Capítulo 4 – O Lobo à Porta.

2168 Words
A tempestade lá fora parecia carregar meu nome em cada trovão. Eu estava sentada à janela do quarto, com os dedos entrelaçados no peitoril frio, os olhos perdidos no breu que engolia o horizonte. A ausência de Dante já durava dias. E cada noite sem ele era um novo castigo. A governanta passava por mim em silêncio, com os olhos baixos e ela observava-me com o terço apertado entre meus dedos como se fosse uma viúva de um homem que nunca foi meu. Eu não dizia nada. Apenas esperava. Esperava como quem ama e não pode confessar. Como quem deseja e se culpa por desejar. Naquela noite, o vento uivava entre as frestas da casa, e a chuva escorria pelas janelas como se tentasse invadir minha alma. Cada raio era um chicote no céu, e os trovões respondiam como tambores de guerra. Não conseguia dormir. O coração doía num compasso descompassado, e a cama parecia fria demais sem ele por perto, mesmo que ele nunca tivesse deitado nela. Levantei-me com o coração apertado, acendi o abajur com as mãos trêmulas e decidi descer até a biblioteca. Talvez uma leitura me distraísse, me tirasse por um momento dessa prisão de sentimentos. Descalça, com a camisola leve grudando à pele por causa do calor úmido da noite, caminhei pelo corredor m*l iluminado, onde só os relâmpagos me guiavam como lamparinas do céu. Desci as escadas devagar, sentindo o piso ranger sob meus pés. A biblioteca estava silenciosa e cheirava a madeira antiga e mistério. Passei os dedos pelas lombadas até encontrar um livro de capa vermelha e dourada. Um romance proibido. Quase sorri. Mas antes que pudesse me entregar à leitura, a luz apagou. Tudo. A casa inteira mergulhou na escuridão. Virei-me assustada, e meu coração parou. — Dante… Ele estava ali. Parado na porta. O corpo encharcado, os cabelos colados na testa. A camiseta branca estava suja de sangue, rasgada no ombro. Seus olhos verdes brilhavam à luz dos relâmpagos. E o olhar… o olhar era o de um predador. — Não se aproxime… — ele rosnou, a voz rouca e selvagem como trovão nas cavernas. O livro escorregou das minhas mãos e caiu no chão com um baque surdo. — Aonde você estava? — perguntei, quase num sussurro, com a garganta seca e a alma em pedaços. Ele avançou um passo, e eu recuei dois. O ar entre nós ficou pesado, como se Deus segurasse a respiração. Dante cerrou os olhos e se aproximou do meu pescoço. Respirou fundo. Me cheirou. Como um lobo sentindo o cheiro da carne antes da mordida. — Ah, Nina… — ele sussurrou com luxúria — este aroma de pureza… me enlouquece. Meu corpo inteiro estremeceu. Não de frio. Mas de um medo estranho, que queimava por dentro e me deixava fraca. Um medo doce. Um medo que desejava. Ele afastou-se com esforço. Como se lutasse contra algo dentro dele. — Volte para o seu quarto — ordenou, com os olhos semicerrados e a mandíbula tensa. — Quer que eu faça um curativo? — perguntei, tentando disfarçar a tremedeira na minha voz. — Eu… eu posso ajudar… Dante me encarou como se minhas palavras fossem um insulto. — O que eu quero de você, pequena… — ele disse entre os dentes — com certeza não pode me dar. Então saia… agora! Aquela frase atravessou meu peito como uma faca afiada. Eu sabia. Sabia o que ele queria. E, pior… parte de mim queria ser dada. Mas eu corri. Subi as escadas quase tropeçando, sentindo aqueles olhos verdes me seguirem, me possuírem mesmo à distância. Entrei no quarto, tranquei a porta e me joguei na cama. Agarrei o terço com tanta força que quase quebrei as contas. Rezei. Rezei como nunca. — Senhor… protege-me de mim mesma. — sussurrei, com a voz embargada. Dante não era apenas meu protetor. Ele era o fogo que me queimava por dentro, mesmo quando tentava me salvar. E eu… eu era só uma menina tola, assustada com o pecado… mas encantada pelo demônio que usava olhos verdes como armadura. Acordei com o coração acelerado, como se algo dentro de mim já soubesse que nada seria como antes. Um estrondo vindo da parte de baixo da casa me fez sentar na cama de súbito. As vozes masculinas soavam altas e tensas, como se estivessem discutindo. Esfreguei os olhos com as costas das mãos, tentando