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1405 Words
Catherine Narrando Quando a porta abriu de novo, eu achei que fosse mais um segurança. Mais um tapa. Mais ameaça. Mas não era. Primeiro entrou a luz do corredor, cortando a escuridão do quarto como uma lâmina fina. Depois, a silhueta dele. Alto, postura reta, camisa impecável, relógio que valia mais do que tudo que eu já tinha possuído na vida. Atrás, Olga. Sempre ela. Sempre com aquele olhar de quem acha que está acima de todo mundo. Mas não foi Olga que prendeu o meu olhar. Foi ele. Ele me viu encolhida no canto, com o rosto inchado de chorar, e não desviou. Não teve piedade no olhar, mas também não teve nojo. Tinha… análise. Como se estivesse avaliando uma obra de arte danificada no transporte. Meu coração disparou. — Спаси меня… пожалуйста… (Me salva… por favor…) — escapou da minha boca antes que eu pudesse me controlar. Eu não esperava resposta. Ninguém ali falava russo. Ninguém ali se importava comigo. Mas ele sorriu. Não um sorriso grande, aberto. Um sorriso curto, controlado, de canto de boca. O tipo de sorriso de quem já viu de tudo e nada mais surpreende mas, por algum motivo, eu tinha conseguido provocar uma reação. Ele abriu a boca e, quando falou, minha alma congelou. Ele falou na minha língua. Perfeito. Limpo. Sem sotaque. Eu engoli em seco, o corpo todo arrepiando. Levantei um pouco, apoiando as mãos no chão, como se aquilo me desse força. — Вы… вы понимаете меня? (Você… você me entende?) — perguntei, a voz falhando. Ele voltou o olhar pra mim e assentiu, ainda calmo. — Я понимаю каждое слово. (Eu entendo cada palavra.) As lágrimas voltaram com força. Se ele falava russo, se ele me entendia… talvez ele pudesse me tirar dali. Talvez. As palavras saíram de mim em avalanche, atropeladas, desesperadas. — Пожалуйста, помогите мне уйти отсюда! (Por favor, me ajude a sair daqui!) — eu implorei, agora de joelhos. — Она говорит, что я ей должна, но она может забрать всё обратно! (Ela diz que eu devo pra ela, mas ela pode pegar tudo de volta!) Возьмёт деньги, одежду, всё, что она дала! (Que pegue o dinheiro, as roupas, tudo que ela me deu!) Я не хочу ничего, я просто хочу уйти! (Eu não quero nada, só quero ir embora!) As palavras engasgavam na garganta, misturadas com soluços. Eu botava tudo pra fora, sem filtro. — Пусть отпустит меня на улицу, просто на улицу! (Que me solte na rua, só na rua!) Я не буду заниматься этим, я не буду… (Eu não vou fazer isso, eu não vou…) — engoli seco, sentindo vergonha até de pronunciar. — Я не буду проституткой. (Eu não vou ser prostituta.) Я не буду спать с мужчинами за деньги! (Eu não vou dormir com homens por dinheiro!) A sala ficou pequena. A presença da Olga pesava atrás dele. Eu sabia que ela estava entendendo cada sílaba, e isso me deixava ainda mais desesperada. Mas eu não conseguia parar. — Умоляю, просто отпустите меня! (Eu imploro, só me deixem ir!) Ele me observou por alguns segundos que pareceram uma eternidade. Não interrompeu. Não mandou eu calar a boca. Só deixou eu despejar meu pavor ali, no chão daquela jaula cara. Depois, respondeu. Em russo. Calmo. Quase gentil. E justamente por isso, mais c***l. — Ты не будешь проституткой так, как ты está imaginando. (Você não vai ser prostituta do jeito que você está imaginando.) Eu franzi a testa, sem entender. — Что? (O quê?) Ele deu alguns passos pra dentro do quarto. Olga ficou na porta, como um animal de guarda. — Ты слишком красивая, чтобы тебя jogar на улицу, как обычный товар. (Você é bonita demais pra ser jogada na rua como mercadoria comum.) — disse, com a naturalidade de quem fala sobre investimento. — Ты — элита. Ты — роскошь. Ты — товар для самых ricos. (Você é elite. Você é luxo. Você é produto pra gente muito rica.) Senti náusea. — Я не товар. (Eu não sou produto.) — respondi, num fio de voz. Ele inclinou a cabeça, analisando cada traço do meu rosto. — Сейчас ты — долг. (Agora você é dívida.) — corrigiu. — А долг… всегда должен быть pago. (E