O aviso

675 Words
Douglas Ferraz gostava de controle. Isso era óbvio. O tipo de homem que entrava em qualquer ambiente como se fosse dono. Terno alinhado, relógio caro, postura impecável… e um olhar que não perguntava. Exigia. Naquela noite, ele estava em mais um dos seus eventos. Luzes elegantes. Música ambiente. Conversas calculadas. Tudo no lugar. Como ele gostava. — Senhor Ferraz — um homem se aproximou — a reunião foi confirmada pra segunda— Douglas ergueu a mão, interrompendo. — Depois. O olhar dele estava em outro lugar. Em outra pessoa. Ou melhor… em uma lembrança. Safira. Ele deu um leve sorriso de canto. — Interessante… — murmurou sozinho. Mas o que ele não sabia… era que não estava sozinho. --- Do lado de fora do evento, dentro do carro, observávamos. Silenciosos. Pacientes. Mas não mais passivos. — Ele não esqueceu — Ruan disse. — Nem vai — respondi. Os olhos dele estavam fixos na entrada. — Então a gente resolve. Sem pressa. Sem emoção. Só decisão. --- Minutos depois, Douglas se afastou do salão principal, caminhando por um corredor mais vazio, falando ao celular. — Eu já disse, eu resolvo isso depois— A voz dele parou. Não por escolha. Mas por presença. Porque, quando ele virou a esquina… nós já estávamos lá. Parados. Esperando. O silêncio caiu pesado. Douglas franziu levemente a testa, analisando. — Vocês estão no lugar errado— — Não — Ruan respondeu, calmo. — É você que tá. Aquilo foi o suficiente para mudar o clima. Douglas desligou o celular devagar. — Quem são vocês? Não respondemos. Não diretamente. Eu dei um passo à frente. Sem pressa. Sem levantar a voz. — Safira. O nome caiu entre nós como uma lâmina. O olhar dele mudou. Pequeno detalhe. Mas nós vimos. — O que tem ela? — ele perguntou, tentando manter a postura. Ruan soltou um leve riso… baixo, sem humor. — Nada. Uma pausa. — E vai continuar assim. Douglas cruzou os braços, irritado. — Olha, eu não sei quem vocês pensam que são— — Não precisa saber — interrompi. Silêncio. Pesado. Tenso. Ruan se aproximou mais um passo. Agora perto o suficiente. Perto demais. — Só precisa entender. Os olhos dele estavam frios. Sem espaço para dúvida. — Ela não é pra você. Douglas riu. Mas foi forçado. — E quem decide isso? A resposta veio simples. Direta. Final. — Nós. O silêncio que veio depois não era normal. Era carregado. Perigoso. Douglas sustentou o olhar por alguns segundos… tentando medir. Tentando entender. Tentando não recuar. Mas algo nele… entendeu. Mesmo que não quisesse. — Isso é ameaça? — ele perguntou, mais baixo agora. Ruan inclinou levemente a cabeça. — Não. Uma pausa. O olhar escurecendo. — É um aviso. Eu completei: — Você pode esquecer que ela existe… ou pode aprender do jeito difícil. Douglas travou o maxilar. O ego lutando. A razão tentando sobreviver. — Vocês tão se metendo onde não devem— — Última vez — falei, firme. — Fica longe dela. Silêncio. Longo. Pesado. Até que— Douglas desviou o olhar por um segundo. Pequeno. Mas suficiente. Ele entendeu. Não completamente. Mas o bastante. — Isso não acabou — ele disse, tentando recuperar o controle. Ruan deu um meio sorriso. Sombrio. — Acabou pra você. E então… simples assim… nós saímos. Sem correr. Sem olhar pra trás. Porque não era necessário. O recado tinha sido dado. --- De volta ao carro, o silêncio era outro. Mais calmo. Mais… resolvido. — Ele vai tentar? — Ruan perguntou. Olhei pela janela. Pensativo. — Talvez. Uma pausa. — Mas agora ele sabe. — Sabe o quê? Virei o rosto lentamente. Um leve sorriso surgiu. Frio. Seguro. — Que ela não tá sozinha. Naquela mesma noite, no apartamento… Safira dormia. Tranquila. Sem imaginar… que, em algum lugar da cidade, alguém tinha acabado de aprender uma coisa importante: ela não era mais acessível. Não era mais uma opção. Não era mais livre… como pensava. Porque, quando duas sombras escolhem alguém… o mundo ao redor aprende rápido: ou respeita… ou desaparece.
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