Passo por entre as pessoas dançando para ir até ao banheiro retocar a minha maquiagem.
O banheiro está cheio, mas dou um jeito. Fico na frente do espelho e passo o lip de gloss nos lábios e endireito o meu vestido, puxo ele mais para cima. Dou também um jeito no meu cabelo porque dancei bastante e ficou um pouco desarrumado.
Saio do banheiro depois de terminar e procuro por Daise, minha melhor amiga. Não vejo ela em lugar algum e é melhor não procurar porque esse lugar está lotado.
Vou até ao barman pedir uma vodka com limão. Tenho a certeza que ela deve estar em algum lugar com algum cara. Ela nunca perde uma oportunidade. Eu tinha que ser assim também, mas eu não consigo.
— Uma tônica, por favor! — Oiço uma voz grave ao meu lado.
Levanto o rosto e vejo um homem alto vestindo tudo preto e justo, marcando seus músculos, cabelos desarrumados e olhos castanhos escuros. Sinceramente, ele é interessante!
— Porquê uma tônica? — Pergunto, fazendo ele me encarar e abrir um sorriso.
— Não bebo álcool.
— Devia experimentar! — Digo e recebo a minha vodka.
O barman entrega uma Schweppes para ele, e ele abre como se estivesse numa publicidade, depois bebe de um jeito... sexy.
— Não! — Ele olha para mim, e eu olho para os seus lábios molhados. — Eu estou bem desse jeito.
— Então nunca bebeu?
— Já! Mas eu não sou uma pessoa normal, se eu fosse teria gostado daquele sabor h******l. — Ele se aproxima de mim. — E sabe o que mais eu odeio? A sensação quente no peito.
— Eu gosto! — Bebo a minha bebida.
— Gostos não se discutem, não é? — Ele olha para as pessoas que estão dançando.
Nessa noite, eu quero ser uma outra pessoa e esquecer dos meus problemas. Vou vestir uma máscara.
Bebo toda a minha bebida e olho para o olhos castanhos. E como se o destino estivesse ao meu favor, toca a minha música favorita: Escape do Enrique Iglesias.
— Meu Deus! Eu amo essa música. — Fico na frente dele.
— Você quer dançar? — Ele sorri. Já disse que o sorriso dele é encantador?
— Claro que eu quero!
Puxo a sua mão e levo ele para o meio da multidão. Começamos a dançar juntos e eu ponho as mãos ao redor do seu pescoço. Esperava que ele pusesse as suas na minha cintura, mas ele não faz isso. Põe as mãos nas minhas costas.
— Cavalheiro? — Sorrio.
— Um pouco.
— Posso te contar um segredo? — Sussurro no ouvido dele.
— Pode!
— Eu adoro os santinhos! — Digo. — Santinhos que são muito bons na cama.
— E quer que eu conte um segredo? — Ele sussurra no meu ouvido também.
— Estou ouvindo!
— Há muito tempo que eu não sou mais um santinho!
Que sexy!
— Então, senhor não santinho, o que quer fazer comigo? — Pergunto rindo.
— O que você quer que eu faça? — Ele olha para mim.
Não digo mais nada. Fico nas pontas dos pés e beijo ele. E o seu beijo é melhor do que eu esperava. Suas mãos puxam o meu cabelo levemente e ele me inclina para baixo.
Uau!
As aparências enganam!
Me afasto e passo a mão no seu peito. — Onde está o seu carro?
— Eu não faço s**o no meu carro, pode esquecer. — Ele sorri.
— Eu também não faço no meu. — Seguro a sua mão e levo ele para subir os degraus.
— Você acha que é certo t*****r com alguém que você não conhece? — Ele pergunta.
— Não quero saber. Você está fazendo o mesmo.
— Se você soubesse! — Ele diz quando terminamos de subir.
Viro para ele. — O que disse?
— Não disse nada! — Ele responde.
Abro uma porta que eu não sei onde é e puxo o bonitão para dentro. Está um pouco escuro, mas consigo ver uma mesa e muitas caixas. Isso deve servir.
Empurro ele contra a parede, mas ele muda de posição me colocando contra a parede.
— Você tem a certeza? — Pergunta. — Não quero que fique com vergonha de olhar para mim depois disso.
— E porquê eu teria vergonha? — Rio, tirando a sua camisa.
— Por nada! — Ele volta a me beijar, depois me põe sentada por cima da mesa.
