Gisella decidiu dar uma chance a Kadir e conversar seriamente com ele. Ela tinha muitas perguntas e esperava que ele tivesse as respostas para ao menos algumas de suas questões. Comunicou sua decisão a Valda e ela a transmitiu a Kadir.
Kadir marcou um encontro com Gisella, e ela, mesmo sem vontade de ir a lugar algum, concordou que seria melhor se os dois conversassem sem a intromissão da família.
Ela vestiu uma blusa branca de mangas longas e uma saia vermelha que cobria os joelhos. Prendeu os cabelos em um r**o de cavalo e calçou um par de sapatilhas pretas. Encontrou Kadir no jardim e após ambos se cumprimentarem sem graça, ele a levou até o lago onde uma surpresa esperava por ela. Ele havia preparado um jantar à luz de velas em um barco decorado com muitas flores. Gisella não pode negar a si mesma que ele se esforçara e que, no fundo, achara fofo da parte dele. Durante o jantar, ele se mostrou radiante como ela nunca o vira. Nem parecia mais doente. Aliás, sobre a doença dele, era estranho como nem sempre ele era afetado por ela, isso intrigou Gisella.
— Você se curou?
— Não. A minha… Doença… Não tem cura. Pelo menos, eu acredito que não. — Disse Kadir.
— E que doença é essa? — Perguntou Gisella.
— Podemos, por favor, falar sobre outra coisa? — Pediu Kadir, e quando o silêncio quase se instalou ali, ele decidiu falar. — Gostou da surpresa?
— Gostei. — Ela respondeu sem encará-lo.
— Você sempre gostou de barcos. — Ele disse. — Queria te levar ao mar, mas… Bem… Não sabia se iria tão longe comigo. Por isso, escolhi o lago.
— Sim… — Gisella o encarou. — E a minha irmã?
Kadir não respondeu, mas permaneceu encarando Gisella.
— Não sente mais nada por ela?
— Pensei que essa noite falaríamos apenas de nós dois. — Ele disse.
— Tem razão. Por que eu odiava você? — Gisella inquiriu.
— Eu não sei. — Kadir deu de ombros. — Acho que você odiava todos que a amavam porque você considerava o amor uma fraqueza ou, talvez, achasse que… As pessoas continuariam te amando enquanto você não as amasse.
— Sei… Você não teria feito algo que… Não sei… Despertasse esse sentimento? — Gisella perguntou.
— Está perguntando se eu já fiz m*l a você? — Kadir disse. — Não. Eu seria incapaz de machucá-la.
— Talvez, te magoe com o que vou dizer, mas… Não acredito mais em amor. Não depois da experiência que tive com o Theodred. — Falou Gisella. — Ele dizia que me amava e eu acreditava. Como não acreditaria se ele segurava as minhas mãos e olhava nos meus olhos? No final, ele só queria a minha energia vital. E você, o que quer de mim?
— O seu amor. — Kadir tocou a mão dela, mas ela afastou sua mão.
Gisella se virou e viu algo brilhante na água. Curiosa se levantou e se aproximou da borda do barco. Kadir foi atrás dela e a segurou.
— Cuidado? É uma Ondina! — Kadir disse.
Gisella virou o rosto e o encarou por um tempo até se dar conta que estavam próximos demais e recuar, voltando a sua atenção a ondina que agora a encarava de perto, sorrindo. Ela era linda e não parecia ameaçadora. Kadir percebeu que Gisella estava encantada pela ondina e que se não a segurasse, ela se atiraria nas águas se a ondina lhe pedisse isso.
— Você canta como as sereias? — Gisella perguntou, e de repente, achou que a ondina parecia a modelo Adriana Lima, uma de suas preferidas. Isso só aumentou o encanto dela.
— Acho que o lago foi uma péssima ideia. — Disse Kadir.
— Quer que eu cante para você? — A ondina perguntou e sua voz parecia com a da dubladora da elfa Arwen de o Senhor Dos Anéis.
Kadir sabia que se a ondina cantasse, seria impossível impedir que Gisella pulasse daquele barco, por isso, a única forma que encontrou de quebrar o encanto foi beijando Gisella. Ela correspondeu no primeiro momento, mas depois recuou, confusa, como se tivesse acabado de despertar de um sonho.
— Tudo bem?
— O que aconteceu? — Ela olhou ao seu redor sem saber onde estava e viu tudo girando.
— Está tudo bem. Agora, tente se acalmar? — Kadir disse se aproximando com as mãos levantadas.
Gisella perdeu o equilíbrio e caiu, batendo a cabeça e perdendo a consciência a seguir.
