Duas Realidades Diferentes

1380 Words
Era por volta de 10h, estávamos no recreio quando avistei uma cena que chamou minha atenção, me deixando bastante chocada. Dois alunos meus do sétimo ano, o Juliano e o Fernando estavam tirando sarro de uma colega, a Catarina, pelo fato dela estar usando um aparelho extrabucal. Não consegui vê-los zombando da garota e rapidamente fui até eles. - Posso saber o que está havendo aqui? - Perguntei seriamente. Percebi a cara de susto deles, e os dois se olharam sem saber o que responder, mas com certeza já tinham percebido que eu havia visto tudo, e eu não permitiria que aquele absurdo continuasse. - Só estávamos conversando com a Cata. - Falou Juliano ao colocar o braço em volta do pescoço da garota. - Não, vocês estavam zombando dela. - Falei. - Tá tudo bem, prof. - Disse Catarina timidamente. - Não, não está nada bem. - Digo. - Vocês sabem como se chama isso que vocês estavam fazendo? É bullying e isso é algo terrível, vocês tem noção de quantas crianças e jovens se matam todos os dias por conta disso? Com certeza vocês não gostariam que fizessem isso com vocês, não é? Então, por que fazer isso com os outros? - Foi m*l. - Falou Fernando parecendo meio envergonhado. - Desculpa Cata. - É, desculpa, pisamos na bola. - Completou Juliano. - Vai nos dedurar pra diretora, prof? - Não, dessa vez, não. Mas que isso não se repita. Os dois me garantiram que não voltariam a repetir o ato, me agradecem e depois foram em direção do banheiro. - Obrigada. - Disse Catarina com um leve sorriso. Sorri, lhe fiz um pouco de cafuné e fui para a sala dos professores para aproveitar o restinho do meu intervalo. Eu abominava qualquer tipo de preconceito, não podia ver aquilo sem fazer nada, havia pensado até em levá-los para a diretoria, mas resolvi dar um voto de confiança aos dois, mas caso isso voltasse a acontecer, eu não pensaria duas vezes. Eu havia começado a trabalhar nessa escola no começo do ano e estava gostando bastante, era um colégio enorme, do primeiro ano do ensino fundamental até o terceiro ano do ensino médio, como era um colégio de grande porte e nome, 90% dos alunos eram filhinhos de mamãe e de papai, os outros 10% eram bolsistas, acho que por isso os que pagavam a escola se sentiam superiores aos bolsistas, o que acho extremamente errado, para mim todos são iguais. Uma pena que a escola não tivesse educação infantil pra eu colocar a Mel, pois filhos de professores não pagam mensalidade. Era uma realidade completamente diferente da que eu vivia na parte da tarde com meus pimpolhos da rede pública, dois mundos extremamente diferentes. Enquanto uns tinham tudo do bom e do melhor, os outros muitas vezes não tinham nem o que comer. E as duas escolas eram em bairros próximos, como pode isso? Juro que nunca consegui entender. À tarde eu estava dando aula para os meus pitocos na rede pública. Por mais que eu gostasse muito das minhas turmas da manhã, eu tinha um amor muito maior pelos pequenos da tarde, acho que pelo fato deles serem muito carentes. Eram tão carinhosos, viviam dizendo o quanto me amavam, o quanto queriam ser como eu quando crescessem e isso é muito gratificante, e os pais deles sempre me respeitaram muito, a maioria eram traficantes, chefes do tráfico e até matadores de aluguel, mas por incrível que pareça, eu não tinha medo deles e nem do bairro que era um dos mais perigosos da cidade, pois lá professores eram idolatrados como deuses, só faltavam fazerem continência, eu era muito bem tratada por todos, me sentia até uma rainha, e se um dia eu fosse assaltada ou qualquer coisa do gênero, acho que eles seriam capaz de m***r a pessoa, não toleram isso com professores, acho que podia ser assim em todos os lugares, pois somos uma das profissões menos valorizadas, e sem professores não existiria nenhuma outra profissão. O último período foi de educação física. Assim que o sinal tocou, as crianças me abraçaram e saíram correndo para pegarem suas mochilas para irem embora, estavam bem eufóricas.  