Capítulo 3

987 Words
Às vezes, eu sinto que minha vida começou no jardim daquela casa. Eu era pequena quando conheci Ângelo, mas era como se ele fosse a primeira pessoa que realmente enxergava além de mim. Ele via a minha alma, ou pelo menos parecia ver, e quando estávamos juntos, o mundo ficava maior, mais colorido, como se tudo fosse possível. Nós passávamos horas juntos, brincando, rindo, inventando nossas próprias histórias. Ele sempre dizia que éramos como heróis de um filme, e eu acreditava. Mas a verdade é que nenhum filme me preparou para o dia em que tivemos que ir embora. Lembro das mãos da minha mãe apertando as minhas, quase como se ela estivesse segurando tudo o que restava. Eu via o olhar assustado de Ângelo enquanto ele tentava entender, mas eu sabia que não podia voltar atrás. A vida depois disso foi cheia de mudanças. Mudamos de cidade, e comecei a frequentar uma nova escola. No começo, tudo parecia vazio. Eu evitava fazer amigos porque nada parecia certo sem Ângelo. Mas com o tempo, fui me acostumando. Minha mãe encontrou um novo trabalho, e eu comecei a entender que talvez nossa vida pudesse ter outros caminhos. Foi aí que conhecemos o Francisco. Ele era gentil, cuidadoso, alguém que fazia minha mãe sorrir de verdade, algo que eu achava que ela nunca mais faria. Eles se casaram e, pela primeira vez em muito tempo, nossa vida começou a ter uma rotina tranquila. Francisco cuidava de nós duas com tanto carinho que, aos poucos, comecei a ver nele a figura de um pai, alguém que estava sempre por perto para o que precisássemos. Ele também tinha uma filha, Ana Carolina, da minha idade. Acabamos nos aproximando, e, por conta disso resolveram me trocar de escola, para ficarmos mais próximas. Eu não esperava que a escola nova me reservasse grandes surpresas… até o momento em que o vi. Lá estava ele. Ângelo. Ele estava mais alto, e os traços estavam diferentes, mas os olhos… aqueles olhos verdes ainda eram os mesmos. Por um segundo, era como se todo o tempo que passamos longe não tivesse existido. Quis correr até ele, contar tudo o que tinha acontecido. Mas algo me impediu. E se ele não se lembrasse de mim? E se eu não fosse importante para ele? Eu desviei o rosto, tentando esconder o turbilhão de emoções que se misturavam em mim. Me convenci de que ele não tinha me visto, que talvez fosse melhor assim. Mas ele me viu e se aproximou, com um sorriso meio incerto. — Margarete? — ele perguntou, como se tentasse ter certeza. Levantei o olhar, e nossos olhos se encontraram. Eu sorri, sem conseguir esconder a felicidade. — Ângelo? — perguntei, com um sorriso que eu não conseguia segurar. Ele sorriu de volta e se sentou ao meu lado, ainda me olhando como se estivesse tentando acreditar que era mesmo eu. — Não acredito que estamos na mesma escola! — ele disse, rindo. — Eu teria reconhecido você em qualquer lugar. Eu sorri. — Eu também. Ele riu e sacudiu a cabeça. — Eu não esperava te reencontrar assim, depois de tanto tempo. — Nem eu — respondi, tentando manter a voz firme, mas o alívio e a felicidade eram tão intensos que era difícil disfarçar. Continuamos falando, rindo e relembrando as aventuras de antes, como se o tempo não tivesse passado. Era como se tudo finalmente tivesse voltado para o lugar, como se o destino tivesse traçado esse reencontro para nós. Estar com Ângelo de novo era como reencontrar uma parte de mim mesma que eu nem sabia que estava faltando. — Que série você está? — ele perguntou. — Na quarta — respondi, sorrindo. — Eu também! — Ele deu uma risadinha, meio confuso. — Mas não te vi na minha sala… — Então, talvez a gente esteja em turmas diferentes. Ele balançou a cabeça, parecendo desapontado, mas logo voltou a sorrir. — Mas… você veio morar aqui? — É… minha mãe se casou com o Francisco, e ele tem uma filha da nossa idade. Ela também estuda aqui. — Ah é? Qual o nome dela? — Ana Carolina. — Ana Carolina Hoop? — ele repetiu, rindo. — Ela é minha colega de sala! Começamos a rir da coincidência, e eu percebi que aquela sensação de familiaridade com Ângelo ainda estava ali. A escola já não parecia tão nova nem assustadora com ele por perto. Ficamos ali, conversando como antigamente. — Mas, e aí, você vai ficar por aqui agora? — ele perguntou, me olhando com curiosidade. — Vou sim — eu disse, tentando soar casual, mas m*l conseguindo esconder a alegria. Ângelo riu e me cutucou de leve, como fazia antes. — E aí, lembra quando a gente corria atrás das borboletas? Eu nunca consegui pegar uma. — Nem eu! — falei, rindo. — Mas acho que o legal era a bagunça que a gente fazia, não pegar as borboletas. Ele concordou, e ficamos relembrando nossas aventuras. Cada memória trazia um pedaço da nossa amizade de volta, como se o tempo não tivesse realmente nos separado. — Ei, foi m*l aquela despedida esquisita… eu fiquei sem saber o que fazer — ele murmurou, olhando para o chão. — Não foi culpa sua, além do mais, a gente tinha 7 anos. Não tinha o que fazer! — respondi, tentando não mostrar o quanto aquela despedida ainda doía um pouco. — Mas o importante é que estamos aqui agora. De repente, o sinal tocou, indicando o fim do intervalo. Nós dois rimos e ficamos de pé, prontos para voltar às nossas salas. — Vou te ver depois, então? — ele perguntou, meio sem jeito, mas com um brilho nos olhos. — Com certeza — respondi, tentando disfarçar minha empolgação. Enquanto eu caminhava de volta para sala, senti que, por mais que o tempo tivesse nos afastado, alguma coisa dentro de nós não tinha mudado.
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