a maldade de carlos

1111 Words
Naquele dia, Julia saiu da empresa já anoitecendo. O dinheiro contado não foi suficiente nem para o ônibus. Ela respirou fundo, colocou a bolsa no ombro e começou a andar. Um passo de cada vez. A cidade parecia longa demais, escura demais. Ela caminhou por quilômetros. Mais de trinta. As pernas doíam, o corpo cansado, mas a mente estava ainda mais exausta. Já era tarde da noite quando um carro reduziu ao lado dela. O coração disparou. O vidro desceu. — Júlia. Era Carlos. Ela sentiu o estômago revirar. — Sai daqui, Carlos — disse, tentando continuar andando. Ele desceu do carro rápido. — Não. Você não vai me deixar assim. Ele segurou o braço dela com força. — Me solta, Carlos! Me solta! — Não vou soltar — disse ele, fora de si. Ele tentou se aproximar mais, a força machucando. — Você tá me machucando… me solta! Julia tentou se desvencilhar, mas ele era mais forte. O mundo pareceu girar quando ele a empurrou para dentro do carro. As portas se fecharam com um som seco que ficou gravado na mente dela. O tempo passou lento. Horas que pareceram uma eternidade. Medo, dor, desespero. Julia sentia o corpo tremer, a alma em pedaços. Quando o carro finalmente parou, Carlos abriu a porta e a empurrou para fora sem dizer nada. O veículo arrancou logo em seguida, sumindo na escuridão. Julia ficou ali, jogada no chão, encolhida, chorando. O corpo doía. O coração parecia quebrado em mil partes. Ela tentou se levantar, mas as forças não vinham. Com as mãos trêmulas, pegou o celular. A tela quase não respondia. Discou o número que agora sabia de cor. Chamou uma vez. Duas. — Oi, Júlia — a voz de Gabriel veio firme do outro lado. — Ga… Ga… — a voz dela saiu falha, gaguejando. — Me… me ajuda… Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, o celular escorregou da mão dela. Julia desmaiou ali mesmo, no asfalto frio, machucada e sozinha. Do outro lado da linha, o silêncio. Gabriel se levantou de uma vez. — Júlia? — chamou, agora com a voz dura. — Júlia?! Ele não esperou resposta. Naquele exato momento, algo mudou dentro dele. Não era mais preocupação. Era fúria. E Carlos acabava de cometer o maior erro da vida dele. O carro de Gabriel avançava pelas ruas como um vulto. Ele dirigia com uma mão firme no volante e o celular na outra, rastreando a localização. O maxilar estava travado, os olhos frios, focados. Cada segundo parecia tarde demais. Quando finalmente avistou algo caído à beira da estrada, o coração dele falhou por um instante. Ele freou bruscamente e saiu do carro antes mesmo de desligar o motor. — Júlia… — a voz saiu baixa, quase irreconhecível. Ela estava encolhida no chão, o corpo machucado, roupas sujas de sangue e poeira. O rosto pálido, os cabelos grudados na pele. Não se mexia. Não reagia. Gabriel se ajoelhou ao lado dela imediatamente. — Júlia, olha pra mim… — disse, passando a mão pelo rosto dela com cuidado extremo. — Fica comigo. Por favor. Ela não respondeu. O sangue nas mãos dele fez algo estalar por dentro. Uma fúria silenciosa, controlada à força. Ele tirou o paletó sem pensar e a cobriu, protegendo-a do frio e de olhares invisíveis. Com delicadeza — algo raro nele — passou o braço por baixo do corpo dela e a tomou nos braços. Ela era leve demais. Machucada demais. — Eu cheguei… — murmurou, mais para si do que para ela. — Você não tá sozinha. Ele a colocou no banco traseiro do carro, deitando-a com cuidado, ajustando o cinto, apoiando a cabeça dela no próprio casaco. Conferiu a respiração, o pulso. Estava fraco, mas estava lá. Gabriel fechou a porta devagar. Por um segundo, ficou parado, respirando fundo, tentando conter o que subia por dentro dele. — Ele vai pagar — disse em voz baixa, fria, absoluta. Entrou no carro e arrancou, rasgando a noite. Enquanto o veículo sumia na estrada, uma coisa era certa: a partir daquele momento, Julia não era mais apenas uma mulher ferida. Ela era alguém sob a proteção de Gabriel. E ninguém — absolutamente ninguém — machucaria o que agora pertencia ao mundo dele… sem sofrer as consequências. Algumas horas depois, Julia acordou assustada, o corpo inteiro doendo. Tentou se mexer e sentiu o colchão macio sob ela. O quarto estava na penumbra. Então viu Gabriel sentado ao lado da cama, atento a cada respiração dela. — Calma… calma — disse ele, imediatamente. — Tá tudo bem. Eu tô aqui. Assim que reconheceu onde estava, as lágrimas vieram sem aviso. Julia levou as mãos ao rosto e começou a chorar, o corpo tremendo. — Eu… eu fiquei sem dinheiro pra ir embora… — a voz saiu quebrada. — Eu não queria te incomodar. Eu só… fui andando. Eu já tinha andado mais de trinta quilômetros. Minhas pernas doíam demais, mas eu precisava chegar em casa. Gabriel permaneceu em silêncio, deixando que ela falasse no próprio ritmo. — Aí… o Carlos passou de carro — continuou, com dificuldade. — Ele parou. Começou a me agarrar. Eu pedi pra ele me soltar… pedi de verdade. Mas ele disse que isso não ia ficar assim. Que eu não podia terminar com ele daquele jeito. Que eu era dele… até ele decidir que chegava. A voz falhou. Gabriel apertou os punhos, mas não disse nada. — Ele me colocou à força dentro do carro… — Julia fechou os olhos, lágrimas escorrendo. — Foram horas de medo. De dor. Eu só queria que acabasse. Depois… ele me jogou pra fora do carro, ainda em movimento. Ela respirou com dificuldade, como se reviver aquilo tirasse o ar. — Eu tentei te ligar… mas eu desmaiei. — abriu os olhos marejados e olhou para Gabriel. — Desculpa… desculpa te envolver nisso. Eu não queria. Desculpa mesmo. Gabriel se inclinou um pouco mais, a voz firme, controlada, mas carregada de algo profundo. — Não peça desculpa — disse ele, com suavidade dura. — Você não fez nada de errado. Nada. Ele estendeu a mão devagar, esperando permissão. Julia assentiu com um leve movimento de cabeça. Ele segurou a mão dela com cuidado, como se fosse algo precioso demais para quebrar. — Você tá segura agora — continuou. — Ninguém vai te machucar mais. Eu prometo. Julia chorou mais uma vez, mas dessa vez havia algo diferente naquele choro. Não era só dor. Era alívio. E enquanto ela fechava os olhos novamente, sentindo-se protegida pela primeira vez desde aquela noite, Gabriel tomou uma decisão silenciosa e definitiva. O que Carlos tinha feito não ficaria impune. Nunca.
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