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1411 Words
Olga Narrando Vinte e dois anos. Esse é o tempo que eu gasto olhando para o rosto de garotas e decidindo, em questão de segundos, se elas valem o esforço de uma passagem internacional ou se são apenas lixo que o tempo vai consumir. Vinte e dois anos servindo ao clã Montenegro. Eu vi o Natan nascer, vi aquela esposa dele, a Beatriz, desfilar com joias que eu sabia exatamente quantas "importações" custaram. Mas a verdade é que ninguém conhece o Vittorio como eu. A família dele vive em um teatro. O filho virou o dono do morro e o pai finge que é um empresário de gravata. Mas eu? Eu conheço o monstro que habita no porão do Vittorio. Eu conheço o homem que não pisca ao vender a alma de uma menina de dezoito anos pelo lance mais alto. E, para ser sincera, eu sou o braço direito desse monstro com muito orgulho. Trabalhar para o Montenegro exige um tipo de frieza que não se ensina em faculdade. Eu sou o radar dele. Viajo o mundo, da Tailândia à Ucrânia, da Colômbia às planícies geladas da Rússia com uma única missão: encontrar o que há de mais perfeito. E a perfeição, meu caro, é relativa no nosso negócio. — Se o rosto é de anjo, mas o cabelo é uma palha, a gente dá um jeito — murmurei para mim mesma, observando o movimento da rua através da vidraça de um café em Vladivostok. — Um mega-hair de luxo, um tratamento de choque e ela vira uma deusa em dois dias. Para tudo se dá um jeito. Se a garota é bonita de rosto, tem um corpo esguio, mas falta peito ou b***a, o Vittorio paga o melhor cirurgião do Rio de Janeiro. A gente bota um silicone aqui, uma lipo ali, esculpe a carne como se fosse argila. O que importa é o retorno. O corpo delas é o nosso investimento, e eu sou a gerente desse fundo. O Montenegro não quer apenas mulheres; ele quer troféus. Ele quer algo que o cliente olhe e sinta que precisa gastar cada centavo da conta bancária só para tocar na pele dela por uma hora. Já vi de tudo nesses anos todos. Já vi menina chegar aqui tremendo, achando que ia ser modelo da Vogue, e desabar em lágrimas quando o pé bate no solo brasileiro e o passaporte some. No início, sim, elas ficam assustadas. O choro incomoda nos primeiros dias, mas a fome e a necessidade de sobrevivência são as melhores ferramentas de adestramento que existem. Depois de um tempo, elas se acostumam. Algumas até se deslumbram. Começam a usar roupas de grife, a frequentar as melhores festas na Barra, a sentir o gosto do poder que o dinheiro traz. Tem umas que até me agradecem, acredita? Esquecem de onde vieram, esquecem o mofo das paredes da casa dos pais e se tornam parte da engrenagem. E tem as que desejam ir embora. Aquelas que contam os dias. Eu apenas sorrio e mostro a planilha. — Você só sai quando pagar a dívida, querida — eu digo, com a voz mais doce que consigo fingir. Mas o segredo que elas não sabem é que a dívida nunca acaba. Tem o custo da passagem, o custo do visto, o aluguel do quarto na boate, a comida, as roupas, as cirurgias... é um juro que consome a alma delas mais rápido do que elas conseguem faturar na cama. É um ciclo infinito. O Vittorio desenhou o sistema para que elas nunca sejam livres, a menos que aconteça um milagre. E o milagre, no nosso mundo, tem um preço altíssimo. Às vezes, um cliente VIP — um xeque, um político, um empresário com mais dinheiro do que juízo — se apaixona. Ele olha para aquela gringa na vitrine da boate e decide que a quer só para ele. Nesses casos, o Vittorio abre um sorriso de um milhão de dólares. O valor do "resgate" é astronômico. Se o cara pagar, ela vai embora. Vida nova? Talvez. Mas o Montenegro sai com os bolsos cheios e eu já estou no avião para buscar a substituta. Eu já perdi a conta de quantas vidas eu embalei e despachei para o Rio. Já conheci cada canto sujo e cada palácio de ouro