A Agressão Parte 2

1182 Words
Não havia conseguido dormir a noite toda, chorei e chorei sem parar. Lucas e eu dormimos cada um para um lado diferente, não queria olhar pra ele, estava com raiva, com nojo, com ódio, ódio dele e ódio de mim por gostar de um traste desses, ódio por não conseguir me separar e nem dar um ponto final nessa relação. Lucas levantou cerca de meia hora antes do seu horário, o que era estranho, já que ele não costumava levantar cedo. Continuei deitada na cama, tentando criar forças para ir trabalhar. Escutei passos entrando no quarto, pensei ser Lucas novamente, alguém deitou do meu lado, com medo de ser ele eu não me virei, e de repente eu vi aquela pequena mãozinha em meu ombro. Me virei para o lado de Mel, ela não disse nada, nós duas apenas ficamos nos olhando. Mel acariciou lentamente o meu rosto, fechei os olhos, enquanto sentia seu doce toque. - Tá doendo, né mamãe? - Doendo o quê? - Perguntei achando que ela não sabia de nada. - Por que vocês adultos acham que nós crianças não sabemos das coisas?  - E do que você sabe? - Perguntei. - Por que o papai te bate? Isso não é legal, não podemos bater nas pessoas, machuca. Será que ele não sabe disso? - Acho que não. - Falei tentando conter o choro. - Quer que eu converse com ele? - Perguntou em sua santa inocência. - Não, não quero, isso é coisa de adulto, e não quero que você se meta nisso, capiche?  - Capiche. - Falou Mel cabisbaixa. Ela me deu um selinho e me abraçou. Tentei conter o choro para que não mostrasse uma fraqueza para minha filha. Não queria que ela ficasse a par dessas coisas, não era pra idade dela. O meu despertador tocou para eu ir trabalhar. Tentei me levantar, mas estava sentindo muita dor. - Eu te ajudo, mamãe. - Falou ao pegar em minha mão. Mel me ajudou a levantar com toda paciência e cuidado do mundo. As vezes eu me perguntava ''será que eu mereço um serzinho tão especial assim?'' Tomei banho com muito cuidado, a água caia nos hematomas e ardia muito, muito, muito. Chorei de dor, mas com certeza a dor interna era muito maior. Sentei no chão, em uma parte que a água não caia, acabei soluçando de tanto chorar. Por que ele tinha que fazer essas coisas? Engraçado que nos dois meses que meu pai esteve em nossa casa, Lucas não foi homem suficiente para levantar a mão para mim na presença do meu pai, aí ele baixou a guarda dele, foram os melhores meses desde que eu me casei, queria quebrar a perna de novo, ou agora poderia ser o braço, pois nenhuma dor poderia ser maior do que a que eu estava sentindo, nem o parto da Mel doeu tanto assim. Estava com muita dificuldade até para caminhar, doía tudo, uma dor insuportável. - Sora, o que houve? - Me perguntou Marcela, uma das minhas alunas da manhã. - Eu fui arrumar uns armários lá em casa e cai da escada, machucou um pouco, mas ficarei bem. - Quer ajuda? - Me perguntou parecendo bastante preocupada. - Não, obrigada, meu amor.  - Tem certeza? - Insistiu. - Tenho sim, querida. Obrigada. Ela saiu e eu com um pouco de dificuldade fui para a sala, onde eu daria o primeiro período. Estava morrendo de vergonha dos meus alunos me verem desse jeito, mas eu não tinha escolha, tinha que ir trabalhar, eles não poderiam ficar sem aula, não seria justo e eu não faria isso, odiava faltar meu serviço. As turmas que eu tinha na parte da manhã eram bem agitadas, viviam fazendo brincadeiras fora de hora, mas naquela manhã, eles estavam tão calmos, tão prestativos, sempre me oferecendo ajuda, me senti tão acolhida, tão amada. Ser professora tem seus lados ruins, pouco salário, falta de reconhecimento, alguns pais piores que os alunos, mas também há tantos lados bons, como o carinho que recebo deles diariamente, por mais que nem todos digam com palavras o que sentem por mim, eu sei que eles gostam muito de mim e isso não tem dinheiro que pague, poder receber amor dos meus alunos era o melhor presente que eu poderia receber. À tarde, fui para a outra escola e para minha surpresa, Roberta não havia ido novamente na aula, aquilo estava muito estranho. O que será que tinha acontecido? Bom, com certeza eu daria um jeito de descobrir. - Oi Carmem, podemos conversar? - Perguntei ao entrar na diretoria. - Claro. - Me respondeu a diretora. - Mas você está bem? - Ah, machuquei um pouco a perna, mas estou legal. - Dei um falso sorriso. - E no que posso ajudar? - É que hoje é o segundo dia consecutivo que a Roberta falta. Sabe de algo? - Desculpa Kimberly, esqueci de te avisar. O padrasto dela ligou hoje mais cedo pra avisar que a Roberta está doente, mas amanhã ela deverá estar melhor e talvez retorne pra escola. - Ah, doente é? Tudo bem, bom saber. Obrigada. Sai da diretoria, mas aquilo não saia da minha cabeça, sei lá, não conseguia acreditar muito, isso estava meio estranho, mas tomara que fosse verdade. Geralmente, eu passava muita matéria no quadro e corrigia os exercícios na lousa, mas como eu estava com muita dor até para ficar em pé, resolvi fazer diferente, ditei toda a matéria para eles copiarem e pedi para que um por vez colocasse sua resposta das questões no quadro, e fui dizendo se estava certo ou não. Todos entenderam a situação e colaboraram. - A senhora vai ficar boa, né? - Me perguntou Martin após o sinal da saída tocar. - Vou sim, querido. - Respondi com um leve sorriso.  Ele me deu um beijo no rosto e saiu da sala, indo para o pátio. Ah, como eu amava receber tamanho carinho assim. Eu não queria voltar pra casa, estava com tanto medo de ver Lucas novamente, não sabia como ele estava, mas eu sabia que se não voltasse seria mil vezes pior, fora que tinha a Mel, não conseguia ficar longe da minha pitoca, eu tinha certeza de que Lucas nunca machucaria ela, ele podia ser agressivo, explosivo, podia bater em mim, mas eu sabia que ele não se atreveria a encostar um dedo nela, até porque se ele fizesse isso, eu o denunciaria na mesma hora, isso se eu não fizesse justiça com as minhas próprias mãos, pois que ele fizesse o que quisesse comigo, mas com a minha filha não, nela ninguém encosta um dedo, e se um dia ele fizesse isso, com certeza, ele teria um encontro com o capeta mais cedo do que ele podia imaginar. Enquanto eu dirigia do serviço pra casa, eu rezava para algum dia ele mudar, queria que ele parasse de me bater para que a gente pudesse ser felizes como um casal de verdade. Será que era querer demais? Será que era pedir muito? por que as coisas não podiam serem diferentes?
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