dívidas antigas sendo cobrada😓

1079 Words
Semanas tinham se passado em um silêncio estranho. Júlia começava a respirar melhor. Ainda com medo, ainda cautelosa, mas viva. A casa estava mais tranquila naquele dia. A mãe lavava a louça, a irmã fazia a lição na mesa, Júlia dobrava roupas no sofá. A campainha tocou. A mãe estranhou. Não esperava ninguém. — Boa tarde — disse ela, abrindo a porta com cuidado. Dois homens estavam do lado de fora. Roupas escuras, expressão dura, olhos frios. — Boa tarde, senhora. Viemos buscar suas filhas. O coração da mãe disparou. — Como assim? — ela perguntou, confusa. — Vocês devem estar enganados. Um deles deu um passo à frente. — A dívida do seu marido venceu. Dívida antiga. — Ele falou como quem comenta o tempo. — E suas filhas são o pagamento. — Não… — a mãe sentiu as pernas fraquejarem. — Não, por favor… meu marido sumiu há anos, eu não tenho nada a ver com isso… Júlia apareceu no corredor, sentindo algo muito errado. — Mãe? — chamou. Quando viu os homens, o sangue gelou. — Não, não, não! — Júlia correu até a porta. — Me dá um tempo! Eu consigo o dinheiro! Não leva a gente, por favor! — Não estamos aqui pra negociar — respondeu o outro, já entrando. — É ordem. — Não! — a mãe gritou, tentando se colocar na frente. Um dos homens a empurrou com força. Júlia gritou. — Mãe! — A irmã começou a chorar, desesperada. — Mãe, socorro! Os homens seguraram Júlia e a irmã pelos braços. A menina de doze anos gritava, se debatendo. — Júlia! — a mãe tentou se levantar do chão. — Júlia, pelo amor de Deus! — MÃE! — Júlia gritou, em pânico. — Mãe, eu te amo! Cuida de você! A porta foi fechada com violência. O carro arrancou. A casa ficou em silêncio absoluto… quebrado apenas pelo choro desesperado da mãe. O celular de Júlia estava esquecido no sofá. Ele começou a tocar. A mãe, tremendo inteira, se arrastou até o sofá e atendeu, chorando. — Alô…? — Júlia? — a voz de Gabriel veio do outro lado. — Tá tudo bem? A mulher m*l conseguia falar. — Gabriel… — ela soluçava. — Me ajuda… por favor… dois homens vieram aqui… levaram minhas filhas… disseram que é uma dívida antiga do meu marido… disseram que elas são o pagamento… Do outro lado da linha, o silêncio durou menos de um segundo. Mas foi o silêncio mais perigoso que aquela mulher já ouviu. Quando Gabriel voltou a falar, a voz estava fria. Mortalmente calma. — Senhora… olha pra mim agora. Respira. — Ele falava com precisão absoluta. — Elas vão voltar. As duas. Eu prometo. — Eles levaram… levaram minhas meninas… — ela chorava, sem ar. — Escuta bem — Gabriel disse, já se levantando, já em movimento. — Não desliga esse telefone. Eu vou rastrear a ligação. Quero nomes, quero descrição do carro, qualquer detalhe que a senhora lembrar. A mãe respirou fundo, tentando obedecer. — Gabriel… — ela chorou — por favor… a Júlia já sofreu demais… A resposta veio sem hesitar: — Quem tocou nelas… acabou de assinar a própria sentença. Do outro lado da cidade, Gabriel já vestia o casaco, os olhos duros como pedra. Aquilo não era mais proteção. Era guerra. E ninguém… ninguém tocava em Júlia e na irmã dela e continuava respirando como se nada tivesse acontecido. O carro seguiu por estradas cada vez mais afastadas. Júlia tentava manter o corpo da irmã colado ao seu, como se pudesse protegê-la só com os braços. Bia chorava em silêncio, tremendo. — Não chora, meu amor… — Júlia sussurrou, mesmo com o próprio coração em desespero. — Eu tô aqui. Não solta de mim. Depois de muito tempo, o carro parou diante de um portão alto de ferro. Câmeras, homens armados, muros grossos. Uma fortaleza isolada, fria, sem qualquer sinal de vida ao redor. Elas foram puxadas para fora. O lugar cheirava a perigo. Foram levadas por corredores longos até um salão amplo, iluminado demais. No centro, um homem sentado em uma poltrona escura, postura relaxada demais para alguém tão perigoso. Olhos frios. Sorriso lento. Ele se levantou e caminhou em volta delas, avaliando como se fossem objetos. — Ora, ora… — disse, com a voz grave. — Vocês são lindas demais. Júlia imediatamente puxou Bia para trás de si. — Não encosta nela — disse, com firmeza, mesmo com a voz tremendo. — Ela é só uma criança. O homem arqueou a sobrancelha, divertido. — Corajosa. — Ele observou melhor. — Duas ruivas… olhos azuis. Raras. — Júlia, 22 anos… — continuou, como se já soubesse tudo. — E você… — olhou para a menor — Bia. 13. Bia apertou a blusa de Júlia com força. — O que você quer da gente? — Júlia perguntou, o maxilar tenso. — Dívidas antigas — ele respondeu com desdém. — Seu pai fez escolhas. Agora o mundo cobra. Sempre cobra. — Ele não faz parte das nossas vidas! — Júlia retrucou. — Não somos moeda de troca. O homem riu baixo. — Todo mundo é moeda de troca em algum momento. Ele fez um gesto com a mão. — Levem a menor para um quarto. Tratem bem. — O olhar endureceu. — E ninguém toca nela. Está claro? Bia gritou. — NÃO! Júlia! — Bia! — Júlia tentou avançar, mas foi segurada. — Calma — disse o homem, frio. — Se você colaborar, ela fica bem. Se não… — ele deixou a frase no ar. — Eu faço o que você quiser — Júlia disse rapidamente. — Mas não machuca minha irmã. Por favor. O homem a encarou por alguns segundos e sorriu de canto. — Boa escolha… por enquanto. Bia foi levada chorando, estendendo a mão. — Não me deixa, Ju… — Eu vou te buscar — Júlia gritou. — Eu prometo! Eu prometo! O salão ficou em silêncio quando a porta se fechou. Júlia ficou sozinha, respirando com dificuldade, lutando para não cair. Ela fechou os olhos por um segundo. Gabriel… Se você estiver vindo… chega logo. Muito longe dali, vários carros avançavam pela estrada, coordenados, silenciosos. Gabriel observava um mapa iluminado, os olhos duros. — Encontramos — disse alguém. Ele assentiu uma única vez. — Ninguém toca nelas — respondeu, com a voz baixa e definitiva. — Entrem. Tragam as duas pra casa. A fortaleza ainda estava de pé. Mas não por muito tempo.
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