Roberta foi vagarosamente até sua mochila, ela a pegou e depois foi em minha direção. - Prof, eu não quero ir pra casa. - Ela disse timidamente. - Por que, querida? O que aconteceu? - A questionei. - Meu padrasto tá bravo porque eu quebrei o celular dele, mas foi um acidente. Ele pediu pra eu pegá-lo, mas na correria de vir pra escola, sem querer deixei cair no chão. Ele disse que conversaríamos depois da aula. Tô com medo, ele vai brigar comigo. - Hey, meu amor, calma. - Falei. - Com certeza, agora ele já deve estar mais calmo, talvez a sua mãe tenha conversado com ele. - Tomara! - Ela falou cabisbaixa. - Quer que eu converse com ele? - Perguntei. - Não, não. Não precisa. O padrasto da Roberta chegou em seguida, ela me abraçou mais forte do que as outras vezes e foi com ele. Senti um aperto no peito, uma sensação r**m, algo inexplicável, se eu pudesse não teria deixado ela ir com ele, mas eu não podia fazer isso. Fui para casa, mas não conseguia parar de pensar na minha aluna, tomara que seu padrasto não tenha brigado com ela, e a menina era um doce, um amor de criança. Ao chegar em casa, notei que estava um completo silêncio, Lucas não estava, acho que havia saído mais cedo para buscar a Mel na escola. Aproveitei para corrigir umas provas da turma da manhã, foi pior do que eu esperava, me senti uma péssima professora, como se tudo o que eu tivesse ensinado para eles tivesse sido em vão. Só metade da turma conseguiu passar na prova e mesmo assim as notas foram baixas, não passaram de 7,6. - Adivinha quem chegou. - Falou uma doce voz ao abrir a porta de casa. - O amor da minha vida? - Perguntei. - Bingo. - Falou se pondo a pular em meu colo. A enchi de beijos e logo fui surpreendida com um beijo pra lá de ''caliente'' de Lucas, o que me deixou bastante surpresa. Mel fechou os olhos, pois ela sabia que não gostávamos que ela visse cenas de beijo, pois não era pra sua idade. - O que aconteceu? - Perguntei. - Amor, você nem sabe. - Falou super empolgado. - Eu fui a uma entrevista hoje e estou mega confiante, aposto que serei chamado, o dono da empresa gostou muito de mim, ficou de me ligar amanhã para me dar uma resposta. - Ai, que bom, amor. - Falei ao lhe abraçar. - Querem ver o desenho que eu fiz hoje na escola? - Nos questionou Melanie. - Claro, meu amor. - Falei. - Claro princesa. - Disse Lucas. Mel foi correndo até sua mochila, pegou o desenho e depois se juntou a nós novamente.  Ela nos mostrou toda animada, havia feito duas pessoas grandes e uma pequena no meio, logo soube do que se tratava o tal desenho. - Essa é você, mamãe, esse é o papai e essa sou eu. - Falou com um sorriso de orelha a orelha. - Ai que lindo esse desenho. - Falei. - Você é uma artista. - Tá lindo mesmo. - Disse Lucas. - Vamos colocá-lo na geladeira junto com os outros? - Vamos. - Mel pulou de tanta empolgação. Os dois colocaram o desenho na geladeira e eu fiquei observando o momento pai e filha. Por que Lucas não podia ser assim sempre? As vezes me odiava por amá-lo tanto, porque ele era de lua, as vezes fazia o marido bom e carinhoso, e outras vezes ele era a única pessoa que eu não queria ter por perto. Tinha momentos que eu o odiava mais que tudo, que eu desejava nunca o ter conhecido, mas aí depois ele vinha com flores, pedido de desculpa, falava o quanto me amava e aí a raiva passava, e eu voltava a amá-lo, acho que eu tinha culpa dessa relação doentia, de amor e ódio, que vivíamos. Eu queria tanto que essa fase dele feliz durasse bastante tempo, pois era desse Lucas que eu gostava.
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