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1049 Words
Vittorio Montenegro O segredo de um grande império não é o que você mostra ao mundo, mas o que você consegue esconder nas frestas da legalidade. Estou sentado na varanda de um hotel em Genebra, observando as montanhas suíças enquanto degusto um conhaque que custa mais do que o salário anual de qualquer um dos meus funcionários. No papel, sou um magnata do entretenimento noturno. Sou o homem que trouxe o conceito de "luxo extremo" para a noite carioca. Cinquenta boates, casas de shows, resorts... tudo brilhando sob a luz do sol. Minha esposa, uma mulher que vive de aparências e caridade, acredita que eu sou apenas um empresário ambicioso. Meu filho, Natan, acha que é o rei do mundo porque comanda uma favela e gerencia minhas boates. Ele se orgulha de ser o "Falcão", de ter o sangue do avô bandido nas veias. Eu o deixo acreditar nisso. É bom que ele sinta o peso da coroa, porque isso o mantém focado, protege o território e garante que o dinheiro "sujo" da rua se misture ao "limpo" das minhas empresas. Mas nem Natan, com toda a sua malandragem de morro, faz ideia da profundidade do oceano onde eu navego. Eles sabem que existem mulheres nas casas. Sabem que é um negócio de prazer. O que eles não sabem — e o que ninguém jamais pode saber — é o sistema de importação que eu levei décadas para aperfeiçoar. Eu não sou apenas um dono de boate. Eu sou o maior agenciador de destinos da América Latina. O tráfico de mulheres é uma arte delicada. Não se trata de sequestro e correntes; isso é amadorismo e atrai a polícia. O segredo é o estudo. É por isso que pago a Olga. Eu financio a vida de luxo dela na Europa e na Ásia para que ela seja meu radar. Olga não é apenas uma recrutadora; ela é uma predadora de elite. Eu a envio para lugares onde a miséria tem rosto bonito. Lugares como a Rússia profunda, onde garotas perfeitas nascem em apartamentos mofados. Olga se instala, estuda a presa por semanas, descobre a ferida — se é uma mãe doente, uma dívida de jogo ou um sonho de ser estrela — e então, ela ataca. Ela oferece a brecha, o "milagre". Eu pago a passagem, o visto falso, a estadia... e quando elas pisam no Rio, a dívida é tão alta que o corpo delas se torna minha propriedade até que o último centavo seja pago. Algumas, as que têm a mente fraca, acabam gostando. Viciam no brilho, no dinheiro fácil dos clientes VIPs e decidem ficar. Essas são o meu lucro passivo. Mas o verdadeiro dinheiro, o capital que constrói mansões na Europa, vem das especiais. Quanto mais rara a beleza, quanto mais "imaculada" a história, mais caro eu cobro no leilão privado que acontece nos subsolos das minhas boates, longe dos olhos do Natan. Reis, ministros e CEOs pagam fortunas por uma exclusividade que não existe em catálogo nenhum. — Senhor Montenegro? — Meu assistente encostou na varanda, interrompendo meus pensamentos. — Olga enviou as fotos da nova candidata de Vladivostok. Abri o arquivo no tablet. No segundo em que a imagem de Caterine Volkova preencheu a tela, eu soube que tinha encontrado o meu "Santo Graal". Aquela pele de porcelana, aquele olhar de desafio... ela era um diamante bruto. — Diga à Olga para não poupar recursos — falei, sem desviar os olhos da tela. — Essa menina precisa chegar ao Brasil sem um arranhão. Ela vai ser a peça central do nosso próximo grande evento. Ouvi o clique da maçaneta e, num movimento instintivo de décadas de segredos, fechei a capa do iPad. A imagem da russa desapareceu, substituída pelo reflexo do meu rosto frio na tela escura. — Amor? — A voz suave de Beatriz preencheu o escritório. Ela entrou com aquela elegância natural, usando um robe de seda que custava uma pequena fortuna, segurando o celular com uma expressão de leve angústia. Beatriz é a personificação da pureza que eu preciso projetar para o mundo. Ela é o meu álibi vivo. — Você falou com o Natan hoje? — perguntou, aproximando-se da minha mesa. — Falei, sim. Mas foi só sobre trabalho. Por que a preocupação? — Respondi, mantendo a voz calma, o tom perfeito de um marido dedicado. — Eu estou ligando e ele não atende... fico preocupada, sabe? — Ela suspirou, sentando-se na poltrona à minha frente. — Às vezes fico pensando naquela cidade... uma operação policial, ou algum desses negócios que ele cuida... Não sei, sinto um aperto no peito. Consegue falar com ele e ver se está tudo bem? Dei uma risada curta, uma mistura de deboche e confiança, e me levantei para contornar a mesa. Coloquei as mãos sobre os ombros dela, sentindo a tensão na sua musculatura. Se ela soubesse que, enquanto ela reza pelo filho, o "Natan" dela está no alto de uma laje, decidindo quem vive e quem morre, ela não aguentaria um minuto. — Fica tranquila, Beatriz. O Natan sabe se cuidar. Ele tem a minha cabeça para os negócios e a energia da juventude — dei um beijo leve no topo da cabeça dela. — Tá tudo bem. Se tivesse acontecido alguma coisa com ele, a gente saberia. As notícias ruins correm rápido, e as minhas fontes são as primeiras a me avisar. — Você sempre tão seguro de tudo, Vittorio... — ela murmurou, parecendo relaxar um pouco sob o meu toque. — É por isso que chegamos onde chegamos, querida. Vá descansar. Eu vou tentar falar com ele de novo mais tarde, prometo. Ela sorriu, convencida pela minha máscara de proteção, e saiu do escritório. Assim que a porta se fechou, meu sorriso desapareceu. Beatriz vive num conto de fadas que eu financio com sangue e suor alheio. Ela se preocupa com "operações policiais", sabendo que o filho dela é o dono da área onde a polícia m*l se atreve a entrar sem o meu consentimento implícito. Peguei o celular e manduei uma mensagem curta para o meu chefe de segurança no Rio: "Mantenha o Natan na linha. A carga especial não pode sofrer distrações." O tabuleiro estava montado. Agora, era só esperar a Olga fazer o trabalho dela na neve.
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