Falcão Narrando
O Rio de Janeiro debaixo do meu pé parece um tabuleiro de xadrez, e o rei sou eu.
Tô aqui no alto da Rocinha, no meu "escritório" uma laje que tem a melhor vista do mundo, mas não é pro mar que eu olho. Eu olho pro movimento. Pro brilho das luzes lá embaixo, no asfalto, onde os otários de terno acham que mandam em alguma coisa enquanto eu lavo o dinheiro deles nas minhas empresas.
Puxei o ar, sentindo o gosto misturado do meu charuto cubano com o cheiro do "verdinho" que um dos meus soldados tava fumando ali no canto. É o aroma da vitória, parceiro.
— Tá tudo no esquema pro baile de hoje, patrão? — O radinho na minha cintura chiou, interrompendo minha paz.
— Tá tudo no esquema mano — respondi, sem nem tirar o charuto da boca. — espero tomar meu wisky tranquilo.
Desliguei sem esperar resposta. Eles sabem. Comigo não tem duas conversas. Herdei esse morro do meu velho, pai da minha mãe, o lendário "Falcão Velho". Ele morreu na cadeia, foi triste pra c*****o pra todo mundo. Minha mãe teve um tempo que ficou muito m*l por isso. O sangue que corre aqui é de bandido, mas a mente é de empresário, é isso eu puxei do meu coroa.. Eu controlo a entrada de pó, a saída e entrada de fuzil e o silêncio de quem mora aqui. No meu império, ninguém morre sem minha assinatura e ninguém brilha mais que a minha coroa.
Soltei a fumaça pro alto, vendo o desenho que ela fazia no céu azul do Rio. Minha vida é uma adrenalina constante. Mulher? Tenho a que eu quiser. Dinheiro? Não consigo nem contar. Mas tem dia que a vida de crime fica monótona. É tudo muito fácil. Todo mundo baixa a cabeça, todo mundo diz "sim, senhor", toda mulher se abre antes de eu perguntar o nome.
Ajeitei a pistola na cintura, dei um tapa no ombro do meu fiel e comecei a descer a viela. O povo abria caminho, os moleques olhavam com admiração, as moradoras desviavam o olhar com medo e desejo.
Eu sou o Falcão. No meu morro, eu sou Deus. No asfalto, eu sou o dono do jogo. A vida é um teatro, e eu sou o melhor ator dessa p***a.
Meus pais vivem naquela bolha de cristal dos bilionários. Moram na Europa, viajam o mundo, mas o coração — e o bolso — deles tá aqui no Brasil. Pros velhos, eu sou o "herdeiro prodígio". O moleque que nasceu em berço de ouro, estudou nas melhores escolas e agora toca os negócios da família com punho de ferro.
Meu coroa é dono de mais de cinquenta boates na Barra da Tijuca. Pros jornais, ele é o magnata do entretenimento. O povo acha que as casas dele são só o point da elite, onde champanhe de cinco mil reais jorra e modelo internacional vem pra aparecer. Mas a realidade é que o velho é o rei de outro ramo: o das carnes nobres.
O bagulho é normal, né? Se tu andar cinco minutos em qualquer direção no Rio, tu acha um puteiro. Aqui dentro da Rocinha mesmo tem vários. Mas a diferença é o nível do jogo, tá ligado?
Aqui no morro, o bagulho é bruto. Cinquenta reais a rapidinha, o cara sobe, gozou, acabou. É o comércio da sobrevivência. Mas as boates do meu pai? Ali o buraco é mais embaixo. As mulheres passam por uma seleção rigorosa pra estarem lá. Só gata nível capa de revista, selecionada a dedo no mundo inteiro. O programa delas custa caro pra c*****o, coisa de barão. O cliente não paga só pelo sexo, paga pela exclusividade, pelo luxo, pela fantasia de ter uma mulher que ele nunca veria na rua.
Eu sou herdeiro dessa p***a toda. Do tráfico nessa favela que é a minha paixão, onde eu sou o Falcão e ninguém me peita e das boates de luxo na pista, onde sou o herdeiro Montenegro e o dinheiro nunca para de entrar.
Eu cuido da gerência das casas enquanto meu pai tá lá fora fazendo os corres internacionais dele. Eu só fico aqui, de terno italiano no asfalto ou de Kenner no morro, garantindo que o império continue crescendo.
Desci a viela e entrei na base, o coração do progresso. O cheiro de dinheiro vivo é diferente de qualquer perfume importado que eu tenho na prateleira da mansão. É cheiro de poder. Sentei na mesa de madeira rústica e comecei a passar o dedo nos maços de cem e de duzentos que os moleques traziam. O barulho do elástico estalando é a música que eu mais gosto de ouvir.
— O movimento hoje rendeu, hein, Falcão — um dos meus soldados comentou, descarregando mais uma sacola de notas.
— O morro não dorme, parceiro. E enquanto tiver viciado com sede, o meu lucro tá garantido — respondi, sem tirar o olho da contagem.
Tava ali, concentrado no bolo de nota, quando a porta da frente abriu e a Jéssica entrou. A loira já chegou rebolando, sabendo que tinha entrada livre. Ela é uma das putas aqui do morro que eu sempre como quando o sangue sobe e a paciência encurta. Gostosa, sabe o lugar dela e não faz pergunta difícil.
Ela encostou na mesa, passou a mão pela minha nuca e deu aquele sorriso de quem sabe o que eu quero.
— Tá ocupado, vim te fazer relaxar um pouco — ela sussurrou no meu ouvido, a mão já descendo pro meu abdômen.
Eu nem respondi com palavras. Olhei pros moleques que tavam na sala e dei um leve aceno com a cabeça. Eles entenderam o recado na hora: recolheram o que faltava e ralaram, deixando a base só pra nós dois.
Empurrei a cadeira pra trás, abri as pernas e olhei pra ela com aquela cara de quem não tá pra romance.
— Tu sabe o que tem que fazer, Jéssica. Sem enrolação — falei, a voz rouca, enquanto acendia mais um baseado.
Ela não perdeu tempo. Ajoelhou ali mesmo, no chão de cimento, e começou a abrir o zíper da minha bermuda tactel com os dentes. Quando meu p*u pulou pra fora, ela olhou pra cima com aquele olhar de adoração que toda mulher tem quando tá diante do dono do lugar.
Enfiei a mão no cabelo dela, puxando com força, e senti a boca dela quente me envolver enquanto eu dava a primeira tragada. Encostei a cabeça na cadeira, olhando pro teto descascado da boca, sentindo a adrenalina do dinheiro que eu acabei de contar misturada com o prazer que ela tava me dando.
Mulher pra mim é isso: alívio imediato. Eu uso, pago se precisar, ou só dou o privilégio de estarem comigo. No meu mundo, não tem espaço pra sentimento. É carne, dinheiro e poder.