eu prometo

1225 Words
Ela criou uma rotina silenciosa, quase sagrada. De manhã cedo, Júlia saía do hospital com cuidado, como se tivesse medo de acordá-lo. Ia trabalhar, o pensamento inteiro preso naquele quarto branco. Contava as horas. Fazia tudo direito, mas o coração já estava no caminho de volta. Quando retornava, ele sempre abria um sorriso cansado ao vê-la. — Achei que hoje você ia demorar — ele dizia. — Eu sempre volto — ela respondia, simples, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. À noite, ela puxava a cadeira para mais perto da cama. Às vezes deitava de lado, com cuidado para não encostar nos curativos, e ficava ali, segurando a mão dele. Outras vezes, colocava um filme baixinho no celular, apoiava na mesinha e os dois assistiam juntos. Eles riam de cenas bobas. Comentavam personagens. Às vezes nem assistiam direito — só ficavam ali, sentindo a presença um do outro. — Sabe — ele falou uma noite, olhando para o teto —, eu já dormi em lugares piores, mas nunca me senti tão em casa quanto agora. Ela apertou a mão dele. — Casa não é lugar, Gabriel. É quem fica. Quando o sono vinha, Júlia encostava a cabeça no peito dele, ouvindo o coração bater firme, vivo. Ele passava os dedos devagar pelos cabelos dela, num gesto quase tímido, como se ainda estivesse aprendendo a tocar alguém sem medo. — Não vai embora — ele murmurava, meio dormindo. — Não vou — ela sussurrava. — Dorme. E assim eles ficavam. Entre curativos, filmes repetidos e sorrisos silenciosos. Dois sobreviventes aprendendo, pouco a pouco, que amor também pode ser descanso. dias depois ... Júlia sentiu o chão desaparecer sob os pés. Ela ficou parada, escondida atrás da porta entreaberta, o coração disparado, o ar preso no peito. Cada palavra que vinha de dentro do quarto parecia atravessá-la inteira. Marijou apertou mais a mão dele, o sorriso forçado. — Você tá falando isso agora porque tá fraco, machucado… quando sair daqui vai voltar a ser quem sempre foi. O homem que precisa de alguém do mesmo nível. Do mesmo mundo. Gabriel puxou a mão, firme apesar da fraqueza. — Não ouse falar dela assim. Você não sabe o que ela aguentou. Você não sabe o que é ser forte de verdade. — Gabriel… — Marijou respirou fundo, tentando manter o controle. — Isso é paixão passageira. Aquela garota não faz ideia de onde você vive. Do que você é. Ela vai sofrer. — Eu sofri a vida inteira sem ela — ele respondeu, a voz baixa, mas cortante. — E desde que ela entrou na minha vida, eu sei exatamente quem eu sou. E o que eu quero. Júlia sentiu as lágrimas escorrerem, silenciosas. Marijou se levantou, ajeitando o vestido. — Sua mãe não vai aceitar isso. — Minha mãe não escolhe minha mulher. Nem minha vida. Houve um silêncio pesado. — Então é isso? — Marijou perguntou, fria. — Você joga tudo fora por ela? — Eu nunca tive nada de verdade antes dela — ele respondeu. — Então não estou jogando nada fora. Estou escolhendo. Marijou deu um riso curto, amargo. — Quando isso explodir, não venha atrás de mim. — Não vou — ele disse, sem hesitar. Ela saiu do quarto passando por Júlia sem sequer olhá-la, como se ela não existisse. Júlia ficou ali por alguns segundos, tremendo, até criar coragem de entrar. Quando Gabriel a viu, o rosto dele mudou na hora. — Júlia… — a voz saiu suave, preocupada. — Há quanto tempo você tá aí? Ela tentou sorrir, mas não conseguiu. — O suficiente — respondeu, a voz embargada. Ele estendeu a mão. — Vem aqui. Ela se aproximou devagar. Quando ele segurou a mão dela, foi como se tudo se encaixasse de novo. — Me desculpa você ter visto isso — ele disse. — Eu nunca quis te expor a esse tipo de coisa. — Você não fez nada errado — ela respondeu, enxugando as lágrimas. — Eu só… fiquei com medo. Por um segundo. — Medo de quê? Ela respirou fundo. — De achar que eu não pertencia ao seu mundo. Ele levou a mão dela até o peito. — Escuta isso. — Ela sentiu o coração dele bater. — É aqui que você pertence. O mundo que vier depois… eu enfrento. Ela chorou de verdade então, mas dessa vez nos braços dele. — Eu não preciso de promessas — ela disse, baixinho. — Eu só preciso saber que você me escolhe. Gabriel encostou a testa na dela. — Todos os dias. Sem exceção. Ele passou o polegar no rosto dela, enxugando as lágrimas com um cuidado quase reverente. — Júlia… — ele sussurrou. — Eu sei que meu mundo assusta. Eu sei que tem gente, tem regras, tem sombras. Mas eu nunca vou deixar que nada disso encoste em você. Nunca. Ela respirou fundo, tentando organizar tudo o que sentia. — Eu não tenho medo do seu mundo, Gabriel — ela respondeu, com a voz firme apesar do coração acelerado. — Eu tenho medo de perder você nele. Ele fechou os olhos por um instante, como se aquelas palavras o atingissem em cheio. — Isso não vai acontecer — disse. — Eu sobrevivi a tiros, a traições, a guerras que você nem imagina… mas sobreviver sem você, isso sim eu não sei fazer. Ela sorriu entre lágrimas. — Você fala como se eu já fosse sua esposa. — Porque no meu coração você já é — ele respondeu sem hesitar. Júlia sentou-se na beira da cama, segurando a mão dele com força. — Quando eu cheguei aqui hoje… — ela confessou — eu pensei que talvez fosse melhor me afastar. Que eu estivesse atrapalhando sua vida, sua família, tudo. — Nunca mais pense isso — ele disse, sério. — Você não é um peso. Você é a única coisa leve na minha vida. Ela abaixou a cabeça, emocionada. — Eu fiquei aqui todas as noites porque eu quis — continuou ela. — Porque eu amo estar com você. Porque quando eu seguro sua mão, o mundo fica menos c***l. Ele sorriu fraco. — Você salvou mais do que meu corpo, Júlia. Salvou o homem que eu estava perdendo. Ela se inclinou e encostou a testa na dele. — Então promete uma coisa pra mim? — O que você quiser. — Que quando tentarem nos separar… — ela respirou fundo — você vai lutar. Não com violência, não com armas. Mas com verdade. Ele apertou a mão dela. — Eu prometo lutar por nós. Do jeito certo. Do jeito que você merece. Ela finalmente sorriu de verdade. — Então eu fico. — Eu nunca duvidei — ele respondeu. Eles ficaram ali em silêncio por alguns minutos, apenas sentindo a presença um do outro, até que Gabriel quebrou o silêncio com um meio sorriso: — Sabe… os médicos disseram que eu melhoro mais rápido quando você está aqui. Ela riu baixinho. — Ah, então é isso? Eu sou parte do tratamento? — A parte mais importante — ele disse. — E a única que eu não quero ter alta. Ela se inclinou e o beijou de novo, um beijo calmo, profundo, cheio de promessa. Dessa vez, não havia dúvidas. Nem medo. Só a certeza silenciosa de que, apesar de tudo, eles estavam escolhendo um ao outro.
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