A rotina que nos prendeu

631 Words
Meses passaram. E nós… continuamos. Sombras. Silenciosas. Presentes. Constantes. Safira nunca percebeu. Nem quando estávamos mais perto do que deveríamos. Nem quando o silêncio da casa dela não era tão vazio quanto parecia. Ela seguia vivendo. Do jeito dela. E era isso que nos prendia cada vez mais. Naquela noite, ela estava sentada no chão da sala. Espelho apoiado na mesa de centro. Tranças espalhadas ao redor. Concentrada. Dedicada. Linda… de um jeito que não precisava de esforço. Ruan encostou na parede, observando cada movimento das mãos dela. — Olha isso… Eu também observava. Cada detalhe. Cada precisão. Ela dividia o cabelo com cuidado, trançando com habilidade, paciência… como se estivesse criando arte. — Ela faz tudo sozinha — ele murmurou. Assenti. — Sempre fez. Safira inclinou levemente a cabeça, ajustando a trança, analisando o próprio reflexo com um olhar crítico… mas logo depois sorrindo. Satisfeita. Orgulhosa. E aquilo… aquilo mexia. Porque não era só talento. Era independência. — Ela não precisa de ninguém — Ruan disse, baixo. Olhei pra ela. De verdade. — Precisa. Ele virou o rosto pra mim. — Pra quê? Silêncio. Uma resposta simples… mas carregada. — Pra não fazer tudo sozinha. Safira terminou a trança e se levantou, girando levemente o corpo, admirando o resultado. Um sorriso aberto surgiu no rosto dela. E, no segundo seguinte… a música começou. Alta. Como sempre. Ela largou tudo de lado e começou a dançar pela sala. Livre. Sem pensar. Sem medo. Sem saber. Ruan soltou um leve riso. — Ela não para… — Não — respondi. — E a gente também não. Outro dia. Outro momento. Outra versão dela. Safira estava no sofá, com uma bandeja apoiada nas pernas. Hambúrguer. Batata. Refrigerante. Um filme passando na TV. Ela comia tranquila, rindo de alguma cena, completamente confortável… completamente em paz. — Ela pede sempre isso — Ruan comentou. — Quando quer conforto — completei. Porque já sabíamos. Tudo. Os horários. Os hábitos. Os gostos. O que fazia ela sorrir. O que fazia ela ficar em silêncio. O que ela fazia quando estava feliz. E quando estava cansada.ela No banheiro, em outro dia… ela estava diante do espelho. Concentrada. Fazendo a própria sobrancelha. Depois os cílios. Depois a pele. Cada detalhe. Cada cuidado. Sozinha. Sempre sozinha. Ruan passou a mão pelo rosto, pensativo. — Ela não devia fazer isso sozinha. Olhei pra ele. — Não. — Ela devia sentar… — ele continuou — e alguém fazer por ela. Uma pausa. Mais profunda. Mais reveladora. — Tudo. Silêncio. Porque aquilo não era só sobre cuidado. Era sobre controle. Sobre presença. Sobre… tomar espaço. Na sala, mais uma noite. Ela dançava de novo. Ria. Cantava. Girava descalça pelo chão. Como se o mundo fosse leve. Como se nada pudesse tocar ela. Mas nós podíamos. E estávamos cada vez mais perto. — Eu gosto disso nela — Ruan disse. — O quê? — Essa alegria. Observei. E concordei. — A gente não tira isso. — Não — ele respondeu. Uma pausa. Mais escura. Mais intensa. — A gente só muda o resto. O silêncio que veio depois… não era dúvida. Era decisão. Safira caiu no sofá, cansada de tanto dançar, rindo sozinha. Pegou o celular. Pediu comida. Se ajeitou. E ficou ali… vivendo o próprio momento. Simples. Leve. Real. Sem saber… que cada detalhe dela já não era mais só dela. Encostei na sombra, os olhos ainda nela. — Quanto mais a gente vê… Ruan completou: — Mais a gente quer. Uma pausa. Pesada. Irreversível. — E agora…? Olhei pra ela. De verdade. Sentindo. Decidindo. — Agora a gente para de só assistir. Ruan sorriu. Devagar. Sombrio. Ansioso. — Finalmente. Porque o tempo de sombra… estava chegando ao fim. E Safira… sem saber… estava cada vez mais perto de descobrir… que nunca esteve sozinha.
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