Gabriel sempre por perto

1391 Words
Gabriel leu a mensagem devagar. Uma vez. Duas. Na terceira, a mão dele já estava fechada em punho. Ele ligou na mesma hora. — Júlia… — a voz dele saiu baixa, controlada à força. — Olha pra mim pelo telefone agora e respira comigo, tá? Devagar. Do outro lado, ela chorava. — Eu tô com medo, Gabriel… — a voz dela falhava. — Eu aguentei o máximo que deu. Eu juro que aguentei. Mas agora ele disse que vai dizer que eu roubei o caixa. Que eu vou presa. Que só ele pode me tirar dessa… e que pra isso eu vou ter que ser dele. O silêncio de Gabriel durou alguns segundos. Quando ele voltou a falar, a voz não tremia. Era firme. Fria. Protetora. — Júlia, escuta com atenção o que eu vou te dizer agora. Você não fez nada de errado. Nada. E você não vai ser presa. E você não vai ser de ninguém. — Mas ele é o dono… — ela soluçou. — Quem vai acreditar em mim? — Eu. — Ele respondeu sem hesitar. — E isso basta. Ela respirou fundo, tentando se acalmar. — Você não vai voltar lá amanhã — ele continuou. — Não atende ligação dele, não responde mensagem, não aparece naquele lugar. Você vai ficar em casa. Hoje, amanhã e o tempo que for preciso. — Gabriel… eu não quero te trazer mais problemas… — Júlia — ele a interrompeu, com a voz firme, mas cheia de cuidado — isso não é problema. Isso é injustiça. E comigo, injustiça não passa. Ela ficou em silêncio. — Agora me escuta bem — ele disse. — Você vai anotar tudo o que aconteceu. Datas, horários, o que ele falou, onde ele te encostou, quem estava por perto. Guarda qualquer mensagem, qualquer áudio. Não apaga nada. — Tá… — ela respondeu, ainda assustada. — Esse homem acha que você é fraca porque você é pobre. Ele acha que pode comprar seu corpo porque você precisa sobreviver. — A voz de Gabriel endureceu. — Ele vai aprender que escolheu a pessoa errada pra tentar destruir. — Eu não quero vingança… — ela sussurrou. — Eu só quero paz. — E é exatamente isso que você vai ter. — Ele respirou fundo. — Mas paz, às vezes, vem depois de justiça. Ela chorou mais uma vez, mas agora havia algo diferente naquele choro: alívio. — Obrigada por não me julgar… — ela disse. — Todo mundo acha que a gente provoca, que a culpa é nossa… — Nunca foi sua culpa. Nunca será. — Ele falou com convicção. — Você é forte, Júlia. Mas ninguém é obrigado a ser forte o tempo todo sozinho. — E se ele realmente fizer a denúncia? Gabriel respondeu sem hesitar: — Se ele fizer, quem vai precisar de advogado é ele. Ela sentiu um arrepio. — Descansa agora — ele completou. — Fecha a porta, fica com sua mãe e sua irmã. Eu vou cuidar disso. E eu te prometo uma coisa… — O quê? — Esse homem nunca mais vai chegar perto de você. Nem de nenhuma outra mulher. A ligação terminou, e Júlia ficou sentada na cama, abraçando o celular contra o peito. Pela primeira vez em meses, o medo não dominava tudo. Enquanto isso, Gabriel já estava em movimento. Não por raiva cega. Mas por algo muito mais perigoso: Ele tinha decidido proteger Júlia até o fim. Gabriel não dormiu naquela noite. Assim que desligou com Júlia, vestiu o casaco, pegou as chaves e saiu. Não havia pressa nos movimentos, mas havia decisão. Ele fez algumas ligações curtas, objetivas. Nada de gritos. Nada de ameaças vazias. — Quero tudo sobre a lanchonete. Dono, funcionários, câmeras, caixa, histórico trabalhista. Tudo. — Pausa. — Hoje. Horas depois, ainda antes do amanhecer, as informações começaram a chegar. O “patrão exemplar” tinha histórico. Duas ex-funcionárias que saíram “do nada”. Uma acusação antiga abafada. Câmeras que convenientemente “quebravam” em certos horários. Caixa sem auditoria. Tudo sujo. Tudo frágil. Gabriel fechou os olhos por um segundo. — Ele achou que podia brincar com a vida errada — murmurou. Enquanto isso, Júlia