afastar o torpor do sono e entender o que estava acontecendo. Meu corpo ainda estava quente sob as cobertas, mas o ar ao redor parecia cortante. Então, ouvi duas batidas secas na porta. — Senhorita Nina, levante-se! — disse a governanta, antes mesmo que eu respondesse. Ela entrou sem pedir permissão, os olhos rígidos como os de uma estátua antiga. Em suas mãos, um vestido escuro e um par de sapatos de couro polido. Sua voz soou como aço sendo cravado no chão. — Irá partir em meia hora. Vista-se logo. — Partir? — perguntei confusa, puxando a manta contra o corpo. — Mas… o que está acontecendo? Ela me encarou por um segundo que pareceu durar uma eternidade. Havia algo em seu olhar que me atravessou como uma lâmina. Uma dor muda, misturada com urgência. — Faça o que estou lhe dizendo, menina. Vista-se. Coloque essa roupa e calce estes sapatos. Sem perguntas. — Mas para onde eu vou? Ela não respondeu. Apenas deixou a roupa sobre a cadeira, virou-se com frieza e saiu do quarto, batendo a porta atrás de si. Fiquei sentada na cama, tentando entender, tentando encontrar lógica naquela manhã repentina. O som dos passos apressados pela casa ainda ecoava nos corredores. Vesti-me devagar, sentindo o corpo trêmulo. A ausência de Dante se tornava um grito dentro do peito. Minutos depois, um rapaz franzino apareceu à porta. Tinha feições delicadas, cabelo bem cortado, e uma educação que beirava a reverência. — Senhorita, posso levá-la agora. — Onde está Dante? — perguntei com o coração acelerado. — Só cumpro ordens — respondeu ele com suavidade, evitando meu olhar. — Fui instruído a levá-la para um lugar seguro. — Seguro? — perguntei, já saindo atrás dele. — Seguro de quê? De quem? — Não sei, senhorita… apenas dirijo. Ele abriu a porta do carro preto, discreto, com vidros escurecidos. Entrei ainda em silêncio, olhando para trás enquanto a mansão ia ficando menor, como se desaparecesse com cada curva da estrada. Fui abraçada por um vazio estranho, uma sensação de estar sendo tirada de mim mesma. Ser protegida… Mas de quê? Eu precisava de Dante. Eu precisava das respostas que só ele podia me dar. Durante o trajeto, acabei adormecendo. O cansaço, a tensão, o medo… tudo me afundou num sono involuntário. Quando o carro parou, despertei com um leve solavanco e a voz gentil do rapaz. — Moça, chegamos. Abri os olhos ainda sonolenta. À minha frente, uma casa moderna erguia-se entre árvores altas e silêncio. Era uma construção de linhas retas, paredes claras e janelas de vidro que iam do chão ao teto. Mas apesar da beleza, havia um clima de abandono no ar. Um isolamento que me fez estremecer. — Que lugar é este? — perguntei ao rapaz. — Apenas sigo ordens, senhorita. Pediram que a deixasse aqui. Ele estendeu a mão com uma chave prateada. Peguei-a com relutância. — E… o que faço agora? — Entre. E não abra a porta para ninguém — respondeu ele, antes de voltar ao carro. Fiquei parada por alguns segundos, vendo o veículo desaparecer pela estrada de cascalho. Tudo ao meu redor parecia calado demais. Até o vento parecia respeitar o mistério. Respirei fundo, aproximei-me da porta e encaixei a chave na fechadura. A madeira cedeu, revelando uma sala ampla, com sofás de couro n***o, tapete bege e detalhes decorativos em tons claros. Havia uma frieza ali… uma beleza limpa demais. Como uma jaula de luxo. Larguei minha bolsa no chão e fechei a porta atrás de mim. O som do trinco soou como o fim de uma sentença. O silêncio era absoluto. Nenhuma voz. Nenhuma presença. Nem mesmo o cheiro de alguém que tivesse estado ali recentemente. Sozinha. Escondida. Isolada. A sensação de desconforto cresceu dentro de mim. Algo estava errado. Algo não fazia sentido. E, no fundo, eu sabia. Onde quer que Dante estivesse… ele havia me colocado aqui por um motivo. E aquele motivo ainda estava vivo lá fora. Procurando por mim. A solidão era um eco dentro daquela casa silenciosa. Após fechar a porta, respirei fundo, tentando absorver cada detalhe daquele espaço estranho que, de algum modo, parecia ter sido moldado para mim. Meus passos soavam leves demais sobre o chão de madeira, e até o som da minha respiração parecia fora de