Capítulo Um

4922 Words
Capitulo 1 “ Aaric Casillas “ Meu pai já estava há quase três horas falando sobre a empresa da família. Três. Horas. Eu já tinha passado pelos cinco estágios do luto e estava entrando no sexto: a vontade de fugir pela janela. — Você entende, meu filho — ele repetia como se fosse um mantra corporativo —, que precisa ter mais interesse. Você é meu primogênito. Precisa assumir a empresa. Eu respirei fundo para não responder: “precisa, precisa… só se for você, né?” — Papai, mas eu não quero. Olha o James! Ele ficaria ótimo na sua cadeira. Meu pai fez uma careta tão dramática que, se fosse numa novela, tocaria um violino triste ao fundo. — Seu irmão não tem porte de CEO — ele gesticulava como se estivesse expulsando espíritos ruins. — Ele está mais interessado em teatro, música, dança… James vive em outro planeta! E eu não quero que ele se dedique a algo que ele não gosta. Imagine só… seu irmão trancado numa sala com ar-condicionado? E o pior é que imaginei. E a cena realmente não funcionou. James preso numa sala fechada duraria quinze minutos antes de tentar derrubar uma parede “pela arte”. E aí, claro, ele tem um ponto. O único maluco que poderia ocupar o cargo dele seria… eu mesmo. Mas antes que meu cérebro tivesse tempo de criar um plano de fuga, minha mãe entrou na sala. — De novo tentando convencer seu filho a assumir sua cadeira? — ela perguntou com aquele tom elegante-passivo-agressivo que só ela domina. Entrou linda, impecável e com cara de quem já estava no limite da paciência — ou do botox. Difícil saber. Eles não são mais um casal. Vivem de aparências. Meu pai não liga para fofoca. Minha mãe? Minha mãe tem pesadelos com a palavra “escândalo”. — Não sei por que você se mete nesse assunto, Helena — meu pai disse, revirando os olhos como um adolescente de 14 anos. — Porque é meu filho também, Jorge — ela rebateu, colocando a mão na cintura como se estivesse se preparando para ganhar um Oscar de Melhor Atriz Dramática. — E eu não gosto que você pressione o Aaric a fazer algo que ele não gosta. Meu pai bufou. — Parece até que ele é seu único filho! Não te vejo com essa preocupação toda com o James. Minha mãe deu aquele sorriso que significa “se prepara”. — James foi um acidente, Jorge. Aaric foi desejado. E eu ali no meio pensando: “Ótimo. Maravilha. Agora sou oficialmente o filho premium.” O clima pesou tanto que dava para cortar com a faca do bolo de casamento deles — aquele que, aparentemente, foi um erro logístico desde o início. No meio desse drama familiar, herança de bilhões, expectativas esmagadoras e revelações aleatórias… Eu só queria um café. Forte. E de preferência sem meus pais. Antes que alguém soltasse outra bomba emocional, a porta se abriu com um estrondo totalmente desnecessário. — GENTE! — James entrou como se estivesse subindo num palco. — Vocês acreditam que o jardineiro derrubou minha planta favorita? MINHA MONSTERA! Estou de luto. Meu pai soltou um suspiro tão fundo que deslocou o ar-condicionado. — James… estamos conversando sobre a empresa. — ele disse, segurando a paciência com as pontas dos dedos. — Ah, sim, claro — James sentou no braço da poltrona, cruzando as pernas com a elegância de quem está prestes a dar um discurso numa premiação. — O sermão anual do “Aaric precisa assumir o império corporativo”. Continuem. Adoro esse episódio. — Não é um episódio, James. É a vida real. — meu pai resmungou. — Aham. E por isso mesmo eu acho melhor o Aaric assumir. — James bateu no meu ombro de leve. — Ele já tem aquela cara séria, sabe? Cara de quem gosta de reuniões que poderiam ser e-mails. Eu abri a boca, indignado. Cara DE O QUÊ? Eu não tenho cara de quem gosta de reuniões. No máximo tenho cara de quem gosta de sofá. — James, por favor, não começa — meu pai pediu, passando a mão no rosto. — Pai, eu não vou assumir empresa nenhuma — James disse, colocando a mão no peito como se estivesse declamando Shakespeare. — Eu sou um artista. Eu respiro arte. Eu vivo arte. Você quer que eu desintegre preso num escritório? — Ninguém falou em desintegrar — meu pai murmurou, mas eu tinha certeza de que já estava pensando: “onde foi que eu errei?”