Eu não sei o que estou fazendo. Esse noite só quero ser uma pessoa diferente. Eu fui treinada para ser várias pessoas. Eu consigo fazer isso.
Quando a realidade me esmaga, eu levanto da mesa e visto o meu vestido rapidamente. O olhos castanhos já vestido fica olhando para mim com os braços cruzados. Ele está na porta impedindo a entrada de alguém.
— Não vamos tornar as coisas estranhas. — Ele diz.
— Não há nada de estranho. — Digo. Espero não voltar a ver ele nunca mais na minha vida.
— Eu ainda não disse o meu nome...
— Não quero saber do seu nome. Sem nomes, por favor! — Faço um r**o de cavalo no meu cabelo.
— Presumo que não quer mais me ver. E eu que queria o seu número!
— Você já teve o que queria. — Digo.
— Não sou esse tipo de homem! — Ele diz.
— Sério? Não parece que seja do outro tipo! — Calço meus saltos altos.
— Você não me conhece!
— Eu sei.
— Podia ser um pouco mais simpática comigo. Eu pensava que você fosse um pouco diferente.
— Do que você está falando? — Ele está me deixando confusa.
Ele se aproxima e coloca um fio de cabelo solto atrás da minha orelha, depois beija a minha testa.
— Meu nome é Shane. Mesmo que não queira saber agora, vai querer saber depois.
Ele diz e sai pela porta, me deixando ainda mais confusa. É o que dá querer t*****r com a primeira pessoa que aparece pela frente. Tenho cada tipo de problemas!
Eu saio também e desço, mas não vejo ele. Só vejo quem mais importa. Daise está andando que nem uma barata tonta, provavelmente procurando por mim.
— Daise! — Chamo.
— Onde você estava?
— Adivinha! — Procuro pelo meu parceiro do crime.
— Não consigo.
— Com um cara, Daise! É melhor a gente ir embora antes que eu me encontre com ele de novo. — Puxo o seu braço.
— Espera! Desde quando você é assim, amiga?
— Desde que eu estou reconstruindo a minha vida.
— E ele é bonito?
— Ele é. E tem olhos castanhos. — Rio.
— Não! Eu queria ter visto ele. — Ela faz beicinho. — Vamos embora?
— Vamos!
Quero ir para casa e voltar ao meu estado normal. Não quero mais fazer isso. Não devia fazer isso com o Travis.
Hoje fazem cinco anos depois que Marco se foi. É uma data muito triste para mim e gosto de caminhar sozinha nesse dia. Mas esse ano é diferente. Eu quero fazer tudo diferente e começar de novo, pois é isso que ele ia querer que eu fizesse: Ter uma nova vida.
Minha mãe mora longe de mim, Jacob possivelmente anda me procurando por todos os cantos e Vladimir está preso há três meses. Espero que não tenha dito nada ao Jacob, mas duvido muito. Quando ele se ferra, entrega todo mundo.
Estou tentando ajustar a minha vida, mas isso não significa que eu vá desistir da minha vingança contra Jacob. Pelo contrário, estou apenas pensando em como fazer isso.
Meu pai morreu quando eu tinha sete anos. Jacob ficou comigo, obrigando a minha mãe a me entregar para ele. Ele cuidou de mim, me treinou e aos dezesseis me transformou numa pantera vermelha. Para cumprir o ritual, eu tinha que m***r alguém. Mas eu fingi m***r alguém. Não queria ser como ele.
Nos primeiros meses, eu conheci Marco Hilbert. Ele era da organização inimiga, mas eu não consegui resistir. Nós nos apaixonamos e decidimos fugir. Só que Jacob nos encontrou e matou ele.
Não quero mais uma vida assim. Eu quero ser livre e não ter que machucar ninguém. Quero poder dormir com a consciência tranquila todas as noites. Eu quero liberdade.
Saio do dormitório vestindo preto em homenagem ao Marco. Esse é o meu penúltimo ano aqui, e ainda não sei o que eu vou fazer. Não quero ser descoberta. Eu apenas quero ser uma pessoa normal.
Saio da sala de aula e fico esperando minha melhor amiga Daise. Ela está fazendo ciências políticas e digamos que ela é uma pessoa muito intensa, é feminista e sabe lutar.
Enquanto ela não sai da sala de aulas, fico observando Liam Lambert com uma morena magra. Eles riem e se abraçam, me fazendo lembrar do Marco.
— Está de olho no seu irmão? — Oiço Daise do meu lado e olho para ela.
