Ele pegou o celular no criado-mudo e olhou a hora. Seus olhos se estreitaram levemente.
— Cinco horas da manhã — disse ele. — Vamos descer pra comer alguma coisa.
Julia balançou a cabeça de imediato.
— Não precisa, Gabriel…
— Precisa sim — ele interrompeu, com firmeza suave. — Vamos. Eu tô com fome também. E você… não tá com fome?
Ela hesitou por um segundo, depois deixou escapar um sorriso pequeno, quase envergonhado.
— Eu tô.
Ele sorriu de lado.
— Então pronto.
Levantou-se e, antes de sair do quarto, olhou para ela com atenção.
— E ó… eu prefiro você sorrindo, tá?
Julia sentiu algo apertar no peito.
— Obrigada… ninguém nunca conversou comigo desse jeito.
Uma lágrima escapou, silenciosa. Gabriel se aproximou devagar e, com cuidado, secou a gota que descia pelo rosto dela, como se tivesse medo de ultrapassar algum limite invisível.
— Posso te dar um abraço? — perguntou, sincero.
Ela assentiu.
— Pode.
Ele a envolveu num abraço firme, seguro, sem segundas intenções. Para Julia, aquele gesto simples trouxe uma sensação estranha de proteção, algo que ela não sentia havia muito tempo.
E para Gabriel… tudo aquilo também era novo.
Ele, sempre sério, fechado, conhecido pelo mau humor e pela frieza, estava ali — sorrindo, conversando, se importando. Algo nela tinha atravessado as barreiras que ele construiu ao longo da vida. Algo que ele ainda não sabia explicar, nem queria entender naquele momento.
Apenas sentia.
E, enquanto desciam juntos as escadas ainda envoltos pelo silêncio da madrugada, ambos ignoravam uma verdade inevitável:
aquele encontro não tinha sido acaso.
Era o começo de um destino perigoso… e irreversível.
Depois do café da manhã simples, mas acolhedor, Gabriel pegou a chave do carro e os dois seguiram em silêncio. Não era um silêncio pesado — era tranquilo, quase confortável. Julia observava a cidade acordando pela janela, sentindo um cansaço misturado com algo novo: esperança.
Quando chegaram em frente à casa dela, ele estacionou e desligou o motor.
— Chegamos — disse, olhando para ela com atenção. — Se arruma e vai pro trabalho com calma.
Ela desceu do carro, fechou a porta e deu alguns passos, mas parou. Virou-se para ele com um sorriso sincero.
— Obrigada, Gabriel. Por tudo.
Ele assentiu, mas antes que ela se afastasse de vez, falou:
— Anota seu número aí. — estendeu o celular pra ela.
Julia piscou, surpresa, e pegou o aparelho. Digitou o número com cuidado e devolveu.
— Pronto.
— Eu vou te mandar mensagem — ele disse. — E qualquer coisa… qualquer mínima coisa mesmo, você me liga.
Ela segurou o celular dele por um segundo a mais antes de devolver.
— Pode deixar. Que eu ligo, sim.
Os dois se olharam por alguns instantes. Não houve beijo, nem promessa exagerada. Apenas aquele olhar silencioso de quem sabia que algo importante tinha começado ali — mesmo sem nome, sem rótulo.
Julia entrou em casa devagar. Gabriel ficou observando até a porta se fechar. Só então deu partida no carro.
Enquanto se afastava, o semblante dele voltou a ficar sério. Mas por dentro, algo estava diferente.
Ele não costumava se envolver.
Não costumava se importar.
Mas agora… tinha o número dela salvo no celular.
E a certeza de que, a partir daquele momento, Julia não estaria mais sozinha — gostasse ela disso ou não.
Julia entrou em casa em silêncio, fechando a porta com cuidado para não acordar a mãe nem a irmã. Encostou-se nela por alguns segundos, respirando fundo, como se só ali o corpo permitisse sentir o cansaço de verdade.
Olhou para o vestido que ainda vestia. Tudo parecia irreal demais para uma única noite.
Foi até o quarto, trocou de roupa devagar e se deitou por alguns minutos, mas o sono não vinha. A imagem de Gabriel surgia na mente sem esforço: o olhar atento, a voz firme, o cuidado que ela nunca tinha recebido de ninguém. Aquilo a confundia.
O celular vibrou em cima da mesa.
Mensagem nova.
> Gabriel: Chegou bem?
Ela sorriu sem perceber e respondeu quase imediatamente.
> Julia: Cheguei sim. Obrigada mais uma vez.
Alguns segundos depois, outra mensagem.
> Gabriel: Descansa um pouco. E lembra do que eu te disse: qualquer coisa, você me liga. Não importa a hora.
Ela leu duas vezes antes de bloquear o celular. Colocou-o ao lado do travesseiro, como se aquilo fosse algum tipo de segurança invisível.
Pouco tempo depois, levantou-se, tomou um banho rápido e foi preparar o café da manhã. A mãe apareceu na cozinha, ainda sonolenta.
— Filha… você chegou tarde — disse, preocupada.
— Foi um imprevisto, mãe. Mas tá tudo bem. — Julia sorriu, tentando tranquilizá-la.
A irmã apareceu logo depois, com o uniforme da escola amassado.
— Julia, você tá diferente — disse a menina, curiosa.
— Diferente como? — Julia perguntou, rindo baixo.
— Sei lá… mais calma.
Ela não respondeu. Talvez estivesse mesmo.
Horas depois, já na empresa, Julia tentava se concentrar no trabalho, mas sentia olhares atravessados, comentários baixos, aquele clima que sempre a fazia se sentir deslocada. Carlos não havia ligado. Nenhuma mensagem. Nenhuma explicação.
No intervalo, o celular vibrou de novo.
> Gabriel: Almoça hoje. Não inventa desculpa.
Ela engoliu seco. Aquilo a desarmou mais do que qualquer declaração.
> Julia: Vou tentar.
> Gabriel: Não tenta. Faz.
Ela riu sozinha, algo raro.
Enquanto isso, em outro ponto da cidade, Gabriel encerrava uma reunião. Homens de terno se levantaram em silêncio quando ele saiu da sala. O semblante dele era frio novamente, calculado, distante.
— Descobriram alguma coisa? — perguntou ele, sem parar de andar.
— Ainda não — respondeu um deles. — Mas aquela boate que você mencionou… não é um lugar seguro.
Gabriel fechou a mandíbula.
— Ela não vai pisar lá — disse, firme. — Não enquanto eu estiver vivo.
O homem ao lado assentiu, sem questionar.
Gabriel entrou no carro, pegou o celular e abriu a conversa de Julia mais uma vez. O nome dela na tela parecia fora de lugar naquele mundo que ele comandava.
Ele sabia.
Aquela jovem simples, cansada e forte demais para a idade que tinha…
acabava de cruzar uma linha invisível.
E agora, o mundo da máfia começava, silenciosamente, a se mover ao redor dela.