Ela respirou fundo e assentiu, enxugando o rosto com as mãos.
— Olha… você tem razão. Minha mãe disse a mesma coisa. Ela sempre fala que, se algo machuca a gente, se faz m*l, é porque não é pra ser nosso. — deu um meio sorriso triste. — Mas tá tudo bem, né? A vida é isso… errar, tropeçar e começar de novo.
Ela levantou o olhar para ele, sincera.
— Muito obrigada por ter me tirado daquela festa. De verdade. Eu não estava bem… não sei nem o que aconteceu comigo naquele estado.
— Você foi sozinha? — ele perguntou, atento.
— Não… eu fui com uma amiga. — Julia pegou o celular. — Deixa eu ver se tem alguma ligação dela aqui…
Ela olhou a tela por alguns segundos e soltou um riso sem graça.
— Como eu já imaginava.
— O quê? — ele perguntou.
— Nenhuma ligação. Nenhuma mensagem. — deu de ombros. — Ou ela nem percebeu que eu sumi… ou tá se agarrando com alguém. Ou então eu não faço tanta diferença assim, como sempre. Mas tudo bem.
Ela respirou fundo.
— Obrigada de verdade por ter me tirado de lá. Eu juro pra você, eu não sou assim. Eu não bebo desse jeito… não entro em carro de estranho, não vou pra casa de estranho. — ela sorriu, meio sem jeito. — Eu não sou assim, tá? Eu sou só… uma jovem qualquer. Tenho 21 anos.
Ele permaneceu em silêncio, deixando que ela falasse.
— Eu trabalho numa empresa como secretária. Ainda tô aprendendo. Consegui esse trabalho por causa do Carlos… então eu nem sei se vou ficar lá por muito tempo. Antes eu trabalhava numa lanchonete, mas fui demitida. — baixou a voz. — Não contei pra minha mãe.
Ela suspirou, como se o peso aumentasse a cada palavra.
— Minha mãe tem um problema sério nas mãos, não consegue mais trabalhar. Então sou eu que sustento a casa. Sustento minha mãe, minha irmã… compro material escolar, roupa, tudo. Meu pai… — ela riu sem humor. — Meu pai sumiu do mundo há um tempo. Disse que ia atrás de algo melhor pra gente, mas acho que foi pra ele mesmo.
Ela deu de ombros, tentando parecer forte.
— Eu não julgo, não. Cada um faz suas escolhas. Só é r**m porque minha irmã sente muita falta. Minha mãe também. Eu… eu já aprendi a suportar.
Ela olhou para ele com um sorriso frágil.
— Sabia que eu nunca pedi dinheiro pro Carlos?
— Nunca? — ele perguntou, surpreso.
— Nunca. — ela confirmou. — E ele também nunca deu. Engraçado, né? Ele sabia de tudo. Às vezes me ligava perguntando se eu tinha almoçado. Eu dizia que não… porque só tinha um pouco de comida em casa e eu deixava pra minha mãe e pra minha irmã. E ele nunca mandou nem um lanche, nada. Mas tudo bem.
Ela respirou fundo, mais consciente agora.
— Acho que eu só me dei conta tarde demais… mas eu também não sou o tipo de mulher que termina relacionamento por dinheiro ou por não receber ajuda. Não sou assim.
Ela ajeitou a toalha nos ombros e falou mais baixo, quase como um segredo.
— Eu vou começar a trabalhar à noite também. Minha mãe não sabe ainda. É numa boate… vou trabalhar como garçonete. Vou sair da empresa, ficar um pouco com elas, e lá pelas nove da noite eu saio pra trabalhar. Depois, quando acabar, vou direto pra empresa de novo. Troco de roupa lá ou no caminho. Eu preciso. É necessário.
O silêncio tomou conta do quarto por alguns segundos.
Ele a olhou com intensidade — não de desejo, mas de algo muito mais profundo: interesse, respeito… e cálculo.
— Você não é fraca, Julia — disse por fim, com voz firme. — Você é forte demais pra alguém que nunca teve escolha.
Ela o encarou, surpresa com aquelas palavras.
E, naquele instante, sem perceber, Julia acabava de revelar todas as suas vulnerabilidades ao homem errado…
ou ao único homem capaz de mudar tudo.
Ele respirou fundo antes de falar, como se escolhesse cada palavra com cuidado.
— Eu me chamo Gabriel.
Julia abriu um sorriso pequeno, cansado, mas sincero.
— Eu me chamo Júlia.
— Então, Júlia… — ele disse, olhando diretamente para ela — deixa eu te dizer uma coisa. Não pega esse trabalho à noite.
Ela ergueu os olhos, atenta, surpresa com o tom sério.
— Você é muito linda, Júlia. Muito linda mesmo. — Gabriel continuou, sem desviar o olhar. — Não só por fora. Você é uma jovem incrível. Seu cabelo, seu olhar, seu sorriso… tudo em você chama atenção. E aquela boate é perigosa. Homens bêbados, sem limites… uma hora alguém pode te machucar. E ali, nem sempre dá pra escapar.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
— Eu já pensei nisso, Gabriel — disse com a voz embargada. — Mas eu não tenho saída.
Ela respirou fundo, tentando se recompor.
— Se o Carlos não entrar em contato comigo… nem que seja pra terminar direito… — balançou a cabeça — eu nem quero mais esse relacionamento. Mas ele não terminou oficialmente, né? Só sumiu. Ele acha que eu vou atrás dele. Eu não vou.
As lágrimas começaram a escorrer.
— Só que aquele trabalho… eu consegui por causa dele. Eles nunca me trataram bem lá dentro. Não é agora que vão tratar. Se eu perder esse emprego… — a voz falhou — eu não tenho como sustentar minha mãe e minha irmã.
Ela levou a mão ao peito, como se o ar faltasse.
— Eu não ligo pra mim, Gabriel. — disse chorando. — Se não tiver comida pra mim, tudo bem. Eu me viro com água. Já passei noites sem jantar. Já fiquei três, quatro dias sem almoçar.
Ela limpou o rosto, mas as lágrimas continuavam.
— Mas eu não posso deixar isso acontecer com a minha mãe… nem com a minha irmã. Elas não podem passar fome. Elas não podem sofrer por minha causa. Você entende?
O quarto ficou em silêncio.
Gabriel a observava com o maxilar travado, os olhos escuros atentos demais para alguém que apenas escutava uma história triste. Ele se aproximou um pouco, sem tocá-la.
— Eu entendo — disse finalmente, com a voz baixa, firme. — Mais do que você imagina.
Julia o olhou, exausta, vulnerável… verdadeira.
E naquele instante, Gabriel tomou uma decisão silenciosa.
A partir daquela noite, nada — absolutamente nada — seria como antes na vida de Júlia.