Quase

610 Words
A madrugada era silenciosa. Pesada. Daquelas em que o mundo parece parar… e qualquer som se torna alto demais. Safira dormia. Respiração calma. Corpo relaxado. Perdida em um sono profundo depois de mais um dia cheio. E nós… estávamos ali. Como sempre. Mais perto do que nunca. Ruan encostado na parede do quarto. Eu ao lado da porta. Observando. Guardando. Existindo no mesmo espaço que ela… sem que soubesse. Ou… pelo menos, era o que pensávamos. Algo mudou. Sutil. Mas mudou. Antes mesmo de qualquer movimento. Antes de qualquer som. Ela sentiu. Safira franziu levemente a testa no meio do sono. O corpo se mexeu. Inquieto. E, no segundo seguinte— Os olhos abriram. Devagar. Confusos. Mas atentos. O silêncio ficou mais pesado. Mais denso. Mais… real. Ruan não se moveu. Mas eu percebi. Ele também sentiu. — Ela acordou… — ele murmurou, quase inaudível. Safira ficou imóvel na cama. O olhar perdido no escuro. Tentando entender. Tentando sentir. O coração dela começou a acelerar. Não por medo total… Mas por algo estranho. Uma sensação. Presença. Ela puxou o lençol levemente, respirando mais fundo. O quarto estava escuro. Quieto. Mas… não parecia vazio. E isso… isso fez algo dentro dela despertar. — Tem alguém aqui?… — a voz saiu baixa, quase um sussurro. O ar ficou pesado. Perigoso. Porque aquela era a linha. A linha que nunca cruzamos. Até agora. Ruan deu um passo mínimo para trás. Instinto. Pela primeira vez… não era controle total. Era cautela. Era… quase insegurança. — Não era pra ser assim… — ele murmurou. Eu observei Safira. Os olhos dela agora mais abertos. Mais atentos. Sentindo mais. Do que devia. Do que deveria ser possível. E, pela primeira vez… hesitei. Não por medo. Mas por algo novo. Algo que não controlávamos. Ela. A percepção dela. — A gente sai — falei, firme. Ruan travou por um segundo. O olhar ainda preso nela. Como se não quisesse. Como se fosse contra tudo que éramos. Mas então… assentiu. Lento. Difícil. Nos movemos. Silenciosos como sempre. Mas dessa vez… diferente. Mais rápidos. Mais… cautelosos. Saindo do quarto. Desaparecendo na escuridão. Como se nunca tivéssemos estado ali. Na cama, Safira continuava imóvel. O coração batendo mais forte. O quarto… silencioso. Vazio. Normal. Mas não parecia. Ela passou a mão no rosto, tentando afastar a sensação. Tentando racionalizar. — Deve ser coisa da minha cabeça… — murmurou. Olhou ao redor mais uma vez. Nada. Nenhum som. Nenhuma presença. Só o escuro. Só o silêncio. Só ela. Ou pelo menos… era o que parecia. Safira soltou o ar devagar. Se ajeitou na cama. Virou de lado. — Eu tô ficando maluca… — sussurrou, fechando os olhos. E, mesmo com aquela sensação ainda ali… ela escolheu ignorar. Escolheu descansar. Escolheu… acreditar que estava sozinha. Do lado de fora do quarto… no escuro do corredor… paramos. Silêncio. Pesado. Diferente de todos os outros. Ruan passou a mão pelo cabelo. — Ela sentiu. Não era pergunta. Era constatação. Assenti. — Antes da hora. Uma pausa. Mais longa. Mais tensa. — A gente quase perdeu o controle — ele disse. Olhei pra porta do quarto. Pensativo. — Não. Uma pausa. Baixa. Precisa. — A gente só chegou perto demais. Silêncio. Mas algo tinha mudado. Definitivamente. Porque, pela primeira vez… Safira não estava totalmente alheia. E nós… não estávamos totalmente invisíveis. Ruan encostou na parede. Os olhos ainda na direção dela. — E agora? Olhei para o escuro. Sentindo. Calculando. Decidindo. — Agora… a gente toma cuidado. Uma pausa. Mais profunda. Mais inevitável. — Porque a próxima vez… ela pode não voltar a dormir. E, quando isso acontecer… não vai ter mais como voltar pra sombra.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD