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1245 Words
Olga Narrando Assim que a foto apareceu na tela, eu soube. Não foi surpresa, foi confirmação. Aquela menina não era apenas bonita — ela era o tipo de beleza que atravessa fronteiras, que não depende de maquiagem, luz ou produção. Havia fragilidade no olhar, mas também algo mais perigoso: pureza misturada com resistência. O tipo de combinação que faz homens poderosos perderem o controle e abrirem cofres sem pestanejar. Fechei o arquivo devagar, como se o simples gesto pudesse preservar aquela raridade. Gente como Caterine não aparece duas vezes no mesmo lugar. Quando aparece, ou você age rápido, ou o mundo engole. E eu não tinha passado décadas lapidando pedras brutas para deixar um diamante escapar por hesitação. Na cabeça dela, tudo ainda era gratidão, dúvida, medo. Na minha, já era estratégia. Eu precisava trazê-la para perto, tirá-la do ambiente onde a miséria ainda falava mais alto que a ambição. Conversa séria não se faz por mensagens longas nem promessas jogadas ao vento. Conversa séria se faz olho no olho, em um lugar neutro, confortável, longe de patrões abusivos, de paredes mofadas e da respiração pesada da mãe doente lembrando o tempo todo que a urgência não espera. Eu sabia exatamente quais fios puxar. Caterine não era movida por vaidade rasa; era movida por necessidade e culpa. Ela carregava o peso de não conseguir salvar quem amava, e isso era a brecha perfeita. Não precisei exagerar nem mentir demais a verdade, quando bem escolhida, é muito mais eficaz do que qualquer fantasia absurda. Bastava mostrar que existia um caminho possível. Um que não exigia humilhação diária, nem favores baratos trocados por migalhas. Na minha mente, o roteiro se organizava sozinho. Primeiro, proximidade. Depois, segurança. Em seguida, a promessa de controle fazer com que ela acreditasse que nada aconteceria sem o consentimento dela. Mulheres como Caterine precisam sentir que estão escolhendo, mesmo quando todas as escolhas já foram cuidadosamente colocadas diante delas. Eu não podia permitir que aquela beleza fosse desperdiçada atrás de um balcão gorduroso, sendo devorada aos poucos por homens pequenos e uma vida pequena demais para ela. O mundo é c***l com quem não entende o próprio valor, e eu me encarregava de ensinar isso do meu jeito. Cada minuto que passava era um risco. Alguém podia notar, alguém podia oferecer algo diferente, alguém podia arrancá-la de mim antes mesmo de eu terminar o trabalho. Por isso, insisti com suavidade, conduzindo a ideia do encontro como algo natural, quase óbvio. Um café tranquilo. Uma conversa sem pressão. Um espaço seguro onde ela pudesse ouvir, perguntar, imaginar. Eu já tinha decidido: Caterine não ficaria na Rússia por muito tempo. Não depois daquela foto. Não depois de entrar no meu radar. Algumas mulheres são apenas passageiras. Outras são investimento. E ela? ela era destino. Não podia deixar a conversa esfriar. Mulheres como Caterine, quando começam a pensar demais, recuam. Então mantive o ritmo, guiando cada resposta com cuidado, escolhendo palavras que não soassem como pressão, mas como oportunidade. Peguei o celular de novo e digitei. — A gente precisa se encontrar pessoalmente, Caterine. Algumas coisas não dão pra explicar por mensagem. Vi que ela demorou alguns segundos para responder. Quando o “digitando” apareceu, soube que ela estava balançada. — Eu fico um pouco insegura… não sei se é uma boa ideia assim, de repente. Sorri sozinha. Insegurança é só falta de informação bem direcionada. — Eu entendo. Por isso mesmo quero conversar com você com calma, olho no olho. Sem compromisso nenhum. Só uma conversa. Esperei alguns segundos antes de enviar a próxima, deixando a curiosidade trabalhar. — Inclusive, se você quiser, a gente pode se encontrar hoje ainda. A resposta veio rápida demais para alguém que dizia estar insegura. — Hoje? Mas eu não posso sair de perto da minha mãe… Era exatamente a brecha que eu esperava. — Quem disse que você precisa sair? — respondi logo em seguida. — Eu posso ir até você. Sei que sua mãe está doente. Não quero te afastar dela. Houve uma pausa maior dessa vez. Imaginei Caterine olhando para a mãe dormindo, pesando cada palavra. — Eu não quero incomodar… — ela escreveu. — Você não incomoda em nada, — digitei com firmeza calculada. — Eu sei o que é se preocupar com alguém doente. Já estive no seu lugar. Isso não era exatamente mentira. Só não era toda a verdade. — Além disso, — continuei — daqui a alguns dias eu volto para o Brasil. E eu queria muito te levar comigo. Esperei. Silêncio. Então complementei, no tom certo entre urgência e cuidado: — Não estou dizendo que você tem que decidir nada agora. Só conversar. Mas oportunidades assim não aparecem sempre, Caterine. E eu não gostaria que você perdesse isso. O “digitando” voltou, lento, hesitante. — Levar comigo… como assim? Perfeito. — Como alguém que merece mais do que aquela vida que você leva hoje. — Como alguém que pode ganhar dinheiro de verdade, ajudar sua mãe, mudar de realidade. — Mas isso a gente conversa pessoalmente. Ela demorou quase um minuto para responder. — Você pode vir aqui então… mas só pra conversar. Sorri de verdade dessa vez. — Claro. — Só conversar. — Prometo. Bloqueei o telefone por alguns segundos, respirando fundo. A decisão dela ainda não estava tomada, mas o primeiro passo já tinha sido dado. Caterine tinha aberto a porta. Agora, bastava entrar com calma, sem pressa, sem assustar. Beleza como a dela não pode ser desperdiçada. E eu não desperdiço nada que o destino coloca nas minhas mãos. Depois que confirmei o encontro com Caterine, deixei o telefone de lado por alguns segundos. Não por dúvida — dúvida não existe quando a joia é real — mas por precisão. Antes de avançar mais um centímetro com ela, eu precisava de números. Números concretos. Números que me dessem margem para prometer sem errar a mão. Peguei o celular de novo e liguei para o único homem que realmente importava nesse jogo. Ele atendeu no terceiro toque. — Já viu a foto? — perguntei, sem rodeios. Do outro lado, silêncio por um segundo. Curto. Medido. — Vi. A resposta veio seca demais. Imediatamente entendi. Beatriz devia estar por perto. Vittorio nunca se alonga quando a esposa está ao alcance do ouvido. — Preciso de números — continuei, mantendo a voz baixa e neutra. — Vou encontrar com ela hoje. Preciso falar de valores. Preciso saber até onde posso ir. Outro silêncio breve. Ele não perguntava detalhes quando a mercadoria falava por si. — Quanto? — ele perguntou. Encostei na cadeira, olhando pela janela para a neve acumulada nas ruas de Vladivostok. — Milhões — respondi sem hesitar. — Ela vale milhões. Dessa vez, o silêncio foi um pouco maior. Eu conhecia aquele intervalo. Não era dúvida. Era cálculo. — Altos — ele disse por fim. — Muito altos. Sorri sozinha. — Eu sabia — murmurei. — Tenho certeza absoluta. — Não perca essa menina — ele acrescentou, com a voz ainda mais contida. — Não deixe escapar. — Não vou — garanti. — Hoje eu fecho a cabeça dela. Do jeito certo. — Ótimo. A ligação caiu logo em seguida. Sem despedida. Sem complemento. Vittorio Montenegro não desperdiça palavras quando o assunto é lucro. Guardei o telefone e respirei fundo. Agora eu tinha margem. Agora eu podia prometer segurança, estabilidade, futuro — tudo embrulhado no discurso mais eficaz que existe: dinheiro suficiente para acabar com o medo.
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