. Minha mãe, claro, aproveitou o momento. — Está vendo, Jorge? Nem ele quer. Vocês dois precisam parar de colocar tudo nas costas do Aaric. — Mãe… — eu tentei interromper, porque sinceramente, minha vida já estava dramática o bastante. Mas James levantou um dedo no ar, chamando atenção como se fosse um professor. — Aliás, já que estamos todos aqui… — ele respirou fundo, teatralmente. — Eu gostaria de anunciar que… estou pensando em fazer intercâmbio para estudar dança contemporânea. Meu pai empalideceu. Meu pai REALMENTE empalideceu. — James… pelo amor de Deus… — ele sussurrou, como se tivesse acabado de ouvir que o filho ia largar tudo para se tornar pastor de cabras nos Alpes. — É uma ideia só! — James disse, defendendo-se. — E outra: se o Aaric assumir a empresa, eu vou precisar estar longe, porque eu não vou aguentar ver esse menino virar uma estátua social fria e infeliz. — Eu não vou virar uma estátua — eu retruquei. — E eu ainda nem disse que vou assumir nada! Mas ali, no meio daquele caos, algo ficou claro: Meu pai desesperado. Minha mãe pronta para combater qualquer crítica. James vivendo num musical só dele. E eu? Eu só queria um dia de paz. Um. UM ÚNICO dia sem crise existencial familiar. Mas claro… isso era pedir demais. Depois do anúncio dramático do James sobre dança contemporânea, a sala ficou em silêncio por três intermináveis segundos. E então, surpreendentemente, quem respirou fundo e amansou o tom foi meu pai. — James… — ele disse com uma voz mais calma do que eu esperava. — Se é isso que você quer… se é isso que te faz feliz… então… tudo bem. James congelou. Eu congelei. Até minha mãe congelou — e olha que isso deve ter puxado uns cinco fios de botox. — Tudo bem? — James repetiu, arregalando os olhos. — Pai, você sabe o que é dança contemporânea? Tem gente que finge ser geladeira no palco, pai. — Se você quiser ser uma geladeira, um liquidificador ou uma árvore, James… — meu pai completou, fazendo um gesto suave com as mãos. — Eu só quero que você seja feliz. Aquilo foi tão inesperado que James colocou a mão no coração. — Meu Deus… isso é tão… tão… — ele fungou. — Estou com vontade de chorar, mas não posso porque passei corretivo. Minha mãe, por outro lado, parecia prestes a explodir. — Jorge! — ela exclamou, encarando ele como se ele tivesse acabado de dizer que ia morar no mato. — Desde quando você acha normal o seu filho virar… virar… um eletrodoméstico dançante? — Helena… — meu pai suspirou, agora claramente tentando manter a paz. — O mundo mudou. — O mundo mudou uma ova! — ela rebateu, levantando as mãos. — Um quer ser CEO, mas não quer! O outro quer dançar… gelado! E você… você está achando tudo isso normal? James colocou a mão na cintura. — Mãe, não é dançar “gelado”… é arte. Conceito. Expressão. Movimento do meu eu interior. — Pois o seu eu interior podia muito bem se expressar lavando a louça! — ela disparou sem pensar. Eu quase ri. Quase. Meu pai continuou calmo, o que já era histórico. — Helena, os meninos estão crescidos. Eles têm suas escolhas. Nós precisamos aceitar isso. — Aceitar? — ela repetiu, incrédula. — Daqui a pouco o Aaric aparece dizendo que vai abrir uma pizzaria vegana no Alasca e eu tenho que aceitar também? Eu ergui as mãos imediatamente. — Mãe… calma. Eu não vou abrir pizzaria nenhuma. Nem vegana, nem carnívora, nem no Alasca. Eu detesto frio. James assentiu, apoiando: — Ele odeia. Um dia nevou e ele quase declarou guerra ao inverno. — Isso não ajuda, James. — eu murmurei. A tensão na sala era tanta que parecia que o tapete persa ia criar vida e sair andando sozinho. Mas, apesar do caos, algo