Na manhã seguinte, ela teve dificuldade em se lembrar o que acontecera. Levou a tarde toda juntando os flashes que surgiam em sua mente até ter certeza de como fora o seu encontro com Kadir. Eles não se viram a tarde toda e Gisella não desceu para jantar com todos porque estava indisposta. Decidiu dormir um pouco e, embora, se sentisse exausta, custou a pegar no sono porque sentia que alguém – que ela tinha certeza que não era Júlia – se movia de um lado a outro enquanto sussurrava seu nome e falava frases em um idioma que ela não conhecia. Era uma voz feminina que ora soava sensual e ora soava ameaçadora. Gisella se lembrou da Leanan Sidhe que quase a matara certa vez e temendo ser vítima novamente de uma fada desse tipo, se esforçou para se levantar, mas não conseguiu se mover. Tentou mais uma vez e nada. Estava paralisada. Ouviu um som que lhe lembrou o bater de asas e então sentiu um peso em suas costas como se alguém subisse em cima dela.
— Gisella? — Um sussurro próximo ao seu ouvido confirmou que não estava imaginando coisas, que havia mesmo alguém em cima dela. Uma mulher.
— Quem é você? O que quer? — Gisella perguntou e ouviu um riso de escárnio como resposta. Se irritou por se vir impotente e desconhecer a identidade de sua perseguidora. — Desgraçada! Mostre sua cara? Vamos? O que está esperando? Me solte se não está com medo de mim!
Imediatamente Gisella retomou o controle de seu corpo e se levantou, sobressaltada. Parada em frente à porta do quarto, agachada, mas levitando no ar, estava a djinn que ela pensava estar morta, Dilek. Seus olhos azuis brilhavam e era surreal a forma como eles se destacavam, semelhantes a dois faróis azuis.
— Olá, Gisella? Surpresa em me ver? — Dilek disse sorrindo, maliciosa.
Gisella se lembrou de quando Ava lhe disse que Dilek estava morta. Pelo pouco que Gisella sabia sobre djins, quando morriam, suas almas simplesmente desapareciam. Não reencarnavam nem voltavam como fantasmas para assombrar os vivos. Então, como aquilo era possível?
— Ava e você me deixaram para morrer! — Dilek disse com ódio.
— Não. Eu não… Ela disse que você estava morta. — Gisella disse.
— E agora é ela quem está morta. Você é a próxima! — Dilek disse e saltou, tocando os pés no chão.
— Tem que acreditar em mim, Dilek? Eu não sabia que você estava viva! Eu juro! — Falou Gisella.
— Mentirosa! — Disse Dilek cerrando os punhos com força.
Gisella sentiu algo deslizando embaixo de seus lençóis e puxou o edredom e o lençol se deparando com várias serpentes que se aproximavam dela. Gritou, assustada.
Júlia e Valda vieram correndo ver o que estava acontecendo e encontraram Gisella em pé em cima da cama, gritando enquanto encarava o edredom. Valda veio e agarrou o edredom, sacudindo-o. Não viu nada de anormal. Gisella saltou da cama e apontou para a mesma, chorando enquanto repetia que tinha serpentes ali. Júlia e Valda tentaram acalmá-la, dizendo que não havia nada ali. Mas Gisella só se acalmou quando deixou o quarto.
Júlia e ela se sentaram no jardim, enroladas em cobertores e tomando chá, elas ficaram em silêncio por um tempo, absortas em seus pensamentos. Júlia não perguntou nada a Gisella sobre as supostas serpentes que ela vira no quarto porque já esperava que algo semelhante acontecesse. Maria sofrera com alucinações durante boa parte de sua vida, também não fora a toa. Ao contrário do que todos acreditavam, Maria não nascera insana, mas se tornara quando sua vida, aos poucos se transformara em um pesadelo. Júlia sabia coisas que Suoni e Vitória ignoravam e, pior, compartilhava a dor de Maria porque sentira na pele o mesmo que ela.
Não era Suoni a irmã que guardava seus segredos, também não era Vitória a irmã que a consolava depois que o bicho-papão se afastava… Sempre fora Júlia, mesmo que Suoni e Vitória se sentissem especiais para Maria. A verdade era que elas nem conheciam suas irmãs, achavam que sim, mas não conheciam. Para elas, Gisella era só uma ninfomaníaca mimada e narcisista, e Júlia… A coitadinha que não entendia nada o que se passava ao seu redor. Mas não era nada disso. Júlia entendia mais do que todos pensavam e só ela conhecia Maria.
Júlia encostou a cabeça no ombro de Gisella e cantou. Gisella fechou os olhos e apertou a mão de sua irmã, sentindo-se segura ao seu lado.