deste planeta. Minha vida é feita de hotéis, aeroportos e a busca incessante pela brecha na vida de alguém. Eu procuro a vulnerabilidade. Se a menina tem uma mãe doente, eu sou o anjo com o remédio. Se ela tem uma dívida de família, eu sou o banco que não cobra fiador. Eu vendo sonhos porque sei que eles são a mercadoria mais fácil de contrabandear. Ninguém desconfia de um sonho. Agora, estou aqui, respirando esse ar gelado da Rússia de novo. O Vittorio me deu uma missão clara. Ele quer algo que supere tudo o que já fizemos. Ele quer a peça definitiva. E eu não vou decepcioná-lo. Eu conheço o paladar dele, conheço o nível de exigência. Eu sou Olga, a mulher que transforma desespero em ouro. E Vladivostok está cheia de carne nova esperando para ser lapidada. O Montenegro que se prepare, porque o que eu vou mandar para as mãos dele desta vez não é uma simples mercadoria. É o tipo de fogo que consome até o dono da casa. O frio da Rússia não me incomoda. Na verdade, ele é meu melhor aliado. O gelo endurece as pessoas, tira a esperança e deixa a pele das mulheres com aquela palidez de porcelana que os brasileiros ficam loucos para tocar. Eu sou uma rata velha nestas ruas. Vladivostok é o meu jardim particular, e eu sei exatamente onde as flores mais bonitas crescem: nos bairros medianos, naquelas ruas cinzentas onde o cheiro de mofo se mistura com o de repolho cozido. É ali, entre o prédio que precisa de reforma e a calçada rachada, que o desespero se esconde atrás de um rosto perfeito. Caminhei devagar, com meu casaco de pele legítima — um presente generoso do Dr. Montenegro — sentindo o peso do meu olhar clínico. Eu não procuro apenas beleza; procuro vulnerabilidade. Parei em uma esquina estratégica, perto de uma parada de ônibus. Em dez minutos, vi três. A primeira era uma ruiva, alta, com pernas que pareciam não ter fim. Estava com um casaco gasto, mas a postura era de rainha. Interessante. A segunda era uma morena de olhos verdes, carregando sacolas de supermercado com uma expressão de cansaço que me dizia que ela aceitaria qualquer coisa para não ter que carregar aquele peso amanhã. Mas então, eu a vi. Ela estava saindo de uma lanchonete barata, a Ogorodnik. Estava usando um uniforme m*l ajustado e um casaco que era um insulto à sua aparência. Mas o rosto... o rosto era um acontecimento. Uma loira com traços finos, olhos que pareciam dois pedaços de gelo e uma boca que nasceu para ser beijada por homens que assinam cheques de milhões. Ela andava rápido, com a cabeça baixa, mas a luz do poste refletiu no seu cabelo e eu senti o cheiro do lucro. — Bozhe moy... — sussurrei para mim mesma. — O Dr. Montenegro vai ter um enfarto quando vir essa. Ela é a joia. O tipo de diamante que só se encontra quando a vida bate forte demais. Eu podia ver no jeito que ela apertava a bolsa contra o corpo: ela tinha alguém por quem lutar. E pessoas que lutam por alguém são as mais fáceis de prender na minha rede. Segui a garota de longe, mantendo a distância, observando o prédio onde ela entrou. Um cortiço imundo. Perfeito. O contraste entre o lugar onde ela dorme e o lugar para onde eu vou levá-la vai ser o meu maior argumento. Vittorio quer luxo? Eu vou dar a ele algo que vai fazer as boates dele parecerem lanchonetes de esquina. Amanhã eu faço a abordagem. Vou vender o sonho: Rio de Janeiro, passarelas, flashes, vestidos de seda e uma conta bancária que nunca fica vazia. Vou prometer que ela poderá salvar quem quer que esteja morrendo naquele apartamento. Eu entrego o sonho. O Falcão entrega o pesadelo. E no final, o Dr. Montenegro recolhe o ouro. É a engrenagem perfeita. Ajeitei minhas luvas e dei um sorriso de lado. O gelo da Rússia estava prestes a derreter sob o sol do Rio, e eu seria a responsável por cada gota desse suor.
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