Queda silenciosa

550 Words
Ele escolheu ignorar. E, a partir desse momento… deixou de ser um problema. Passou a ser uma decisão. — Começou — Ruan disse, olhando a tela. Eu observei em silêncio. Números caindo. Contratos sendo encerrados. Parcerias desfeitas… uma após a outra. Nada de explosões. Nada de escândalo imediato. Só… colapso. Organizado. Preciso. Irreversível. — Ele tá perdendo apoio — murmurei. — Não — Ruan corrigiu, com calma. — Tá sendo retirado. Diferença sutil. Mas importante. Porque nada ali era sorte. Era planejamento. Douglas acordou naquela manhã com o telefone tocando sem parar. Mensagens. Ligações. E-mails. Tudo ao mesmo tempo. — O quê? — ele atendeu irritado. Do outro lado, desespero. — A parceria caiu. — Como assim caiu? — Eles desistiram. Sem explicação. Silêncio. Outro telefone tocando. E outro. E outro. Em menos de duas horas… o mundo dele começou a desmoronar. Contas bloqueadas. Reuniões canceladas. Investidores recuando. Pessoas sumindo. Como se, de repente… ninguém mais quisesse estar ligado a ele. — Ele tá tentando reagir — comentei. Ruan soltou um leve riso. — Deixa. Na tela, Douglas aparecia andando de um lado pro outro no escritório, furioso, perdido… tentando entender o que estava acontecendo. Mas não havia resposta. Porque não era um problema que ele pudesse resolver. Era algo maior. Mais profundo. Mais inevitável. — Quem tá fazendo isso comigo?! — ele gritou, jogando o celular na mesa. Ninguém respondeu. Porque ninguém sabia. E quem sabia… não precisava falar. Dias passaram. E, com eles… o nome Douglas Ferraz começou a desaparecer. Lentamente. Primeiro dos negócios. Depois dos contatos. Depois… das conversas. Como se nunca tivesse sido tão grande quanto pensava. Como se nunca tivesse sido intocável. — E agora? — Ruan perguntou. Observei a tela. A última etapa. — Agora ele entende. A última visita foi silenciosa. Sem anúncio. Sem pressa. Douglas já não era o mesmo. Roupa amassada. Olhos cansados. Postura quebrada. Ele abriu a porta… e travou. Porque nós estávamos ali. Como antes. Mas, dessa vez… não era um aviso. Era o fim. — Foi você… — ele murmurou, a voz falhando. Ruan inclinou levemente a cabeça. — Foi você — corrigiu. Silêncio. Pesado. Irrefutável. Douglas deu um passo para trás. — O que vocês querem? A resposta veio simples. Fria. — Nada. Uma pausa. — Já tiramos tudo que precisava. Ele riu. Desesperado. — Isso não vai ficar assim— — Já ficou — interrompi. Os olhos dele tremiam agora. Medo. Finalmente. — E eu? Ruan deu um pequeno passo à frente. O suficiente. — Você some. Silêncio. — Ou…? O olhar dele encontrou o nosso. E entendeu. Não era ameaça. Não era blefe. Era destino. Naquela mesma noite… Douglas Ferraz deixou a cidade. Sem despedidas. Sem explicações. Sem rastro. E, com o tempo… até o nome dele deixou de ser lembrado. Do outro lado da cidade… Safira ria. Dançava. Vivia. Sem saber… que um capítulo da vida dela tinha sido apagado. Antes mesmo de começar. --- Encostado na sombra do apartamento dela, observei em silêncio. — Resolvido — Ruan disse. Assenti. Mas meus olhos ainda estavam nela. Sempre nela. — Agora ninguém atrapalha. Uma pausa. Lenta. Carregada. — Agora… a gente se aproxima. Ruan sorriu. E dessa vez… não havia mais contenção. Porque a maior ameaça… já tinha desaparecido. E Safira… finalmente… estava completamente nossa.
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