele a respeitava. Porque ela era irmã de Rafael. Porque ele tinha regras. Porque cruzar aquela linha significaria quebrar algo que ele não quebrava. Isso não a protegia. Apenas tornava tudo mais doloroso. Nicole cresceu ouvindo histórias sobre quem Caio Vinícius era. As mulheres que passavam por ele. As noites vazias. A fama de não se apegar. De não amar. Diziam que ele era bicho solto. Ela acreditava. E, ainda assim, o amava. Nunca disse. Nunca insinuou. Guardou tudo para si como quem guarda um segredo perigoso demais para dividir. Ela sabia que aquele amor não tinha lugar. Não tinha futuro. Não tinha permissão. Mas também sabia que não conseguiria arrancá-lo de dentro de si. O morro continuava. A vida seguia. Nicole estudava, sonhava baixo, ajudava em casa. Caio mandava, resolvia, sobrevivia. E, entre eles, havia uma distância que parecia segura. Parecia. Porque, mesmo sem perceber, Nicole estava crescendo. E o tempo não respeita promessas silenciosas. E Caio Vinícius, o dono do morro, ainda não sabia que a única coisa que realmente colocaria seu controle em risco… não vinha de fora. Vinha daquela menina que ele se recusava a olhar.
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