dívida… sempre tem que ser paga.) Olga deu um meio sorriso, venenoso. Eu quis arrancar aquele sorriso da cara dela. — Она não pode sair daqui — ela disparou em português, cruzando os braços. — Tem dívida. Vai sair quando pagar, como todas as outras. Ele nem olhou pra ela. Continuou falando comigo, ainda em russo, como se o mundo lá fora não existisse. — Слушай меня внимательно, Caterine. (Me escuta com atenção, Caterine.) — a forma como ele pronunciou meu nome me arrepiou. — Отсюда никто просто так не уходит. (Daqui, ninguém simplesmente sai.) Ты уйдёшь, когда твой долг будет оплачен. (Você vai embora quando sua dívida for paga.) Или… если найдётся кто-то достаточно rico, чтобы выкупить тебя целиком. (Você vai embora quando sua dívida for paga. Ou… se aparecer alguém rico o suficiente pra te comprar inteira.) Olga respirou fundo, firme. — E isso se a gente deixar — completou, em português, com um leve deboche. Eu olhei de um para o outro, atordoada. — Какой долг? (Que dívida?) — perguntei, já sabendo que a resposta ia me destruir. Ele não hesitou. — Ты должна за всё. (Você deve por tudo.) — começou a enumerar, com a frieza de um contador. — За лекарства для твоей матери. За еду. За тёплые вещи. За паспорт. За визу. За билет. За документы. За каждую рубашку, которую ты надела после того дня.— (Você deve pelos remédios da sua mãe. Pela comida. Pelas roupas quentes. Pelo passaporte. Pelo visto. Pela passagem. Pelos documentos. Por cada peça de roupa que você vestiu desde aquele dia.) Olga aproveitou para reforçar, agora em português, como se quisesse me esmagar também na minha língua. Ele soltou um riso baixo. Não de deboche aberto, mas de quem acha ingenuidade… quase divertida. — Долг не исчезает только потому, что ты хочешь забыть о нём. (A dívida não some só porque você quer esquecer dela.) — disse, se aproximando mais um pouco. Eu recuei instintivamente, batendo as costas na parede. — Но… (Mas…) ты не будешь на витрине, как все. (Você não vai ficar na vitrine como todas.) Ты не родилась для дешёвого шоу. (Mas você não vai ficar na vitrine como todas. Você não nasceu pra show barato.) Engoli em seco, sem entender se aquilo era ameaça ou promessa. — Ты слишком… ценная. (Você é valiosa demais.) — completou. Valiosa como um diamante, como um quadro raro, como qualquer coisa que não é vista como pessoa. Olga se mexeu impaciente. — Ela precisa entender que não tem escolha, Vitto — falou em português, firme. — Quanto mais você conversa com ela assim, mais ela cria esperança. Ele finalmente olhou pra Olga. — Esperança é útil — respondeu, calmo. — Gente sem esperança quebra rápido demais. Eu não quero que ela quebre. Quero que ela renda. As palavras bateram em mim como tapas invisíveis. Eu tremia. O peito doía. O instinto gritava pra correr, mas não havia porta aberta, não havia janela, não havia rua. Só aquele quarto. Aquele homem. Aquela mulher. — Eu não vou fazer isso — falei, pela última vez, sem força, mas com a pouca dignidade que me restava. — Я не буду этим заниматься. Никогда. (Eu não vou fazer isso. Nunca.) Ele me encarou por longos segundos. Não sei o que procurava. Medo? Coragem? Resistência? Talvez tudo ao mesmo tempo. Depois, falou baixo, em russo, e foi a frase mais honesta da noite: — Ты ещё не поняла, в каком мире ты acordou. (Você ainda não entendeu em que mundo acordou.) Virou as costas. Saiu do quarto. A porta se fechou. Olga ficou mais alguns segundos me olhando, como se quisesse ter certeza de que o que restava de mim estava quebrando no ritmo certo. Depois, sorriu de canto. — Começa a rezar pra ter “sorte”, Caterine — disse, em português. — Vai ser a única forma de sair daqui. Quando ela saiu e trancou a porta, eu entendi, com a clareza mais c***l do mundo: não adiantava chorar, não adiantava gritar, não adiantava implorar. Ou alguém muito rico me comprava ou eu ia passar o resto da minha vida pagando uma dívida que não fui eu que escolhi fazer.
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