por Rosalia Moore
Houve um tempo em que tudo era mais simples ou talvez eu só era jovem demais para perceber as rachaduras.
O frio do campus se infiltrava nos ossos como uma lembrança que se recusa a ir embora. E, mesmo assim, havia algo reconfortante nisso — como se o inverno nos forçasse a buscar calor nos pequenos gestos. Como pegar na mão de alguém sem precisar de permissão. Como encostar a cabeça no ombro dele durante uma noite de estudo, só porque parecia certo.
Agora, amarrada a essa cadeira áspera numa casa que fede a mofo e memórias quebradas, me agarro a essas lembranças como quem segura a borda da realidade. E, entre todas, a mais luminosa, mais viva, mais a minha é ele.
Thomas Parker.
Flashback – Universidade, cinco anos atrás.
Naqueles dias na universidade, Thomas era conhecido como o prodígio silencioso da Administração. Uma lenda de carne, osso e pastas organizadas. Discreto, meticuloso, sempre com as mangas dobradas milimetricamente, como se até os seus gestos obedecessem a uma planilha invisível. Caminhava com os olhos atentos, como quem enxerga o mundo por gráficos.
E eu? Bom eu era caos em forma de gente.
Cabelos cor-de-rosa, mochila coberta de patches florais, tênis de diferentes cores, além dos coturnos gastos pelo tempo e uma alma feita de sonetos, leituras e cafés bem apreciados. Fiz cursos de Design Gráfico com especialização em criação de livros, mas escolhi mesmo estudava Letras na universidade e trabalhava numa cafeteria com cheiro de esperança queimada.
O nosso primeiro encontro foi tudo, menos romântico.
Na biblioteca, ele vinha tão absorto no que fazia que nos colidimos de frente. Os meus livros voaram como pássaros em fuga. A minha indignação voou junto.
—Você devia olhar por onde anda, senhor... robô. — disse, meio séria, meio rindo.
Ele piscou, surpreso. Agachou-se para me ajudar e, para meu espanto, começou a organizar os livros por gênero.
—Desculpe, eu estava distraído. O meu nome é Thomas.
—Rosalia. Mas pode chamar-me de Rosa ou Pink, como todo mundo.
—Pink? — ele arqueou uma sobrancelha com uma curiosidade genuína, quase infantil.
Foi quando ele pegou o livro “Cartas a um Jovem Poeta” e comentou:
—Gosta de Rilke?
—Gosto de quem sente.
Ele ficou em silêncio, como se digerisse a frase. Depois, estendeu a mão e eu aceitei.
Aquele toque foi breve. Mas alguma coisa ali se alinhou — como quando dois versos se completam sem rima.
Meses depois...
O nosso relacionamento foi a crescer em silêncio, como hera subindo pelas paredes em forma de rotina.
Não foi um desses amores de cinema com juras sob a chuva ou beijos roubados ao som de jazz. Foi mais real. Mais sutil. Mais o nosso.
Teve chá de camomila na semana de provas.
Teve bilhetes escondidos nos meus livros, com frases como “Você é o intervalo poético entre os meus relatórios”.
Teve tardes em silêncio, sentados no gramado da universidade. Ele mergulhado em planilhas, eu em Virginia Woolf.
As nossas pernas se tocavam, e isso bastava para sabermos que estávamos juntos.
O primeiro “eu te amo” não foi ensaiado.
Foi um sussurro numa noite de chuva, com cheiro de madeira molhada e coração acelerado. Eu disse, sem querer:
—Eu gosto tanto de você que até assusta.
Ele sorriu, tímido:
—Então é amor. Porque eu também sinto isso, e assusta mesmo.
Nós beijamos com a pressa de quem não queria perder aquele momento. E, ao mesmo tempo, com a calma de quem sabia que outros viriam.
Mas nem tudo era fácil...
Dentro do campus, éramos os opostos que se tocavam.
Ele, silêncio e simetria.
Eu, cores e caos.
Nos chamavam “casal improvável”, e talvez fôssemos mesmo.
Algumas meninas do curso dele — todas com nomes compostos e dentes perfeitamente alinhados — cochichavam quando eu passava.
Lembro da Bianca. Com o seu perfume de rosas que ela gosta de exaltar ser de marca cara, além do desdém m*l disfarçado. Uma vez, ouvi-a dizer para uma colega:
—A Rosalia deve ser uma experiência social do Thomas.
Doeu, mas sorri.
Porque sabia que ele me via. Olhava-me de verdade.
Gael também estava lá, sempre à margem. Sempre olhando. Eu não percebia. Não queria perceber.
As primeiras rachaduras—Rosa — ele disse, certo dia, enquanto eu passava batom pink diante do espelho. —Será que talvez você poderia usar algo mais discreto hoje? É o jantar da reitoria.
Virei devagar, sem perder o humor:
—Discreto? Amor, essa saia é mais formal que uma ata do Senado.
—É só que eles podem falar de você com desdém.
—Eles vão falar, Thomas. Porque eu respiro “diferente”. A questão é: isso te incomoda?
O silêncio dele cortou mais do que qualquer palavra.
—Me incomoda quando te machucam. Só isso. — respondeu por fim.
Aproximei-me, segurei o seu rosto entre as mãos e falei baixinho:
—Eu sou fogo, Thomas, mas você é o chão onde eu não queimo. Ama-me com as minhas cores?
—Amo.
—Até quando eu toco Taylor Swift indie às sete da manhã?
Ele riu e puxou-me para um beijo. Rimos juntos.
Amar, descobri, é tropeçar no contraste — e ainda assim dançar juntos.
Presente
Na cadeira onde estou presa, as minhas mãos ainda lutam contra as cordas. O cheiro de mofo e tinta velha invade o meu nariz. Gael anda pela sala como se estivéssemos num jantar à luz de velas, não num sequestro.
—Precisava disso tudo, Gael? — a minha voz treme, mas não me permito quebrar.
—Assim eu... tenho você só para mim — ele diz com aquele olhar entre o delírio e a devoção.
—Você está doente. Eu quero voltar para o meu noivo.
E só de pensar em Thomas, algo em mim acende.
O jeito como ele me olhava, como se eu fosse a página mais intrigante de um livro raro. A maneira como ele sabia acalmar-me sem dizer uma palavra. Como o meu caos encontrou abrigo no silêncio dele.
Sei que ele está procurando-me. Thomas sempre cumpre as suas promessas — mesmo as sussurradas entre xícaras de chá e livros emprestados.
O nome dele pulsa dentro de mim como uma oração: Thomas.
—Você não é uma mulher você é uma musa. — diz Gael, acariciando o cabelo de uma boneca rosa.
A imagem é grotesca, quase insuportável.
Ele sai e eu recomeço a luta contra as cordas, o peito em chamas.
Porque eu preciso voltar.
Para ele.
Para nós.