no ar tinha mudado. Meu pai estava… diferente. Mais humano. Menos CEO, mais pai. Ele olhou para nós com uma expressão que eu não via há tempos. — Eu só quero que vocês sejam felizes. Os dois. Mesmo que isso não envolva a empresa… ou… eletrodomésticos imaginários. James sorriu orgulhoso, como se já estivesse recebendo um troféu de “Melhor Geladeira do Ano”. Minha mãe, por outro lado, estava tão nervosa que parecia que ia infartar pelo menos três vezes antes do jantar. — Ótimo… maravilhoso… a família mais rica do país completamente desgovernada — ela resmungou. — É isso que vão dizer. É isso que vão comentar nos jantares. É isso que vai sair em revistas. “A família Casillas surta: um CEO fugitivo, um artista eletrodoméstico e uma ex-esposa desesperada.” — Pelo menos seria um título chamativo — James comentou alegremente. Eu não aguentei e ri. Meu pai riu. Até minha mãe teve que esconder um sorriso. E no meio desse caos completo, percebi: Talvez a nossa família fosse… caótica? Sim. Dramática? Também. Possivelmente maluca? Com certeza. Mas éramos isso. Um caos com laços. E talvez… só talvez… fosse suficiente. Minha mãe ficou alguns segundos em silêncio, o que já era preocupante. Helena Casillas não fica em silêncio. Ela recalcula rota. E quando finalmente ergueu o queixo, eu soube: lá vinha coisa. — Muito bem — ela disse, com a voz firme, como se estivesse prestes a comandar uma batalha medieval. — Já que vocês parecem tão… relaxados com isso tudo, eu vou tomar as rédeas da situação. Meu pai revirou os olhos discretamente — ou tentou, porque ele sempre foi péssimo em fazer isso. — Helena, por favor… — ele começou. — Sem “por favor”, Jorge. — Ela levantou a mão. — Essa família está precisando de uma intervenção. Social. Psicológica. Estética talvez. Eu não sei mais o que resolve vocês. James colocou a mão no peito, ofendidíssimo. — Mãe, estética não! Eu me esforço muito para manter esse glow natural. Ela o ignorou solenemente. — A partir de hoje — ela continuou, caminhando pela sala como uma general — eu vou garantir que essa casa volte a ter ordem. Disciplina. Rumos claros. Eu e James trocamos um olhar do tipo: estamos ferrados. — Primeiro — ela apontou para mim — você, Aaric, não precisa assumir a empresa agora, mas… — ela estreitou os olhos — também não vai ficar fugindo de discussões importantes como se fosse um adolescente correndo de prova de matemática. Eu ergui as mãos. — Eu não fujo! Eu só… caminho rápido na direção oposta. Meu pai tossiu para disfarçar a risada. — Segundo — agora ela encarou James — você pode dançar, pode estudar, pode virar uma… geladeira artística, mas… — ela suspirou profundamente — pelo amor de Deus, James, você precisa ter um plano B. James abriu a boca, pronto para argumentar, mas ela continuou antes que ele pudesse respirar: — E plano B não é “ficar famoso no t****k”. James fechou a boca devagar, derrotado. — Mãe… — ele tentou — meus vídeos são conceituais. — Conceituais não pagam boletos. — ela rebateu com precisão cirúrgica. Meu pai interveio antes que o James desmaiasse de drama. — Helena… calma. A gente está tentando ter uma conversa civilizada aqui. Ela deu uma risadinha vazia e perigosa. — Civilizada? Com vocês três? Duvido. E então… aconteceu o impensável. Minha mãe parou. Respirou fundo. E deixou escapar algo que ninguém esperava. — Eu só… — ela apertou os dedos, nervosa — eu só queria que vocês não se afastassem. Que a família não… desmoronasse. Meu coração apertou. Era raro ela baixar a guarda. Raro mesmo. Quase mítico. James se aproximou primeiro, devagar, como se estivesse lidando com um filhote de tigre. — Mãezinha… a gente não vai desmoronar. — Ele colocou a mão no ombro dela. — A gente só… tropeça dramaticamente às vezes. Ela respirou fundo, tentando não se emocionar, e eu vi seus olhos brilharem — ainda que ela escondesse rápido. — Eu só quero vocês bem… — ela