VITORIA
— Você não precisa ficar, John.
— Não vou te deixar sozinha. Estou longe de você há muito tempo e isso não vai acontecer desta vez.
— Tony não é uma pessoa agressiva, ele nunca me amou, então vai me dar o divórcio.
O meu irmão aperta os lábios e balança a cabeça.
— Por que ele não te pediu o divórcio antes? Tem certeza de que ele não sente nada por você?
Passo a língua pelos lábios.
— Ele nunca me convidava para jantar por prazer, mas pelas aparências. Saíamos para jantar e ele m*al me dava atenção. Passava a maior parte do tempo olhando o celular. Em casa, não é muito diferente. Nos fins de semana, às vezes ele vai ao clube jogar golfe ou tênis com empresários ou com o pai. E quando está em casa, se tranca no escritório. Ouvi-lo sendo tão amigável com a assistente e descobrir que ele saiu para jantar com ela na outra noite... foi a gota d'água. Ele me disse que nada aconteceu entre eles, mas é claro que, se algo tivesse acontecido e eu pudesse provar, ele teria que me pagar por causa de uma cláusula de fidelidade no casamento.
John assente e passa a mão pelos cabelos.
— Casar parece complicado.
Eu sorrio.
— Quando você se casa por amor, é diferente.
Ele assente.
— Eu nunca me apaixonei. Melissa me deixou quando eu disse a ela que estava deixando a família para viver a minha vida.
— Ela só queria se casar com um herdeiro rico e bonito.
— Eu sei. Eu não acreditei até falar com ela naquele dia e ela me dizer que não podíamos continuar juntos.
Estendo a mão para pegar a dele e apertá-la.
— Ela te fez um favor. Você está feliz agora. Se serve de consolo, eu nunca gostei dela.
Ele ri.
— Sim, tenho mais trabalho do que gostaria, mas amo o que faço. Gosto de ajudar as pessoas a terem uma melhor qualidade de vida. Concordo. — Você pode morar comigo...
— Não, estou bem com a Ella. Dividiremos as despesas assim que eu me estabilizar.
— Não se preocupe com o meu sobrinho ou sobrinha. Vou garantir que eles recebam o melhor atendimento médico. Não lhes faltará nada.
Ainda acho difícil acreditar que ele queria entrar em contato comigo e que a minha mãe disse que eu não queria falar com ele e o considerava um traidor. Ela até deu um número falso para ele.
Ela me disse que John tinha ido embora sem se importar com nada nem com ninguém, que ele era uma pessoa egoísta que deveríamos manter à distância.
Eles nos manipularam para nos manter separados.
John acha que, se tivéssemos mantido contato, eu teria me "rebelado" antes. Talvez ele esteja certo.
Agora o destino nos uniu novamente, e eu tenho o seu apoio incondicional.
Com ele e Ella, não preciso dos meus pais nem do Tony.
Eu queria que as coisas fossem diferentes, mas tenho que aceitar a realidade.
— Você pode ir agora. Te ligo depois de falar com o Tony.
Ele suspira, balança a cabeça e se levanta.
— Estarei no carro. Não irei longe. Se precisar de alguma coisa, me ligue e eu venho.
— Você não precisa passar o seu dia de folga assim.
Ele ri.
— Eu não tenho vida social e não vou te deixar sozinha de novo. É só ligar.
— Obrigada.
Ele me dá um abraço rápido e vai embora. Fico sozinha no café. Peço um chá de ervas para acalmar os meus nervos. Pelo menos tenho o apoio de John, e não achei que algum dia conseguiria retomar o nosso relacionamento.
A garçonete coloca o chá na minha mesa no momento em que vejo Tony entrar. Ele tira os óculos escuros e caminha com passos firmes assim que me vê.
Tão bonito, tão autoconfiante e enigmático como sempre. Eu me apaixonei por ele sem procurar, sem esperar. Antigamente, eu teria feito qualquer coisa por ele, mas não hoje.
O que eu sentia por ele se desvaneceu lentamente a cada gesto frio, cada rejeição e cada palavra desamorosa.
Engulo em seco e tomo um gole de chá para me acalmar.
Preciso ser firme. Não há como voltar atrás.
Mesmo estando grávida dele, por enquanto não pretendo dizer nada a ele. Não quero que ele pense que devemos continuar casados só pelo bebê. Primeiro, vou me divorciar e depois conto a ele.
— Vitoria. Ele diz ao chegar.
Não me levanto. Vendo que não farei nada, ele suspira e se senta. A garçonete aparece rapidamente com um sorriso enorme.
