a maldade do novo patrão

1066 Words
Meses se passaram. O tempo foi duro com Júlia, mas também a fortaleceu. Ela havia conseguido um novo emprego em uma lanchonete pequena, de bairro. O salário era pouco, mas ajudava a manter a casa funcionando. A mãe fazia tratamento, a irmã seguia na escola, e Júlia continuava sendo o pilar de tudo. Ela acordava antes do sol nascer, pegava dois ônibus, trabalhava o dia inteiro em pé, chegava em casa exausta — mas com a consciência limpa. Não dependia de ninguém. No começo, o patrão parecia apenas educado demais. Sempre sorridente, sempre elogiando. — Você é muito dedicada, Júlia. Difícil achar funcionária assim hoje em dia. Ela agradecia, sem dar a******a. Com o passar das semanas, os elogios começaram a mudar de tom. — Uma menina bonita como você não devia estar se matando de trabalhar desse jeito… — Você merece mais conforto, mais dinheiro. Júlia desconversava. Algo dentro dela já estava em alerta. Até que, numa noite em que a lanchonete estava quase vazia, ele trancou o caixa mais cedo e se aproximou demais. — Júlia… vou ser direto com você — disse, apoiando o braço no balcão. — Eu gosto de você. E posso te ajudar muito. Ela sentiu o estômago gelar. — Ajudar como? — perguntou, mantendo a voz firme. Ele sorriu de um jeito que a fez querer recuar. — Cinco mil por mês. Fora o seu salário. — Ele falou como se estivesse oferecendo um favor. — Em troca, você fica comigo. Sem compromisso, sem ninguém saber. Eu resolvo seus problemas. O mundo pareceu girar. Cinco mil reais. Na cabeça dela, vieram imagens rápidas: comida farta em casa, remédios da mãe pagos sem atraso, material escolar novo pra irmã, contas quitadas. Mas logo depois veio outra imagem: ela mesma, se olhando no espelho, se odiando. Júlia respirou fundo e deu um passo para trás. — Não. — A resposta saiu firme. Ele franziu a testa. — Pensa bem. Você é pobre, Júlia. Vive se sacrificando. Isso aqui é uma chance. Você não precisa sofrer tanto. Ela sentiu a raiva subir, misturada com nojo. — Eu prefiro sofrer trabalhando do que me vender — disse, com os olhos marejados, mas a postura ereta. — E mais uma coisa: não fala da minha vida como se você soubesse dela. O sorriso dele sumiu. — Você tá cuspindo no prato que pode te salvar — respondeu, frio. — Gente como você não costuma ter muitas oportunidades. Ela pegou a bolsa com as mãos trêmulas. — Então me demite. — A voz falhou, mas não quebrou. — Mas eu não faço isso. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, avaliando. — Vai se arrepender — disse por fim. Júlia saiu da lanchonete com o coração disparado, sentou na calçada e chorou. Não de fraqueza. De cansaço. De revolta. De orgulho também. Naquela noite, ao chegar em casa, abraçou a mãe e a irmã com mais força do que de costume. Ela não tinha dinheiro. Não tinha proteção. Não tinha garantias. Mas ainda tinha algo que ninguém tinha conseguido tirar dela: A dignidade. E, em algum lugar da cidade, Gabriel receberia em breve uma informação que faria o passado voltar a bater à porta — porque o mundo insistia em testar até onde ia a força daquela mulher. E ele… não era mais o homem que apenas observava de longe. Nos dias seguintes, o ambiente na lanchonete mudou completamente. O patrão passou a vigiar Júlia de perto. Corrigia coisas pequenas, reclamava de detalhes que nunca haviam sido problema. — Esse balcão ainda tá sujo. — Você demorou demais no atendimento. — Aprende a sorrir mais pros clientes. Ela engolia seco e fazia tudo em silêncio. Precisava do emprego. Precisava daquele dinheiro. Mas as investidas não pararam. Num fim de tarde, quando ela foi até o estoque pegar refrigerante, sentiu a presença dele atrás. — Júlia… — a voz saiu baixa demais. — Eu pensei no que você disse. Ela gelou, mas continuou mexendo nas caixas. — Eu já respondi, senhor. — Não precisa ser tão dura — ele disse, se aproximando mais. — Eu não tô te obrigando a nada. Só tô oferecendo uma vida melhor. Ela se virou rápido. — Eu não quero. E peço que o senhor me respeite. O olhar dele escureceu. — Respeito custa caro — respondeu. — E você não tem muito poder aqui. Na semana seguinte, o horário dela foi trocado para o pior turno. Mais pesado. Mais cansativo. Ele sempre dava um jeito de ficar sozinho com ela no fechamento. — Cinco mil ainda estão de pé — disse uma noite, encostado na porta. — Posso pagar adiantado. — Não — ela respondeu, firme, mesmo com o coração disparado. — Você é teimosa — ele sorriu torto. — Mas toda mulher cansa de sofrer. Ela passou a evitar ficar sozinha. Saía rápido, pedia ajuda às colegas, inventava desculpas. Mesmo assim, o medo crescia. Até que, numa noite chuvosa, ele cruzou o caminho dela no corredor estreito dos fundos e bloqueou a passagem. — Já chega de joguinho, Júlia. — Sai da frente — ela disse, sentindo o corpo tremer. — Você acha que vai achar algo melhor? — ele riu. — Sem estudo, sem indicação… com essa vida difícil? Eu sou a melhor chance que você tem. Ela sentiu as lágrimas queimarem, mas levantou o queixo. — Eu prefiro passar fome do que me perder de mim mesma. O silêncio ficou pesado. Ele deu um passo para trás, irritado. — Então acabou. — A voz saiu fria. — Amanhã nem aparece mais. Vou dizer que você roubou do caixa. Quem vai acreditar em você? O mundo dela desabou por um segundo. — O quê? — a voz saiu fraca. — Vai embora — ele apontou para a porta. — Antes que eu mude de ideia. Júlia saiu da lanchonete tremendo, com a chuva misturando-se às lágrimas. Andou sem rumo por alguns minutos até sentar num ponto de ônibus vazio. Desempregada. De novo. Injustiçada. De novo. Sozinha… quase. Ela pegou o celular, encarou a tela por longos segundos. Não queria incomodar. Não queria depender. Mas a exaustão venceu. Digitou uma única mensagem: > Júlia: “Gabriel… eu tentei resolver sozinha. Mas eu não tô conseguindo.” Do outro lado da cidade, Gabriel leu a mensagem e fechou os olhos por um segundo. Dessa vez, ele não iria apenas observar.
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