murmurou, desviando o olhar. — Vocês dois. Meu pai tocou o braço dela com gentileza — algo raro entre eles, mas sincero. — Helena, nós estamos bem. Só somos… do nosso jeito. Ela bufou. — Um jeito desfuncional, caótico, emocional e nada discreto. Eu dei um meio sorriso. — Sim… mas é o nosso jeito. James assentiu, emocionado. — E convenhamos, mãe… se a gente fosse normal, você ia morrer de tédio. Ela tentou resistir… mas sorriu. Um sorriso pequeno, mas real. E naquele instante, pela primeira vez em muito tempo, a família Casillas parecia menos… quebrada. Ainda caótica? Sim. Ainda dramática? Com certeza. Mas unida de um jeito torto. Um jeito só nosso. — Está bem — minha mãe disse finalmente, respirando fundo. — Eu aceito. Mas aviso logo: eu ainda vou reclamar. Muito. — Nós sabemos — respondemos em coro. E ela sorriu. Porque claro que sabe. JANTAR – O CAOS ELEGANTE DA FAMÍLIA CASILLAS A mesa estava posta como se a realeza fosse jantar ali: talheres alinhados milimetricamente, castiçais acesos, guardanapos dobrados em forma de cisne (porque, claro, minha mãe exagera até na dobradura de guardanapo). Mas nós? Nós estávamos longe de qualquer coisa parecida com realeza. James entrou primeiro, flutuando — literalmente flutuando — como se estivesse coreografando cada passo. — Hoje decidi que meu tema interior é “bailarina de gala encontrando o amor no supermercado” — ele anunciou, se sentando com uma pirueta. Meu pai ajustou os óculos, confuso. — Isso… tem algum significado? — Tudo é significado, pai. Até sua gravata triste. — A gravata está normal, James. — Exatamente. Eu tentei não rir, falhei, e minha mãe já se aproximou dando aquele olhar que significava comporte-se. — Vamos ter um jantar tranquilo, por favor — ela pediu, sentando-se na ponta da mesa, postura perfeita. — Sem dramas, sem discussões, sem coreografias. James levantou o dedo. — Sem coreografias fica difícil, mas eu vou tentar. O primeiro prato chegou: sopa. Sopa chique, claro. Daquelas que têm mais cheiro do que sustância. Meu pai respirou fundo, tentando começar algum assunto neutro. — Como foi o dia de vocês? — Caótico. — respondi. — Sentei três horas ouvindo um TED Talk motivacional não solicitado sobre liderança. Minha mãe apontou a colher para mim. — Aaric, não comece. Seu pai só quer conversar. — Eu só comentei… — Comentou com sarcasmo! — ela o acusou. — Eu respiro com sarcasmo — respondi. James bateu palmas, animado: — É verdade! Ele respira e já parece que está sendo passivo-agressivo com o oxigênio. Meu pai tossiu para disfarçar a risada de novo. A segunda rodada de pratos chegou — salmão, legumes e um molho que parecia mais artístico do que comestível. James, claro, enfiou o nariz no prato. — Mãe… o molho está disposto como se o chef estivesse num surto de expressionismo abstrato. — É arte — minha mãe disse, erguendo o queixo. — Tudo hoje em dia é arte — meu pai murmurou. — Até meu filho imitando um eletrodoméstico no palco. James o encarou, sério: — Eu ainda não imitei um eletrodoméstico, pai. Ainda. Eu me engasguei rindo. Minha mãe revirou os olhos tão forte que quase viu o próprio cérebro. — Sabe o que eu queria? — ela disse, cruzando os braços. — Só um jantar onde vocês não se comportassem como… como… — Como nós? — completei. — Exato! Meu pai colocou a mão sobre a dela, calmamente. — Helena… isso é quem nós somos. E está tudo bem. Ela suspirou, derrotada. — Às vezes eu acho que nasci na família errada. — Mãe — James falou com doçura — se você tivesse nascido em outra família, provavelmente teria sido presidente de algum país só com o poder do olhar. Mas você escolheu essa bagunça aqui. Sinto muito. Ela tentou segurar a risada. Perdeu. — Vocês… me enlouquecem — ela declarou, com a mão na testa. — Nós sabemos — respondemos em coro mais uma vez. O garçom entrou trazendo a sobremesa: um cheesecake perfeito. Minha mãe respirou fundo, pegou o