Daise é possívelmente a mulher mais linda que eu conheço. Ela tem ascendência árabe e africana, cabelos negros, lábios carnudos e lindos olhos verdes. Ela é linda e gosta que todos saibam disso.
— Ele não é meu irmão! — Caminhámos pelo corredor.
Conheço Daise porque ela era melhor amiga do Marco. Antes não gostava muito dela, mas com o tempo se tornou na minha melhor amiga. Temos um apartamento juntas e ela sabe de todos os meus segredos. Inclusive, foi ela que me ajudou a fugir de Jacob.
— Segundo o louco do Jacob, ele é. — Saímos dos corredores e andamos pelo Campus.
— Não fala o nome dele, por favor! — Peço.
Ela pára na minha frente e olha para mim com preocupação. — Você está bem?
Desvio o olhar. — Eu estou, mas ainda é difícil.
Ela me abraça. — Ele queria que você fosse forte. É o que está fazendo.
— Você acha que sou forte?
— Você é!
— E o que o Travis acha?
— Ele tem a certeza que você é a mulher mais forte do mundo, Rachel.
— Será?
— Sim.
Sentamos num banco. Procuro o meu celular para saber alguma coisa do Travis, mas é melhor não. Não aqui. Posso fazer quando eu voltar para casa.
Daise olha para mim como se eu estivesse sofrendo. Estou, mas não tanto assim. Tenho saudades do Marco, mas o que eu posso fazer. Nada pode trazer ele de volta. E para piorar, também tenho saudades do Travis.
— Já passaram cinco anos, Daise. Estou me acostumando com isso. Não olha para mim como se estivesse com pena. — Digo.
— Desculpa. Mas eu também amava ele. Ele era como um irmão para mim. E hoje é o dia... — Ela segura as lágrimas. — É melhor mudarmos de assunto, por favor!
— É melhor! — Digo. É melhor não pensar que desde que eu e Daise fugimos, nunca levamos flores para ele. Não o fizemos porque tínhamos que fugir do Jacob e dos lobos negros. Eles, provavelmente, nos matariam.
— Vida nova, namorado novo! Você não acha que é uma boa ideia?
— Quem? Eu ou você? — Olho para ela. — Não estou pronta para isso, Daise. Um relacionamento sério implica eu contar os meus segredos. Esquece isso!
— Ou será que não está dizendo isso pelo Travis? — Ela olha para suas mãos.
— Claro que não! Não tem nada a ver com o Travis. E para de falar dele.
— Desculpa!
— Não faz m*l. E o seu ex? Continua ligando para você? — Pergunto.
— Continua! Você já sabe como os homens são. Alguns são como piolhos. — Ela ri.
Consigo rir um pouco ao lembrar do ex-namorado dela. Ninguém merece aquele homem.
— Uau! Primeiro riso seu hoje! — Ela me empurra devagar.
— Pára! Você sabe que hoje é um dia triste. — Paro de rir.
— Sabe que eu sou louca por olhos castanhos? — Daise olha para mim.
— Claro que eu sei. Não me faça lembrar do que eu fiz ontem. — Cubro o rosto.
— Claro que não! É que um cara de olhos castanhos está olhando para você e não para mim. — Ela diz.
— Ele está perdendo o seu tempo. — Olho para a minha bolsa.
Daise olha para a minha esquerda e depois sorri.
— Ele continua olhando para você! — Ela diz. — Mas não olha agora! Seja discreta!
— O quê? — Não faço o que ela diz e olho imediatamente. Não que eu não seja boa a ser subtil, mas não me importo. Tive muito treino com os panteras vermelhas e tenho saudades da minha inocência.
Vejo o olhos castanhos. Exatamente! O mesmo com quem eu transei ontem e não queria voltar a ver. Só que ele está usando óculos de grau.
Ele tem cara de inteligente, mas não veste como os nerds e nem aparenta ser um. Eu sei muito bem que ele não é esse tipo de homem.
Ele veste uma camiseta preta justa que puxou até aos cotovelos e uma calça jeans justa com ténis da Nike brancos. Ele está sério enquanto olha para mim e nem tenta desviar o olhar.
— O que foi? — Daise pergunta.
— Esse é o meu cara de olhos castanhos. — Respondo.
Com tantos problemas, tinha que me aparecer mais um. Só não sei se ele é um problema ou uma distração. Agora eu entendo porquê ele agia como se me conhecesse. Ele realmente me conhece.