Entre risos e sombras

806 Words
O tempo passou. Dias. Semanas. E, ainda assim… nada mudou. Ou melhor… tudo mudou. Porque, para Safira, a vida seguia normal. Mas para nós… cada dia era mais um passo dentro dela. Dentro da rotina. Dentro do mundo. Dentro daquilo que ela ainda acreditava ser só dela. Ela acordava cedo nos dias de trabalho. Organizada, focada, transformando outras mulheres com as próprias mãos. Tranças perfeitas. Maquiagens impecáveis. Sorrisos que ela mesma ajudava a construir. E, nos dias em que ficava em casa… era quando ela realmente se mostrava. Livre. Leve. Nossa. Ela colocava música alta, dançava pela sala, ria sozinha, bebia sem culpa… criando a própria felicidade dentro de quatro paredes. E nós assistíamos tudo. Sempre no mesmo lugar. Sempre em silêncio. Sempre… presentes. — Ela não precisa de ninguém — Ruan murmurou certa noite, encostado na parede enquanto ela dançava descalça pela sala. Observei cada movimento dela. Cada detalhe. — Precisa — respondi, baixo. — Só ainda não sabe. Naquela noite, porém… algo mudou. O celular dela tocou. Safira, jogada no sofá, pegou o aparelho ainda rindo de algo que assistia. — Amiga, vamos sair! — a voz animada veio do outro lado. Safira soltou um suspiro, jogando a cabeça para trás. — Ah não, amiga… tô cansada. Trabalhei muito hoje. Ruan cruzou os braços, atento. Eu também. — Você tem que sair de casa, mulher! Safira riu, aquele riso leve que preenchia o ambiente. — Eu sei… mas hoje não dá, tô morta. Uma pausa. — Então posso ir pra aí? Ela pensou por um segundo… e sorriu. — Pode, Verônica. Vem. — Tem bebida aí? — Tem gin… e uma garrafa de vinho. — Tô indo! A ligação terminou. Ruan virou o rosto lentamente pra mim. — Interferência. Assenti. — Observação continua. Porque, independente de quem entrasse… aquilo ainda era o território dela. E agora… nosso. Algum tempo depois, a campainha tocou. Safira correu até a porta, abrindo com um sorriso aberto. — Amigaaaa! Verônica entrou animada, já tirando a bolsa, rindo. As duas se abraçaram, energia leve, verdadeira. E aquilo… era estranho. Porque não era só Safira. Era ela com alguém. Compartilhando o que sempre vimos sozinhos. Elas colocaram música. Mais alta. Mais animada. E começaram. Dançando juntas, rindo, bebendo… como se o mundo fosse simples. Como se nada existisse além daquele momento. Safira girava, puxando Verônica, cantando alto… completamente entregue à própria vibe. Ruan observava em silêncio. Mas eu percebi. O olhar dele mudou. — Eu não gosto disso — ele disse, baixo. — É a vida dela — respondi. — Não é mais só dela. Silêncio. Pesado. Porque ele não estava errado. As horas passaram. A bebida desceu. As risadas aumentaram. Até que, em um momento mais calmo, sentadas no sofá, Verônica virou o rosto para Safira. — Amiga… lembra do Douglas? O ambiente mudou. Sutil. Mas mudou. Safira parou por um segundo. — Sim… o que tem ele? — Ele tá perguntando por você. O maxilar de Ruan travou. O meu também. — Aí fala que você não sabe onde eu tô — Safira respondeu rápido. Verônica franziu a testa. — Amiga, que isso? Safira passou a mão no cabelo, o olhar ficando mais sério. — Não, Verônica… aí não. Eu não quero. Silêncio. A música ainda tocava, mas agora parecia distante. — Eu só quero paz — ela continuou, firme. — Quero viver tranquila… sem ninguém querendo mandar em mim, decidir por mim. Ruan deu um passo à frente. Instinto puro. — Douglas tem dinheiro, sim — ela continuou — mas isso não quer dizer nada. Dinheiro eu tenho. Não muito… mas me mantenho muito bem. Meu olhar escureceu. Porque aquilo… aquilo dizia muito mais do que ela imaginava. Ela não queria controle. Não queria alguém dominando. Não queria prisão. Ruan soltou o ar devagar. — Ele já errou — murmurou. Não respondi. Mas concordei. Porque, naquele momento… uma coisa ficou clara: Ela podia não saber da gente ainda. Mas já estava rejeitando qualquer coisa que se parecesse conosco. E isso… não mudaria o que sentimos. Só tornava tudo mais perigoso. Mais intenso. Mais inevitável. No sofá, Safira deu um gole na bebida e voltou a rir, tentando aliviar o clima. Verônica entrou na onda, puxando outro assunto. A música voltou a crescer. E, pouco depois… elas estavam dançando de novo. Como se nada tivesse acontecido. Como se o mundo ainda fosse leve. Como se não existisse ninguém observando cada escolha dela. Mas existia. E agora… mais atento do que nunca. Porque, pela primeira vez… alguém de fora entrou na história. E nós não dividimos. Nunca. Ruan se aproximou mais da sombra. Os olhos fixos nela. — Ninguém vai interferir. Eu observei em silêncio. E concordei. Porque, a partir daquele momento… não era só sobre observar. Era sobre garantir. Que nada… e ninguém… tirasse ela de nós. ---
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