garfo e, com uma serenidade repentina, disse: — Bom… pelo menos a sobremesa nunca me decepciona. James arqueou a sobrancelha. — Mãe… é cheesecake. Não Aaric. Eu levei uma colherada na testa. Acidentalmente. Eu acho. E no meio de risadas, provocações, momentos sinceros e sopa cara demais, percebi que aquele caos… Era o que nos ligava. Uma família imperfeita. Um jantar tumultuado. E, de alguma forma, amor por trás de tudo. O caos tinha gosto de casa. Subimos para o andar de cima depois do jantar, cada um indo para o próprio quarto. Mas antes que eu chegasse no meu, ouvi passos leves atrás de mim. — Ei… — James chamou, mais baixo, quase tímido, o que era raro nele. Eu me virei. — O que foi? Ele deu de ombros, encolhendo-se um pouco — o oposto do James teatral de sempre. — Só… queria falar com você. Um minuto? Eu assenti e entrei no meu quarto. Ele veio logo atrás, fechando a porta devagar, como se estivesse com medo que a casa inteira ouvisse. James ficou alguns segundos mexendo nos próprios dedos, nervoso. — Eu só queria… agradecer — ele finalmente disse. Eu pisquei. — Agradecer pelo quê? Ele ergueu os olhos cheios de brilho — e não era brilho de iluminador, era emoção mesmo. — Por hoje. Por me defender, por não me deixar sozinho naquele caos. Você sempre faz isso. Mesmo quando o pai surta, ou a mãe entra no modo Elizabeth Taylor… você nunca me solta. Eu engoli seco. — James, você é meu irmão… — Eu sei — ele me interrompeu, rindo sem graça — mas nem todo irmão faz isso. Ele respirou fundo. — Quando eu contei pra eles que… era gay, você foi o único que não fez cara nenhuma. Nem boa, nem r**m. Você só perguntou se eu queria pizza. Eu sorri de canto. — Era um momento que pedia carboidrato. — Exato. — Ele riu. — E depois você ficou comigo, mesmo quando a mãe quase desmaiou e o pai ficou branco igual mármore. Você não saiu do meu lado um segundo. Ele olhou para o chão. — Eu nunca esqueci isso. Meu peito apertou. Uma memória forte, crua, honesta veio à tona. — James… você é meu irmão — repeti, desta vez de um jeito mais firme. — Eu posso discordar de você, discutir, querer te estrangular metade dos dias… mas eu nunca vou virar as costas pra você. Nunca. Ele piscou várias vezes rápido, tentando não chorar. — Eu te amo, sabia? — Eu sei — respondi, rindo. — Você fala isso toda vez que está emocional ou com fome. — Os dois, no caso — ele disse, fungando. — Eu estou emocional e com fome. Aquela sopa não encheu nem minha alma. Eu joguei uma almofada nele. — Você devia agradecer porque aquela sopa custou o preço de um carro pequeno. Ele segurou a almofada e sorriu. Depois, mais calmo, veio até mim e sentou-se ao meu lado na cama. — Aaric… — ele disse mais sério — se você assumir a empresa ou não… eu só quero que seja por você. Não por eles. Não pela imagem. Não pelo sobrenome. — Ele tocou meu ombro. — Eu vejo você tentando carregar tudo, sabe? E você não precisa. Eu respirei, sentindo um peso que eu fingia não carregar. — Eu sei. — Mas tem algo que você esquece. — Ele inclinou a cabeça. — Você tem a mim. Tem o pai. Até a mãe, apesar dos surtos artísticos dela. Você não está sozinho nisso. Eu fiquei um instante quieto, absorvendo tudo. — Obrigado, James. Ele sorriu. — É pra isso que servem os irmãos. Pra salvar o outro… ou pra derrubar junto. — Espero que esse seja o “salvar”. — Depende da semana. Nós dois rimos. Ele se levantou, já voltando ao “James normal”. — Agora eu vou dormir. — Ele foi até a porta. — Se você quiser conversar sobre a empresa, ou fugir do país, ou fingir sua própria morte… me chama. — Ficar invisível também é uma opção? — perguntei. — Só se for com glitter. — Ele piscou. — Eu tenho glitter neon. — Típico. Ele sorriu mais uma vez, um sorriso doce, verdadeiro. — Boa noite, Aaric. — Boa noite, James. Quando ele saiu, percebi que aquela conversa… tinha curado algo em mim que eu nem sabia que estava