Capítulo 3: Brincando com o Perigo

1070 Words
Kael não precisou pensar duas vezes. Assumir um nome falso e um novo estilo de vida em uma cidade onde ninguém o conhecia parecia mais do que conveniente — era necessário. O mundo do qual ele vinha era sufocante, repleto de obrigações, compromissos e aparências. Aqui, ao lado de Alanna, ele podia respirar. Rir. E, principalmente, sentir. Ela o tratava com leveza, como se ele fosse apenas mais um cara bonito e despretensioso. E isso… isso o divertia mais do que ele queria admitir. Ela não o bajulava, não tentava impressioná-lo — pelo contrário, parecia genuinamente convencida de que ele jamais poderia se interessar por ela. Alanna o provocava com um humor sutil, inteligente. Tinha um jeito de jogar o cabelo para o lado e olhar por cima do ombro com aquele sorrisinho meio torto, que fazia o coração dele bater forte. Mas ela não percebia. Ou fingia não perceber. — Vai me olhar assim o dia inteiro, ou vai dizer o que quer? — ela perguntou, cruzando os braços, divertida, com os olhos brilhando de desafio. — Talvez eu só esteja tentando entender como alguém pode ser tão bonita e nem perceber — ele respondeu, deixando a frase pairar no ar. Ela riu, balançando a cabeça. — Ai, Kael… você e essas suas frases de efeito. Ela não levava a sério. E ele sabia que era por puro instinto de proteção. Alanna era o tipo de mulher que se blindava, que escondia inseguranças por trás de piadas e sorrisos fáceis. E, por algum motivo, Kael queria atravessar cada uma dessas defesas. Mas para isso, teria que manter o jogo. O disfarce. Ele não podia revelar ainda quem era de verdade. Não podia contar que o nome que usava era falso, que o passado que ela pensava conhecer era só uma história criada para mantê-la longe de um mundo do qual ele fugia. Só que, quanto mais ele se aproximava, mais difícil ficava manter as mentiras de pé. E Alanna… ela estava começando a deixar de brincar. A amizade entre eles cresceu de forma natural, quase imperceptível. Era como uma faísca constante, que não explodia, mas queimava devagar. Kael, com seu charme despretensioso, passou a fazer parte da rotina de Alanna. No começo, era só uma caminhada juntos até a cafeteria. Depois, ele começou a aparecer no mercado quando ela ia às compras. E, de repente, os jantares começaram. Primeiro foi casual. — Quer dividir uma pizza? — ele perguntou, encostado na porta da cozinha dela, com um sorriso quase inocente. — Só se for com borda recheada — ela respondeu, sem pensar muito. Depois virou hábito. Uma garrafa de vinho, comida improvisada e conversas que iam de bobagens do dia a reflexões inesperadamente profundas. Alanna ria como não ria havia tempos. E Kael… Kael se pegava olhando para ela como se já soubesse que aquela mulher ia bagunçar tudo dentro dele. Foi então que ele decidiu. — Aluguei um apartamento aqui no prédio — disse ele, uma noite, enquanto lavavam a louça juntos. Alanna parou por um segundo, encarando-o com os olhos arregalados. — O quê? Sério? — Uhum. Quinto andar. Fica mais fácil pra te irritar todo dia. Ela bufou de riso, mas o coração acelerou de um jeito estranho. Não era medo. Nem desconforto. Era outra coisa… aquela sensação agridoce de que estava ficando íntima demais de algo que talvez não fosse real. Porque, por mais encantador que Kael fosse, ela ainda não conseguia acreditar que aquele homem — com aquele corpo, aquele sorriso e aquele jeito de a olhar como se ela fosse tudo — pudesse realmente estar interessado nela. Ela era… ela mesma. Sem filtros, sem truques. E, na cabeça de Alanna, homens como Kael se interessavam por mulheres perfeitas. Não por ela, com seus cabelos bagunçados, seus dias difíceis, sua risada escandalosa e suas inseguranças. Por isso, mantinha tudo na brincadeira. Era mais fácil. Menos perigoso. — Você vai se arrepender, sabe disso, né? — ela disse, cutucando o braço dele com o cotovelo. — Já me arrependi — ele murmurou, baixo. — O quê? — Nada — respondeu Kael rápido demais. Mas a verdade escapava por seus olhos. Ele já estava envolvido. Mais do que devia. E manter o disfarce… estava se tornando o verdadeiro perigo. Kael estava vivendo dias difíceis. Muito difíceis. Não pela rotina nova, nem pelo trabalho disfarçado que precisava manter. Mas por causa dela. Alanna. Ela era um desafio silencioso, desses que não exigem esforço para provocar. Bastava um sorriso torto, um comentário sem malícia, uma risada escandalosa no meio do jantar, e ele já estava em chamas por dentro. Ela não fazia ideia. Ou fazia — e fingia que não. O jeito como ela se jogava no sofá ao lado dele, com as pernas cruzadas e a camiseta grande demais, que escorregava perigosamente por um ombro. As provocações que soltava, como se fossem inofensivas, mas que deixavam Kael à beira do autocontrole. — Sabe que se um dia isso tudo for pra mim, você não vai sobreviver, né? — ele murmurou, quase sem pensar, depois de um comentário dela sobre namorados imaginários. — Isso o quê? — ela perguntou, rindo, sem entender. — Você. Isso aqui — ele apontou entre eles. — Toda essa sua provocação s*******o. Um dia você vai parar de brincar… e aí, Alanna… vai ser diferente. Ela mordeu o lábio, hesitando por um segundo. Mas logo desviou o olhar, como sempre fazia quando ele dizia algo mais sério. — Ah, Kael… Você me superestima — disse, dando um gole no vinho, rindo em seguida. — Aposto que nem me aguentaria uma noite inteira. Ele segurou o copo com força, como se aquilo o mantivesse preso à realidade. O problema é que ele já imaginava isso. Imaginava demais. Ela embaixo dele. Ofegante. Dizendo que queria mais. Pedindo. Gritando seu nome. — Você não faz ideia do quanto está errada — ele murmurou, a voz rouca. Alanna apenas riu de novo, desviando o olhar, fingindo que não tinha escutado. Porque era mais fácil assim, não é? Para ela, ainda era tudo brincadeira. Para Kael, era um inferno de desejo contido. Ele precisava manter o disfarce. Precisava manter o foco. Mas estar perto dela estava se tornando a parte mais perigosa da missão. Porque quanto mais ela se aproximava, mais difícil era lembrar por que ele estava ali — e o que realmente estava em jogo.
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