Marquei a reunião para o fim da tarde porque gosto de encerrar o dia resolvendo problemas. Pessoas costumam ficar menos confiantes nesse horário. Erram mais. Falam demais. É quando decisões ficam mais fáceis.
Estava de pé, de frente para a janela, observando a cidade lá embaixo quando ouvi a batida na porta. Uma batida firme. Sem hesitação.
— Entre — respondi, sem me virar.
Sabia quem era. Lita. O nome vinha aparecendo nos relatórios com uma frequência que me incomodava. Competente demais. Questionadora demais. Pessoas assim costumam precisar ser colocadas no lugar antes que confundam liberdade com autoridade.
Ouvi seus passos controlados no chão. Nada apressados. Isso me irritou antes mesmo de começar.
— A senhora pediu para revisar o cronograma do projeto da Zona Sul — disse, ainda de costas. — Trinta por cento de atraso. Explique.
Coloquei a pasta sobre a mesa e me virei. Ela estava ereta, postura segura, olhar direto. Não havia pedido de desculpas em seu rosto.
— O atraso não é técnico — disse ela. — É humano.
Humano.
Essa palavra sempre chega como um ruído onde deveria haver precisão.
— Humanos não fazem parte do cronograma — respondi. — Resultados, sim.
Ela não desviou o olhar. Não elevou a voz. Apenas sustentou o silêncio por um segundo a mais do que o confortável.
— Fazem parte quando são eles que executam o trabalho — disse. — Se continuarmos nesse ritmo, alguém vai se machucar. Já houve dois afastamentos que não constam no relatório oficial.
Senti algo fechar no peito. Não raiva. Controle.
Aproximei-me da mesa e apoiei as mãos na madeira, inclinando o corpo para a frente. Era um gesto conhecido. Normalmente, ali as pessoas recuavam.
— A senhora está sugerindo que eu administro m*l a minha própria empresa?
Ela respirou fundo. Não por medo. Por escolha.
— Estou sugerindo que números não contam tudo — respondeu. — E que decisões assim têm consequências que não aparecem em planilhas.
Esperei o impulso de encerrar aquilo com uma frase curta, definitiva. Não veio.
O silêncio se estendeu. Eu sabia que estava sendo observado — não avaliado, não julgado — observado. Como se ela estivesse tentando entender algo que nem eu mesmo costumo olhar.
— A maioria das pessoas entra aqui pedindo algo — disse, finalmente. — Promoção. Reconhecimento. Ou apenas tentando não perder o emprego. A senhora não pediu nada.
— Não vim pedir — respondeu. — Vim evitar um problema maior.
Ali, algo saiu do lugar.
Sentei-me. Não por cansaço físico, mas porque precisava reorganizar o pensamento. Passei a mão pelo rosto, gesto rápido, involuntário. Ela percebeu. Tenho certeza.
— Pode ir — disse. — Vou analisar os dados.
Ela recolheu a pasta e caminhou até a porta. Pensei que fosse terminar ali. Não terminou.
— Lita — chamei.
Ela parou, virou-se com calma.
— A senhora não é como as outras pessoas daqui.
As palavras saíram antes que eu pudesse medi-las.
— Nem o senhor — ela respondeu, sem hesitar.
A porta se fechou atrás dela.
Fiquei sozinho no escritório, encarando a pasta fechada sobre a mesa. Não a abri imediatamente. Pela primeira vez em muito tempo, o problema não estava nos números. Estava na sensação incômoda de que alguém tinha atravessado uma fronteira que eu acreditava bem protegida.
Lita não pediu nada.
E, ainda assim, levou alguma coisa comigo.
Soube, naquele instante, que aquela conversa não terminava ali. E que, gostando ou não, eu teria de lidar com isso.
A porta se fechou com um clique suave, quase respeitoso. Fiquei parado por alguns segundos, ainda de pé, olhando para o nada onde Lita havia estado. O escritório parecia maior, mais vazio do que antes.
Sentei-me devagar na cadeira. A pasta continuava sobre a mesa, perfeitamente alinhada, intocada. Normalmente eu a abriria de imediato, marcaria números, encontraria falhas técnicas que justificassem uma decisão dura. Mas não fiz isso.
Em vez disso, apoiei os cotovelos na mesa e entrelacei os dedos. Um gesto raro. Inútil. Respirei fundo, sentindo um incômodo estranho no peito — algo entre irritação e desconforto. Não era raiva. Raiva eu sabia administrar.
Levantei-me outra vez e caminhei até a janela. A cidade seguia seu ritmo lá embaixo, indiferente. Carros, pessoas, luzes começando a se acender. Tudo funcionando, apesar de tudo. Sempre funcionava. Era nisso que eu acreditava.
Peguei o telefone sobre a mesa e disquei o ramal da secretaria.
— Cancele minha última reunião — disse, sem explicações. — E não agende mais nada hoje.
Desliguei antes que houvesse resposta.
Voltei à mesa e, finalmente, abri a pasta. Os relatórios estavam organizados, claros, objetivos. Havia anotações à margem — discretas, mas firmes. Pontos que eu normalmente ignoraria. Desta vez, li com atenção. Não como chefe. Como alguém que tenta entender.
Dois afastamentos. Jornadas excessivas. Pressão acumulada.
Fechei os olhos por um instante e vi, contra a minha vontade, o rosto da minha mãe. O mesmo olhar firme, a mesma certeza silenciosa de que fazer do jeito certo nem sempre é fazer do jeito mais rápido. Afastei a imagem imediatamente. Não era hora para isso.
Levantei-me de novo. Precisava me mover.
Caminhei pelo escritório, ajustei um quadro que não precisava de ajuste, alinhei uma caneta que já estava alinhada. Controle. Sempre controle. Ainda assim, algo insistia em escapar.
Lita não pediu nada.
Essa frase voltou, incômoda. Pessoas sempre pedem. Quando não pedem, esperam. Ela não. Veio, falou, saiu. Como se confiasse que o que tinha dito era suficiente.
Peguei o telefone novamente. Dessa vez, disquei outro número.
— Quero uma auditoria interna no projeto da Zona Sul — disse quando atenderam. — Completa. Sem cortes de informação.
Houve um breve silêncio do outro lado.
— Alguma irregularidade, senhor?
Olhei para a cidade mais uma vez.
— Quero certeza — respondi.
Desliguei.
Só então percebi o cansaço. Não físico. Um cansaço antigo, acumulado, que nenhuma noite de sono resolvia. Afrouxei o nó da gravata, gesto que raramente fazia ainda dentro do escritório. Sentei-me outra vez, dessa vez sem pressa.
Pela primeira vez em muito tempo, não levei trabalho para casa naquela noite. Não por decisão estratégica, mas porque algo em mim precisava de silêncio.
E, no fundo, eu sabia: aquele encontro tinha sido apenas o começo. Não de um problema operacional, mas de algo muito mais difícil de administrar.
A mim mesmo.