machucado. E, naquele momento, entendi: Eu podia enfrentar o que viesse. Porque eu não estava sozinho. Não com um irmão como o James. O céu lá fora estava daquele jeito deprimente, cinza como minha paciência antes do café, quando desci as escadas em direção à cozinha da mansão Casillas. A casa ainda estava meio silenciosa… silenciosa demais para uma família como a minha. Só queria uma coisa: café. Forte. Amargo. Capaz de me trazer de volta à vida ou me fazer esquecer que acordei às seis da manhã sem necessidade alguma. Mas, assim que virei para o corredor, ouvi vozes. Ótimo. A família já estava acordada. Exatamente o que todo homem deseja antes das oito da manhã: gente falando. Quando entrei na sala de café da manhã, meus pais e James já estavam lá, como se tivessem marcado de destruir minha paz antes do primeiro gole. Minha mãe, elegantíssima e dramática por natureza, estava folheando o jornal — ou melhor, lutando com um jornal gigante, parecendo que tentava domar um dragão de papel. E então aconteceu. — MEU DEUS DO CÉU! O grito ecoou pela sala. O cozinheiro derrubou uma colher. James se engasgou com o suco. — O que foi agora, mãe? — perguntei, já aceitando que a minha tranquilidade tinha sido assassinada sem piedade. Ela bateu no jornal como se estivesse expulsando uma entidade: — “Aaric Casillas é oficialmente o homem mais rico do mundo após sua fortuna ultrapassar TRILHÕES de dólares.” Trilhões. Ótimo. Porque bilhão aparentemente já não era suficiente para render fofoca. James arregalou os olhos. Meu pai fingiu que já sabia — ele sempre finge que sabe de tudo, até da previsão do tempo. — Mãe, isso é especulação — tentei explicar, mas tentar conversar com ela é como tentar ensinar paciência a um vulcão prestes a entrar em erupção. — Especulação?! — ela rebateu. — Meu filho vale TRILHÕES e eu aqui sofrendo porque seu pai esqueceu nosso aniversário de casamento! — Eu te dei um carro! — meu pai protestou. — EU QUERIA FLORES! E lá vamos nós. Drama nível Casillas. James riu. Eu rolei os olhos tão forte que quase enxerguei meu cérebro pedindo socorro. — Gente, foco. É exagero — murmurei. — Não parece! — meu pai disse, orgulhoso demais para ser saudável. — Parabéns, filho. James ergueu a xícara como se estivesse brindando num bar. — Ao meu irmão trilionário. Agora você finalmente pode pagar minha terapia causada pela mamãe. — JAMES! — minha mãe levou a mão ao peito, ofendida com classe. — Eu não causei terapia nenhuma! — Exato — ele disse. — Por isso é que vou precisar de anos. Eu respirei fundo. Era cedo demais para essa família. — Isso vai virar um caos na mídia — murmurei. Minha mãe ergueu o queixo com orgulho digno de rainha: — Se é para inventarem coisas, que inventem que você é trilionário. Pelo menos facilita quando a manicure pergunta se você está falido. — Eu nunca estive falido! — Mas elas perguntam, querido. E eu odeio perguntas. James gargalhou. Meu pai colocou a mão no meu ombro com aquele jeito dele que dizia silenciosamente: “respira, filho… você ainda vai longe com esse povo.” — Nós sabemos quem você é — disse ele. — E o quanto você trabalhou para chegar aqui. Aquilo… realmente me fez sorrir. Minha mãe pigarreou, com aquele brilho perigoso nos olhos. — E se você estiver mesmo nadando nesses trilhões… — Mãe, não. — …uma reforma na minha cozinha CAIRIA PERFEITAMENTE BEM! James quase cuspiu o café. Eu ri. — A senhora não presta — falei. — Eu sei, querido. Nasci para brilhar, não para economizar. E ali, no meio do caos matinal, percebi que sim… éramos uma família normal. Quer dizer… Normal dentro dos padrões Casillas. O que significa: levemente disfuncional, dramaticamente exagerada e absolutamente impossível de ignorar. Depois do caos matinal e da minha mãe planejando a reforma da cozinha com o meu dinheiro, James saiu para ensaiar alguma peça estranha que eu não entendi e minha mãe foi embora para “comprar