O som da música vibrava no peito.
Grave. Alto. Quase hipnótico.
As luzes da festa piscavam em tons quentes — vermelho, dourado, âmbar — refletindo na pele suada das pessoas que se moviam sem parar. Risadas, copos tilintando, corpos se esbarrando… tudo parecia vivo demais.
Safira passou a mão na trança longa que caía sobre o ombro, ajeitando o vestido justo ao corpo. Não era o tipo de lugar que ela costumava frequentar, mas naquela noite… ela quis sair. Quis se sentir vista. Quis se sentir viva.
E, por alguns segundos, conseguiu.
Alguns olhares se voltaram para ela enquanto atravessava o salão. Não eram olhares de pena. Nem de julgamento.
Eram de desejo.
Ela sentiu.
Um pequeno sorriso surgiu no canto dos lábios. Talvez, só talvez… ela fosse mais do que sempre disseram.
Mas então—
Veio o arrepio.
Não foi leve.
Não foi comum.
Foi profundo.
Subiu pela nuca, lento, quente… como se alguém estivesse olhando diretamente para ela. Não como os outros. Não de forma superficial.
Era diferente.
Era intenso demais.
Safira parou.
O copo em sua mão ficou imóvel no ar por um segundo enquanto seus olhos percorriam o ambiente. Pessoas dançando. Conversando. Vivendo suas próprias histórias.
Mas… ninguém.
Ninguém que explicasse aquela sensação.
Ela soltou o ar devagar, tentando ignorar. Talvez fosse coisa da sua cabeça. Talvez fosse só o ambiente. A música. O calor.
Ela virou o rosto—
E foi quando aconteceu.
Do outro lado do salão, quase escondidos entre as sombras e a luz baixa… eles estavam ali.
Parados.
Observando.
Ruan e Renam.
Idênticos.
Altos. Imponentes. Silenciosos em meio ao caos.
Mas não eram apenas a aparência que chamava atenção.
Eram os olhos.
Fixos nela.
Como se todo o resto da festa tivesse desaparecido.
Como se só existisse… Safira.
O mundo ao redor perdeu o som por um instante.
O coração dela falhou uma batida.
Depois outra.
E, sem entender o porquê… ela não conseguiu desviar o olhar.
Algo ali prendeu.
Algo perigoso.
Algo que ela nunca tinha sentido antes.
Do outro lado, Ruan inclinou levemente a cabeça, observando cada detalhe dela com precisão quase absurda.
— É ela — murmurou, a voz baixa, firme.
Renam não respondeu de imediato.
Ele já sabia.
Desde o momento em que os olhos dele encontraram os dela.
— Demorou — disse por fim, um tom mais grave, carregado de algo que não era apenas interesse.
Era certeza.
Safira engoliu seco.
Por um segundo, pensou em olhar para outro lado. Fingir que não tinha visto. Fingir que não sentiu.
Mas não conseguiu.
Porque, no fundo… alguma coisa dentro dela não queria fugir.
Queria entender.
Queria sentir de novo.
Queria… aquilo.
E isso a assustou mais do que qualquer coisa.
Do outro lado, um leve sorriso surgiu nos lábios de Ruan.
Não era gentil.
Não era leve.
Era o tipo de sorriso de quem reconhece algo que acabou de se tornar seu.
— Encontramos — ele disse.
Renam cruzou os braços, os olhos ainda presos nela.
— Não — corrigiu, baixo.
Uma pausa.
Pesada.
Definitiva.
— Nós escolhemos.
Safira piscou.
E, naquele pequeno segundo em que seus olhos se fecharam—
Quando abriu novamente…
Eles não estavam mais lá.
Sumiram.
Como se nunca tivessem existido.
Mas o arrepio continuava.
Mais forte.
Mais quente.
Mais presente.
E, sem saber… naquela noite, sem perceber… sem entender…
Safira tinha acabado de ser marcada.
E, a partir daquele instante…
ela nunca mais estaria sozinha.
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