capitulo 11

1271 Words
O Que Não Se Diz Lita ... Lita fechou a porta do banheiro com cuidado, como se o silêncio pudesse quebrar se fizesse barulho demais. Apoiou as mãos na pia e respirou fundo, encarando o próprio reflexo no espelho. O rosto estava o mesmo. Postura firme, maquiagem intacta. Ninguém diria que algo tinha se deslocado por dentro. Mas tinha. A reunião não fora comum. Não pelo conteúdo — números, decisões, projeções — mas pelo que ficou suspenso entre uma frase e outra. Pela forma como o Sr. Pereira a olhara, não como chefe, nem como avaliador, mas como alguém que enxergava além da função. Ela não gostava daquilo. E, ao mesmo tempo, reconhecia: não era indiferença. Lita saiu do banheiro e voltou para sua mesa. Organizou papéis que já estavam organizados. Abriu e fechou a agenda sem necessidade. Pequenos gestos para manter o controle enquanto o pensamento insistia em escapar. O olhar dele voltava à sua mente. Não havia sido invasivo. Nem desrespeitoso. Isso era o mais perturbador. Havia ali curiosidade, sim, mas também algo raro: escuta. Uma escuta que não pedia nada em troca. — Não é sobre ele — murmurou para si mesma. — É sobre o que isso toca. E tocava fundo. Ela conhecia aquele terreno. Já estivera ali antes, anos atrás, quando acreditou que maturidade bastava para sustentar um amor. Quando confundiu intensidade com permanência. Quando aprendeu, da forma mais dura, que algumas pessoas se aproximam não para ficar, mas para revelar feridas. Lita não se permitia mais esse tipo de distração. Ainda assim, algo naquele homem — tão sólido por fora, tão contido por dentro — a atravessava com uma familiaridade incômoda. Não era desejo imediato. Era reconhecimento. Como se visse nele alguém que também aprendera a sobreviver endurecendo. Ela fechou os olhos por um instante. — Não confunda a******a com convite — disse a si mesma, firme. Mas o corpo nem sempre obedecia à lógica. Quando o expediente terminou, Lita deixou o prédio com passos medidos. A cidade a recebeu com seu ruído habitual: buzinas, gente apressada, luzes começando a acender. São Paulo nunca perguntava se alguém estava pronto — apenas seguia. No caminho para casa, o celular vibrou. Uma mensagem de Jho. “A gente terminou.” Lita parou na calçada por alguns segundos antes de responder. Não por surpresa. Mas por cuidado. “Quer companhia ou silêncio?” A resposta veio rápido. “Companhia.” Ela sorriu de leve. Ali estava algo concreto. Real. Uma dor que pedia presença, não fantasia. Guardou o celular e seguiu andando. O pensamento no Sr. Pereira ainda existia, sim — mas agora ocupava o lugar certo: o de algo que precisava ser compreendido, não alimentado. Lita sabia quem era. Sabia o quanto custara se reconstruir. Não tinha chegado até ali para se perder em zonas nebulosas. Mas também sabia outra coisa — e essa era mais difícil de aceitar: Algumas conexões não pedem permissão para existir. Pedem responsabilidade para não se tornarem ruína. Ao entrar em casa, tirou os sapatos, deixou a bolsa no sofá e se permitiu um suspiro longo. O coração ainda acelerado, mas firme. Ela não estava em perigo. Estava consciente. E isso, naquele momento da vida, era a forma mais honesta de estar viva. Quando os Mundos se Reconhecem Jho chegou alguns minutos antes. Sentou-se na mesa do canto, perto da janela, onde o barulho da rua entrava suave, misturado ao cheiro de café recém passado. Girava a xícara entre os dedos, nervosa de um jeito bom — como quem sente que algo importante está prestes a acontecer, mesmo sem saber exatamente o quê. Ela gostava das duas. E, por motivos diferentes, precisava das duas. Quando Tati entrou, o ambiente pareceu mudar de ritmo. Não foi barulho — foi presença. O riso veio antes, como sempre, acompanhado de um aceno exagerado ao ver Jho. — Olha ela, sobrevivente de São Paulo! — disse, abraçando-a com força. — Você tá com cara de quem virou uma página hoje. Jho sorriu de canto. — Talvez tenha virado um capítulo inteiro. Antes que pudesse explicar, a porta se abriu novamente. Lita entrou com passos firmes, olhar atento, como quem observa o espaço antes de ocupá-lo. Vestia algo simples, elegante sem esforço. Ao ver Jho, suavizou o rosto. — Desculpa o atraso — disse. — O dia se estendeu. — Relaxa — respondeu Jho, levantando-se. — Eu queria muito que vocês se conhecessem. Ela respirou fundo, sentindo o peso e o cuidado daquele momento. — Tati, essa é a Lita. — Lita, essa é a Tati. As duas se olharam por um segundo a mais do que o protocolo exigia. Não houve estranhamento. Houve leitura. — Prazer — disse Lita, estendendo a mão. Mas acho que já te vi em algum lugar — O prazer é meu — respondeu Tati, apertando-a com firmeza e um sorriso aberto. — Jho fala de você como quem fala de um ponto de equilíbrio. Lita arqueou levemente a sobrancelha, surpresa. — E ela fala de você como quem fala de coragem disfarçada de alegria. Jho riu, aliviada. Sentou-se novamente, sentindo que não precisava mais sustentar aquele encontro — ele caminhava sozinho. As conversas começaram leves. Trabalho, cidade, pequenas histórias do dia. Tati preenchia os silêncios com naturalidade; Lita escolhia bem as palavras, mas quando falava, dizia muito. Jho observava, quase em silêncio, percebendo algo raro acontecer diante dela. Não era afinidade óbvia. Era respeito imediato. Lita sustentou o olhar dela por um instante.. Jho sentiu um nó se desfazer dentro do peito. Aquela mesa, aquele café, aquelas duas mulheres — tudo parecia mais alinhado do que ela ousara imaginar. Mas além do encontro das duas jho queria mostrar como estava se sentido após o termino com o namorado, o homem por quem ela deixou tudo no Ceará e veio para SP. Com apenas 26 anos. Jho falou sem pressa, como quem escolhe cada palavra para não desabar. — Eu achei que ia doer mais — confessou, mexendo na borda da xícara. — E dói… mas é diferente. É como se eu estivesse triste e aliviada ao mesmo tempo. Tati inclinou a cabeça, atenta. — Isso não é contradição. É maturidade chegando sem pedir licença. Lita observava em silêncio, o olhar firme, presente. — Eu me sinto culpada às vezes — Jho continuou. — Como se tivesse desistido de alguém. Mas, no fundo, eu sei que estava desistindo de fingir. Lita falou baixo, sem interromper o fluxo: — Quando a gente se escolhe, sempre parece egoísmo para quem não está vivendo a nossa pele. Jho respirou fundo. O nó no peito ainda existia, mas já não sufocava. — Eu não sei exatamente quem eu sou agora — disse, com um meio sorriso frágil. — Só sei que não sou mais quem eu era naquele relacionamento. Tati estendeu a mão por cima da mesa e apertou a dela. — E isso é um começo bonito, mesmo que doa. Jho sentiu os olhos marejarem, mas não chorou. Pela primeira vez desde o término, não se sentiu quebrada. Sentiu-se em transição — e acompanhada. Quando se despediram, já do lado de fora, Tati abraçou Jho outra vez. — Gostei dela — disse, direto. — Ela olha como quem já entendeu muita coisa. Lita ouviu e sorriu de leve. — E você ri como quem não desistiu. As duas trocaram um último olhar. Não de promessa. De reconhecimento. Enquanto caminhavam em direções opostas, Jho percebeu algo que não sabia nomear direito, mas sentia com clareza: ela não estava mais sozinha naquele recomeço. Às vezes, a vida não apresenta respostas. Apresenta pessoas. E isso já muda tudo.
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