flores para si mesma já que seu pai é incapaz”. Palavras dela, não minhas. Fiquei sozinho com meu pai na sala. Ele estava parado diante da janela, as mãos cruzadas nas costas, observando a cidade como se estivesse avaliando cada prédio e decidindo qual compraria primeiro — um hobby estranho dele. Me aproximei. — Vai me dizer que acredita nessa história de trilhões também? — perguntei, meio brincando, meio sério. Ele soltou um riso baixo, raro de ouvir. — Filho… se tem alguém aqui capaz de ter trilhões, é você. Mas não é sobre isso que eu quero falar. Ok. Isso soou sério demais. Ele virou-se, tirou os óculos e me encarou com aquela expressão que sempre me deixava com 10 anos de idade mental. — Aaric, eu estive pensando muito. Sobre nós. Sobre a empresa. Sobre a vida que você está levando. Pronto. Lá vem a bomba. — Pai, se for para falar de sucessão, eu juro que pulo dessa janela. — São quarenta andares, filho. — — Então vou só ficar pendurado gritando. Ele riu de novo — o que me assustou mais do que qualquer bronca. Depois suspirou. — Aaric… você não precisa assumir a empresa da família. Eu pisquei. Depois pisquei de novo. Talvez tivesse ouvido errado. Meu cérebro ainda estava sem café suficiente para processar milagres. — Como é que é? — Você não precisa assumir a empresa — ele repetiu, firme. — Você já tem o seu próprio império para governar. E, francamente, está fazendo isso melhor do que eu jamais fiz na sua idade. Eu fiquei olhando para ele como se alguém tivesse apertado pausa no meu corpo. Meu pai… Meu pai mesmo… o homem mais teimoso do hemisfério norte… estava me liberando. — Pai… você tem certeza? — perguntei, ainda desconfiando se aquilo era alguma pegadinha emocional. Ele colocou a mão no meu ombro. — Aaric, você construiu algo seu. Algo gigantesco. Algo que ninguém do nosso círculo jamais imaginou. Eu teria orgulho de você mesmo que fosse “só” bilionário. Mas trilionário? — Ele riu. — Melhor ainda. Eu soltei um suspiro que parecia ter anos de tensão acumulada. — Eu… eu achei que você sempre esperava que eu tomasse o seu lugar. — Esperar, eu esperava — ele admitiu. — Cobrar, não deveria ter cobrado. E estou corrigindo isso agora. — E o James? — perguntei. — James não nasceu para ser CEO — ele disse, com carinho. — Nasceu para brilhar nos palcos, usar roupas estranhas e citar Shakespeare no café da manhã. E está tudo bem. Eu ri. — Então… você finalmente está me dizendo que eu sou livre? — Livre — ele confirmou. — Para fazer o que quiser. Para ser quem você quiser. — Inclusive fugir do grupo McDannon? — Inclusive — ele respondeu, sério e orgulhoso. Respirei fundo. Pela primeira vez em anos, meu peito pareceu… leve. — Obrigado, pai. — Eu devia ter dito isso antes — ele respondeu. — Me desculpe por ter demorado tanto. A gente se abraçou — um abraço curto, meio torto, meio desajeitado, porque somos homens e aparentemente o gene do abraço emocional não veio no DNA da família. Quando ele se afastou, sorriu de lado: — Só me faça um favor. — Qual? — Não deixe sua mãe descobrir que eu te liberei. Ela vai dizer que eu virei frouxo. Eu gargalhei. — Ah, pode deixar. Ela vai descobrir de qualquer jeito. — É… provavelmente vai. — Ele suspirou. — Deus me ajude. E naquele momento… pela primeira vez em muito tempo… eu senti que estava exatamente onde deveria estar. Depois da conversa com meu pai — uma daquelas conversas que deixam a cabeça leve e o ego inflado na medida certa — eu precisava desligar. E, honestamente, James era a melhor pessoa para isso. Ou a pior. Dependendo do ponto de vista. — Aaric, hoje você vai sair comigo — ele decretou, entrando na minha sala como se estivesse fazendo uma entrada triunfal na Broadway. — Isso é uma pergunta? — Não. É um ato obrigatório. Traga sua carteira. Você paga. Claro. Irmãos mais novos prontos para gastar dinheiro.
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