lugar. A primeira coisa que fiz foi vasculhar a casa, como se esperasse encontrar alguém escondido atrás das paredes lisas. Passei pela cozinha ampla e iluminada, percorri o corredor onde as portas dos quartos se alinhavam como sentinelas. Abri um por um. Todos vazios, limpos, arrumados. Menos um. Estava trancado. Tentei forçar a maçaneta, empurrei, até cheguei a me ajoelhar para espiar por debaixo da porta, mas não vi nada além de sombras e silêncio. Um arrepio percorreu minha espinha. Aquele cômodo escondia algo… ou alguém. Escolhi o quarto mais próximo da janela. Era simples, aconchegante, com uma cama baixa de madeira clara e cortinas brancas que dançavam ao menor sopro do vento. Ali, deitei por alguns minutos, mas o estômago começou a protestar, e fui até a cozinha ver se havia algo comestível. Esperava encontrar uma geladeira vazia ou algumas latas esquecidas… mas o que vi me tirou o fôlego. Ao abrir a geladeira, um mundo se revelou. Frutas frescas coloriam as prateleiras, verduras bem conservadas, ovos, potes de iogurte natural, garrafas de suco, tudo impecavelmente organizado. Abri as gavetas inferiores e encontrei carnes embaladas a vácuo, frango temperado, tudo etiquetado com datas recentes. O freezer guardava sorvetes… cinco sabores diferentes. Chocolate belga. Pistache. Morango. Baunilha. E até um de doce de leite, o meu favorito. Fechei a porta lentamente e fiquei ali parada, olhando o reflexo borrado do meu rosto na porta espelhada da geladeira. — Não faz sentido… — murmurei, com um nó na garganta. — Parece que o lugar… essa casa… já esperava por alguém chegar. E, neste caso, era eu. A palma da minha mão pousou sobre o mármore da bancada. Estava gelado, como se me dissesse que aquilo tudo era uma armadilha com laços bonitos e cheiro de lar. Nada era normal naquela situação. Alguém havia me colocado ali. Alguém havia pensado no que eu comeria, no que eu poderia gostar. Alguém me conhecia o suficiente para prever meus gostos e ainda assim me esconder como um segredo maldito. O pensamento veio amargo como fel. — Alguém quer me manter escondida… para que eu não seja achada. — minha voz tremeu. — Mas por quem? Fiquei ali parada, com o silêncio como única resposta. Eu era uma prisioneira em uma casa de vidro… vigiada talvez sem saber. E Dante… Dante sabia. Porque aquilo tudo tinha o cheiro dele. O cuidado que disfarçava o perigo. A proteção que mais parecia uma cela disfarçada de paraíso. Eu me sentia como um peixe fora d’água, sufocando em um mundo que não era meu. Longe do convento, do som sereno dos sinos e da segurança das orações murmuradas pelas freiras, eu estava entregue aos caprichos de um homem que se dizia meu protetor. Dante. Meu padrinho. Aquele que me resgatou do abandono, que me deu um teto e uma nova vida… mas também aquele que plantou em mim um desejo que queimava como fogo aceso em plena missa. Eu não compreendia por que ele me escolhera. Por que me tirou das mãos de Deus e me colocou sob o olhar dele, um olhar que me despia, que me perseguia até nos sonhos? O que havia em mim para despertar seu interesse? Talvez fosse minha pureza, ou talvez ele soubesse que, por trás da inocência do véu, havia uma mulher nascendo – uma mulher que ele mesmo despertava, mesmo sem tocar. Subi as escadas sem coragem de abrir a geladeira novamente. A fome era real, mas o peso na alma era maior. Entrei no quarto e travei a porta, como se o mundo lá fora pudesse me invadir. Peguei meu terço com dedos trêmulos, os olhos marejados, e comecei a rezar com urgência, implorando a Deus que arrancasse de mim esses sentimentos sujos, esse desejo proibido por Dante. “Livra-me do m*l, Senhor”, murmurei, “livra-me dele... e de mim.” Fiz o sinal da cruz, com lágrimas silenciosas escorrendo pelo rosto, e sentei na cama, tentando encontrar alívio na oração. Mas ao fechar os olhos, tudo o que vi foi Dante: sua voz rouca, sua presença densa, os olhos verdes como pecado encarnado. Era inútil. Meu corpo o desejava com a mesma força com que minha alma o temia. O pecado tinha um nome, e esse nome estava gravado no meu peito: Dante.
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