Tony pede um café sem tirar os olhos de mim.
— Não precisamos prolongar isso, Tony. Você se casou comigo para salvar a empresa do seu pai, e ele concordou em deixar você se casar comigo porque meu irmão seguiu o seu próprio caminho, e meu pai não acredita que uma mulher possa administrar uma empresa.
Ele franze a testa.
— Não foi que ele te casou comigo porque não achava que você fosse capaz de administrar a empresa. Eu fiz a minha parte como marido.
— Claro.
— O que isso significa? Como eu falhei com você? Se você acha que eu te traí com a minha assistente, você está enganada. Nada nunca aconteceu, e nem vai acontecer.
— Como eu disse, não me importa se você foi jantar com a sua assistente ou se planeja ficar com ela quando nos divorciarmos. Eu só quero ser livre.
Ele está prestes a responder, mas para quando a garçonete chega com o café. Ele espera que ela saia e então fala: fui jantar com a minha assistente e dois outros funcionários. Não foi um encontro, e muitas pessoas viram. Só estou interessado nela como funcionária. Não quero me divorciar de você.
— Você não vai assinar os papéis?
— Me dê um motivo.
Eu rio.
— Um motivo? Você acha que ser um bom marido significa me dar presentes, um cartão ilimitado, me levar a jantares de negócios e sair de vez em quando enquanto está grudado no celular? Isso é suficiente? Não é para mim. Sejamos honestos, somos praticamente estranhos. Você m*al fala comigo. No começo, eu era paciente, esperando que as coisas melhorassem, mas nunca melhoraram.
Um dia, percebi que parei de sentir o que sentia por você. Ouvir você rir e conversar com a sua assistente só me fez perceber que você nunca foi assim comigo. Você nunca se sentiu tão à vontade quanto com ela. Eu me tornei uma espécie de enfeite na sua vida. Desisti da minha carreira no dia em que me casei com você para ser a esposa ideal que a minha mãe havia preparado. Fiz de tudo para agradar a todos, mas tudo o que recebi foi crítica e desprezo. Eu me perdi. Eu tinha duas escolhas: cair na tristeza ou ir embora. Escolhi ir embora e encontrar coragem. Não vou mudar de ideia.
Ele me olha como se me visse pela primeira vez. Talvez seja verdade, mas não me importo mais.
— Por que você não me contou antes?
— Quando, Tony? Quando tentei, você disse que estava cansado e não tinha vontade de ouvir os meus 'dramas'.” Na sexta-feira, eu ia sugerir que decidíssemos se ficaríamos juntos ou nos separaríamos, mas depois de ouvir você e a sua assistente, percebi que não fazia mais sentido.
— Eu não quero o divórcio, Vitoria.
— Por que não? Você não precisa mais desse casamento para a empresa.
— Porque você é uma boa esposa e eu não quero outra.
Eu caí na gargalhada.
— Claro, você quer alguém que cuide de você e não faça perguntas. Você acha que basta me dar presentes e fingir que está tudo bem, mas eu não estou interessado em continuar assim.
Ele fica tenso.
— Se nos divorciarmos, você não vai receber nada. Assinamos um acordo e seu pai não vai te deixar herança.
Reviro os olhos. — Eu sei, e não me importo.
— Como você vai se sustentar? Você diz que tem um emprego.
— Isso não é da sua conta. Eu tenho sustento. Não preciso do seu dinheiro nem do meu pai. Você pode pensar que eu só sei organizar jantares e escolher louças, mas está enganado. Mas não estou surpresa, porque nenhum de vocês me conhece.
— Neste momento, eu não te conheço.
Levanto-me com toda a elegância que consigo reunir.
— Você nunca me conheceu de verdade porque não estava interessado. Assine os papéis e vamos terminar isso em paz.
— E se eu não assinar?
— Então, ainda serei sua esposa legalmente, mas não voltarei para você nem dependerei de você. Não pretendo me casar novamente por enquanto. Quero o divórcio para ficar completamente livre, mas serei livre de qualquer maneira, com ou sem a sua assinatura. Você decide se prefere ser um homem divorciado ou abandonado pela esposa. Pode até dizer que foi tudo culpa minha, se isso te ajudar a manter as aparências. Eu não me importo.
Eu me solto dele e vou embora, firme. Não há como voltar atrás.
Disse tudo o que tinha a dizer.
Sei que ele se importa mais com o que os outros pensam, mas eu só quero recomeçar, viver em paz e criar bem o meu filho.