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1041 Words
Falcão Narrando O telefone tocou no momento exato em que a noite começava a engolir o morro. Não foi coincidência, nunca é. A Rocinha estava viva debaixo dos meus pés, pulsando como um organismo próprio, cheio de veias, artérias e segredos. Da laje onde eu estava, dava pra ver as luzes se espalhando pelas vielas, as caixas de som sendo testadas, os bares improvisados abrindo as portas, o cheiro de churrasquinho se misturando com o da maconha e da pólvora antiga que nunca sai de verdade das paredes. O baile ainda nem tinha começado, mas o território já sabia que aquela noite ia render. O celular vibrou no meu bolso antes do toque completo. Um aviso silencioso de que aquilo não era conversa fiada. Tirei o aparelho devagar, sem pressa, sentindo aquele peso bom no peito o mesmo que sempre vem quando o jogo vira a meu favor. O número não tinha nome, só código. Sorri de canto. Atendi. — Fala. Do outro lado, a voz veio baixa, firme, profissional. Sem nervosismo, sem empolgação. Gente que trabalha direito não precisa levantar tom. — Patrão, tudo certo com as importações. Confirmando o que foi encomendado. Dez cargas fechadas, rota limpa, documentação no padrão da família Montenegro. Tudo vai chegar pelo contêiner principal, sem desvio. Encostei no parapeito da laje, apoiando o antebraço no concreto quente do dia que ainda não tinha esfriado. Olhei o morro lá embaixo com calma, deixando a informação assentar. Dez importações não eram detalhe. Era reposicionamento. Era aviso silencioso pra quem soubesse ler os sinais. — Data — pedi, simples. — Setenta e duas horas no porto. Depois disso, o transporte interno fica por conta da sua equipe. Já tá tudo alinhado com o esquema antigo. Fechei os olhos por um segundo, puxando o ar devagar. Droga suficiente pra abastecer não só a Rocinha, mas garantir presença indireta em outros pontos estratégicos. Pó de altíssima qualidade, daquele que fideliza cliente, que faz o viciado atravessar a cidade pra comprar do mesmo fornecedor. Fuzil novo, armamento pesado, peça que não falha, munição pra segurar território e expandir quando fosse necessário. Não era compra desesperada. Era planejamento. — Confere cada lacre — falei, sem elevar a voz. — Se tiver qualquer coisa fora do padrão, você me liga antes de sair do porto. — Já foi tudo revisado, patrão. Esse carregamento é nível alto. Coisa que muda a dinâmica. Abri um sorriso largo, sem fazer questão de esconder. Muda mesmo. Desliguei a chamada e fiquei parado por alguns segundos, absorvendo o momento. O som do morro continuava igual, gente andando, moto subindo, criança correndo atrás de bola, mulher gritando da janela. A favela nunca para, porque se parar, morre. Mas ninguém ali embaixo fazia ideia do que tava atravessando o oceano naquele exato instante pra cair no meu colo. Era assim que eu gostava. Poder de verdade não anuncia chegada. Ajeitei a pistola na cintura, sentindo o peso familiar contra o corpo. Não era vaidade. Era hábito. Quem manda de verdade não pode esquecer nem por um segundo que tudo ali é sustentado por força mesmo quando não precisa usá-la. O respeito nasce da certeza de que, se for preciso, a resposta vem rápida e sem hesitação. Desci da laje e comecei a andar pela viela principal, acompanhado por dois dos meus homens mais antigos. Não precisava falar nada. A presença já dizia o suficiente. As pessoas abriam caminho naturalmente, algumas por medo, outras por admiração, outras porque sabiam que, gostando ou não, a ordem ali tinha dono. Eu cresci naquele chão. Conhecia cada curva, cada escada, cada casa que tinha sido levantada com dinheiro limpo, sujo ou misturado. A Rocinha não era só território pra mim. Era identidade. Enquanto muita gente do asfalto achava que tráfico era desorganização, bagunça e impulso, eu sabia que aquilo ali funcionava como uma empresa com logística, hierarquia e visão de longo prazo. E visão era o que mais faltava pra muita gente. Entrei na base e senti o cheiro do dinheiro antes mesmo de ver os maços. Nota viva tem um cheiro próprio, uma mistura de papel, suor e ambição. Sentei na mesa grande de madeira, enquanto os moleques descarregavam sacolas cheias de cem e duzentos. O som do elástico estalando era quase terapêutico. — Movimento bom hoje — comentou um deles, empilhando os maços com cuidado. — O morro não dorme — respondi, passando o dedo pelas notas. — E enquanto tiver demanda, o caixa gira. A verdade é que eu não vendia só produto. Eu vendia constância. Cliente viciado odeia surpresa. Ele quer saber que vai subir o morro hoje, amanhã e depois, e vai encontrar a mesma coisa. Qualidade gera fidelidade. Fidelidade gera poder. Meu pai sempre deixou claro isso, mesmo sem nunca falar diretamente de tráfico comigo. Ele falava de negócios. De marca. De confiança. E eu traduzi isso pro meu mundo. Enquanto contava o dinheiro, pensei no carregamento chegando. Pensei no impacto silencioso que aquilo teria. Mais produto significa mais circulação, mais arrecadação, mais influência. Significa também que ninguém cresce sem passar por mim. E quem tenta pular etapa acaba virando exemplo. Não por crueldade, por necessidade. Levantei da mesa e caminhei até a porta, olhando a movimentação lá fora. A noite já tinha tomado conta de vez. O baile ia começar. Música alta, bebida, gente sorrindo, se esquecendo por algumas horas da dureza da vida. Eu deixava. Festa também é controle. Quando o povo tá distraído, a engrenagem trabalha melhor. Puxei o celular de novo e mandei mensagens curtas, objetivas. Cada pessoa sabia exatamente o que fazer. Segurança reforçada nos pontos de acesso, atenção redobrada nos dias seguintes, nada de ostentação antes do carregamento entrar em circulação. Quem tem pressa erra. Encostei de novo no parapeito, agora no fundo da base, e observei a favela iluminada. Ali, eu não era só o chefe. Eu era referência. Era quem resolvia problema quando o Estado virava as costas. Quem decidia quem podia ficar, quem tinha que sair, quem precisava de ajuda, quem precisava de correção. Eu não gostava da palavra “Deus”. Deus não resolve logística. O telefone vibrou de novo, mas dessa vez era só confirmação interna. Ignorei. Não precisava responder tudo. Liderança também é silêncio.
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