Assim que entraram na casa, o silêncio sofisticado do lugar envolveu Julia. Tudo ali parecia grande demais, luxuoso demais para alguém que vinha de uma vida tão simples.
A mãe de Carlos surgiu do corredor, elegante, com um sorriso educado no rosto.
— Boa noite, meu filho — disse ela, aproximando-se. — Boa noite, Julia.
— Boa noite, dona Helena — respondeu Julia, um pouco tímida, mas respeitosa.
Carlos deu um beijo rápido no rosto da mãe.
— A gente só vai subir um pouco. Já já saímos para jantar.
— Claro — respondeu ela. — Aproveitem.
Como sempre, o pai de Carlos não estava em casa. Nunca estava. Viagens constantes, negócios misteriosos, ausência permanente. Julia já estava acostumada com aquela distância silenciosa, mas, no fundo, sempre achou estranho como ele parecia existir mais como um nome do que como presença.
Carlos segurou a mão de Julia e a levou até o quarto. Assim que a porta se fechou, ele abriu o guarda-roupa e retirou uma caixa grande, cuidadosamente embalada.
— O vestido está aí dentro. Fica à vontade, vou te esperar lá embaixo — disse ele, deixando um beijo leve na testa dela antes de sair.
Julia entrou no banheiro e tomou um banho demorado. A água quente escorrendo pelo corpo parecia levar embora o cansaço do dia. Quando saiu, abriu a caixa com cuidado. O vestido era simplesmente lindo. Delicado, elegante, algo que ela nunca imaginou vestir.
Ela se arrumou com calma, vestiu o vestido e se olhou no espelho. Julia era linda. Magrinha, de pele branquinha, cabelos ruivos que caíam suavemente sobre os ombros e olhos azuis intensos, que contrastavam com a simplicidade do seu jeito. O reflexo mostrava uma jovem que parecia pertencer àquele mundo — mesmo sem saber o preço que ele cobrava.
Por alguns segundos, ela sorriu para si mesma, sem imaginar que aquela beleza, naquela casa, naquela noite, chamaria atenções que iriam muito além de um simples jantar romântico.
Eles seguiram para o restaurante. O lugar era sofisticado, iluminado por luzes quentes e preenchido por conversas baixas e risadas elegantes. Carlos escolheu uma mesa reservada, afastada, como se quisesse que aquela noite fosse apenas deles.
Durante o jantar, conversaram, riram bastante, relembraram momentos do início do namoro. Julia se sentia leve, feliz, quase esquecendo das preocupações que sempre carregava. Por alguns instantes, acreditou que aquela noite realmente fosse perfeita.
Até que, de repente, uma mulher loira, extremamente bonita e segura de si, passou perto da mesa. Ela olhou diretamente para Carlos e sorriu. Sem pensar duas vezes, ele se levantou.
— Já volto — disse rapidamente.
A mulher se aproximou ainda mais. Julia, educada, levantou levemente o rosto.
— Oi.
— Oi — respondeu a loira, avaliando Julia dos pés à cabeça antes de voltar o olhar para Carlos.
Eles trocaram algumas palavras em voz baixa. Julia não conseguiu ouvir, mas percebeu o tom íntimo, familiar demais para simples educação.
— Depois a gente se fala, tá? — disse Carlos à mulher, tocando de leve no braço dela.
A loira sorriu, satisfeita, e se afastou.
Julia respirou fundo, sentindo o incômodo crescer no peito.
— Carlos… por que você não me apresentou?
Ele voltou a sentar, descontraído demais.
— Ah, amor, era só uma amiga. Nada demais.
— Amiga? — Julia franziu a testa. — Então por que eu não podia saber quem ela é? Você tem vergonha de mim, é isso?
O sorriso dele desapareceu por um instante.
— Julia, não estraga nosso jantar, tá?
O silêncio se instalou entre eles. Julia abaixou o olhar, mexendo no guardanapo, sentindo aquela pontada conhecida de insegurança. Algo ali não fazia sentido. Aquela mulher, aquele jeito… havia coisas na vida de Carlos que ele nunca fazia questão de explicar.
E, sem saber, Julia acabava de dar o primeiro passo rumo a uma verdade que doeria mais do que ela poderia imaginar.
Depois do jantar, já do lado de fora do restaurante, Carlos abriu a porta do carro e ficou em silêncio por alguns segundos. O clima leve de antes havia desaparecido.
— Você vai lá pra casa,amor? — perguntou ele, tentando soar casual.
Julia respirou fundo antes de responder.
— Não… me leva pra minha casa.
Carlos virou o rosto devagar, claramente frustrado.
— Poxa, Júlia… eu pensei que a gente fosse ter uma noite juntos.
Ela o encarou com calma, apesar do coração apertado.
— Nãoestou a fim mais. Obrigada carlos pelo o jantar, tá?mais eu prefiro ir pra minha casa.
O sorriso dele sumiu por completo. Carlos fechou a cara, entrou no carro sem dizer mais nada e ligou o motor. Durante todo o caminho, ficou quieto, rígido, os olhos fixos na rua.
Julia olhava pela janela, sentindo um peso estranho no peito. Ela sabia que tinha feito o que achava certo, mas também sentia que, a partir daquele momento, algo entre eles havia mudado — como se uma linha invisível tivesse sido cruzada.
Quando o carro parou em frente à casa simples dela, Carlos apenas disse, seco:
— Chegamos.
Julia abriu a porta, desceu e fechou com cuidado.
— Boa noite, Carlos.
Ele não respondeu. Apenas arrancou com o carro, deixando para trás o som dos pneus no asfalto e uma Julia parada na calçada, com a sensação inquietante de que aquela noite especial não tinha terminado ali — ela apenas havia começado a revelar o que Carlos realmente era.