tentava viver o dia mais longo da sua vida. Acordou cedo por hábito, mesmo sem trabalho. Preparou o café simples, ajudou a irmã a se arrumar para a escola, fingiu normalidade para a mãe. — Filha, você tá pálida… — a mãe disse, preocupada. — É só cansaço, mãe — Júlia sorriu fraco. — Logo passa. Mas não passava. O celular vibrou. Número desconhecido. Ela sentiu o coração disparar e não atendeu. Logo veio a mensagem. > “Você fez a escolha errada. Ainda dá tempo de consertar.” As mãos dela começaram a tremer. Apagou a mensagem sem responder, como Gabriel havia orientado. Minutos depois, outra vibração. > “A polícia passa aí hoje.” Júlia sentou na cama, o ar faltando. Foi até o banheiro, molhou o rosto, respirou fundo. — Não — disse a si mesma. — Eu não fiz nada. O celular vibrou de novo. Dessa vez, era Gabriel. — Júlia, olha pra mim — ele disse, assim que ela atendeu. — Ele entrou em contato? — Sim… — a voz dela saiu baixa. — Disse que a polícia vem aqui. — Não vem — Gabriel respondeu, firme. — Quem vai receber visita hoje é ele. Ela engoliu em seco. — O que você fez? — O que precisava ser feito dentro da lei… e um pouco além da coragem dele. — Pausa. — Você confia em mim? Ela respirou fundo. — Confio. — Então faz exatamente o que eu vou te dizer. Se alguém bater na sua porta hoje, você não fala nada sem um advogado. Nada. Mas é muito provável que ninguém apareça aí. — Gabriel… — a voz dela falhou — e se isso der errado? — Não vai — ele respondeu, sem hesitar. — Porque dessa vez você não está sozinha. No fim da tarde, a lanchonete foi fechada às pressas. Carros parados na porta. Funcionários confusos. O “patrão” pálido, suando, tentando ligar para contatos que não atendiam mais. Denúncia formal. Auditoria surpresa. Depoimentos que finalmente vieram à tona quando alguém garantiu proteção. Quando ele percebeu que o chão tinha sumido sob seus pés, foi tarde demais. — Eu só quis ajudar aquela menina… — ele tentou dizer. A resposta veio seca: — O nome disso é assédio, coação e extorsão. Naquela noite, Júlia recebeu uma última mensagem daquele número desconhecido. > “Você venceu. Mas isso não acaba assim.” Antes que o medo voltasse, outra mensagem chegou. > Gabriel: “Acabou sim. Pode dormir em paz.” Ela sentou na cama, levou a mão ao peito e chorou. Não de desespero. De alívio. Horas depois, o interfone tocou. A mãe de Júlia foi atender, assustada. Quando abriu a porta, havia uma mulher elegante, postura firme. — Boa noite. Sou advogada. Vim deixar alguns documentos e garantir que sua filha está protegida. Júlia apareceu atrás da mãe, confusa. — O processo contra o antigo empregador já está em andamento — a mulher explicou. — E há uma proposta de indenização. Nada que a obrigue a aceitar, claro. Quando a porta se fechou, Júlia deslizou até o chão, sem forças. O celular vibrou mais uma vez. — Eu não pedi isso… — ela disse quando atendeu. — Eu sei — Gabriel respondeu. — Você pediu só pra não ser destruída. E isso eu não negocio. Houve silêncio. — Gabriel… — ela falou baixo — eu tentei viver sem você. De verdade. Ele respirou fundo do outro lado. — E eu tentei ficar longe. Mas tem coisas que a gente não escolhe. — Eu tô com medo de depender de você… — Então não depende — ele respondeu com calma. — Caminha comigo. No seu ritmo. Mas não me empurra pra longe achando que você precisa sofrer sozinha pra merecer viver. As lágrimas escorreram em silêncio. — Você ainda quer ir embora da minha vida? — ele perguntou, por fim. Júlia fechou os olhos. — Não… — sussurrou. — Mas dessa vez… eu quero ficar sem me perder. A voz de Gabriel suavizou. — Então fica. Eu fico também. E, pela primeira vez em muito tempo, Júlia sentiu algo que nunca tinha tido de verdade: Futuro.
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