Tudo Começou no Santo Amaro/3

1274 Words
Lívia Narrando Quatro Anos antes... Passei a noite com ele. E, pela primeira vez, eu não quis ir embora. Antes de qualquer coisa, mandei mensagem pra minha mãe. — Vou dormir fora hoje, tá? Fica tranquila. Ela respondeu depois de um tempo. — Se cuida. E eu me cuidei, do meu jeito. Porque ali, deitada com ele, parecia que tudo fazia sentido. Tudo o que uma mulher desejava em um homem, o Juca tinha. Lindo, Cheiroso. Atencioso. Educado. E não dava pra ignorar, ele parecia ter dinheiro também. As roupas, o relógio, o jeito que ele se portava, nada ali era simples. Mas não era só isso. Era o jeito que ele me tratava. Como se eu fosse importante. Sempre me elogiando, isso me deixava fraquinha. Acordei no dia seguinte com o corpo leve e a mente ainda meio perdida na noite anterior. Estiquei a mão na cama, e ele não tava lá. Franzi a testa, me levantando devagar. Foi aí que senti. O cheiro. Café fresco. Sorri de leve, passando a mão pelo cabelo bagunçado. Eu tava só de calcinha, com a camiseta dele caindo larga no meu corpo. Fui até o banheiro, fiz o básico, e segui o cheiro até a cozinha. Quando cheguei lá, ele tava de costas, mexendo em alguma coisa no fogão. — Bom dia. — falei, com a voz ainda rouca de sono. Ele virou na hora. E sorriu. — Bom dia, dorminhoca. O olhar dele passou por mim sem disfarçar, e eu senti o calor subir no rosto. — Café? — ele perguntou. — Quero. Sentei na cadeira, apoiando o queixo na mão enquanto observava ele se mover pela cozinha. Tinha algo ali, uma normalidade estranha pra alguém como ele. Ele colocou uma caneca na minha frente. — Fiz do jeito que eu gosto, se tiver ruïm, tu reclama. — Metido — falei, dando um gole. E não tava ruïm. Ficamos ali por alguns minutos, em silêncio confortável. Eu tomando café, ele me olhando de vez em quando. Até eu quebrar. — Eu vou ter que ir já já. Ele encostou na pia, cruzando os braços. — Vai mesmo? — Tenho que ir pra casa, minha mãe já deve tá desconfiando. Ele ficou em silêncio por um segundo. Pensativo. E então falou: — Fica comigo. Franzi a testa. — Como assim? Ele deu um passo na minha direção. — Fica comigo de verdade. Meu coração acelerou. — Tu tá falando o quê exatamente? Ele parou na minha frente, olhando direto nos meus olhos. — Quero que tu seja minha fiel. Minha mulher. Prendi a respiração, aquilo bateu forte. Direto. Intenso, de um jeito perigoso. Mas ao mesmo tempo. Era exatamente o tipo de coisa que mexia comigo. — Tu tá falando sério? — perguntei, quase num sussurro. — Tô. O silêncio que veio depois foi pesado, mas não ruïm. Eu podia dizer não. Podia sair dali, voltar pra minha vida e fingir que nada daquilo aconteceu. Mas eu não queria. Queria ele. Queria aquilo. — Eu aceito. O sorriso dele foi imediato. Ele segurou meu rosto com as duas mãos e me beijou, firme, como se estivesse marcando aquele momento. — Agora tu é minha. Aquilo arrepiou até a alma. E, naquele instante, eu achei o máximo. Me senti escolhida. Desejada. Importante. Quando ele me puxou de novo, encostando meu corpo no dele ali mesmo na cozinha, eu não resisti. Me deixei levar. Pelo calor do toque, pelo jeito firme das mãos dele, pelo olhar que parecia me prender sem esforço nenhum. Meu coração batia acelerado, mas dessa vez não era medo, era entrega. Sem pressa, sem dúvida. Eu me entreguei ao momento. A ele. Ao que aquilo tava se tornando entre a gente. Como se, por alguns instantes, o mundo lá fora deixasse de existir. Sem pensar no depois. Sem questionar o certo ou o errado. Porque, naquele momento, Eu só queria sentir. Dias depois... Demorei, mas criei coragem. Eu sabia que não dava pra esconder aquilo da minha mãe por muito tempo. Ela podia ser tranquila em algumas coisas, mas quando o assunto era minha vida, ela sempre dava um jeito de descobrir. Então eu mesma falei. A gente tava de boa, ela comendo, tranquila. — Tô conhecendo um cara. Ela nem levantou o olhar. — Hum, e? Respirei fundo. — Ele é do Santo Amaro. A mão dela parou. — Lívia. — E ele é gerente da boca lá. Dessa vez ela largou tudo. — Tu tá maluca? O olhar dela veio pesado, cheio de preocupação. — Mãe, calma. — Calma nada! — a voz dela falhou — Não foi pra isso que eu te criei, menina. Suspirei, já esperando aquilo. — Ele é gente boa. — Gente boa? — ela soltou uma risada desacreditada — Lívia, esse mundo não é brincadeira. — Eu sei me cuidar. — Sabe nada! — os olhos dela encheram de lágrima — Tu acha que eu nunca vi isso? Essas histórias sempre acabam mäl. Aquilo começou a me irritar. — Nem tudo é igual, mãe! — É sim! — ela limpou o rosto, respirando fundo — Eu só queria coisa melhor pra você, uma vida tranquila, um cara que te desse segurança de verdade. Revirei os olhos. — Ele me trata bem. — Hoje! — ela rebateu — E amanhã? Fiquei em silêncio por um segundo. — Eu gosto dele. Aquilo pareceu quebrar ela de vez. Minha mãe começou a chorar sem fazer questão de esconder. — Eu não sonhei isso pra você. Deu um aperto. Deu mesmo. Mas não o suficiente pra me fazer desistir. No fim, ela aceitou conhecer ele. E quando o Juca veio lá em casa? Ele foi perfeito. Educado, respeitoso. Atencioso. — Prazer, dona Vanusa. — ele falou, apertando a mão dela com firmeza — Pode ficar tranquila, eu vou cuidar da sua filha. Minha mãe ainda olhava desconfiada, mas não teve como negar, ele soube se portar. E eu ali, do lado, me sentindo sortuda. Importante. Depois que ele saiu, ela ainda tentou. — Lívia, pensa bem. — Eu já pensei. Mas a decisão mesmo veio no dia seguinte. Ele me chamou pra conversar, sério. — Vem morar comigo. Meu coração disparou na hora. — Sério? — Sério. Não pensei muito. Pra mim, aquilo era tipo, uma vitória. Quando falei pra minha mãe, ela ficou quieta. Quieta demais. — Tu vai mesmo? — Vou. Ela respirou fundo, segurando tudo que queria falar. — Eu não vou te impedir. Aquilo me surpreendeu. — Mas também não vou com você. — Ele te chamou, mãe, a senhora vai se livrar desse aluguel. — Eu sei — ela respondeu firme — Mas meu lugar é aqui. Assenti, meio sem graça. Comecei a arrumar minhas coisas. Roupa, maquiagem, tudo jogado dentro da mala, coração acelerado. Era isso. Eu tava indo. Indo viver o que eu achava que era amor. Quando terminei, minha mãe se aproximou. Ficou me olhando por alguns segundos, como se quisesse gravar meu rosto. E então disse, baixo: — Vou te dizer agora, pra não ter que dizer depois: cuidado, pra não ter que dizer coitado. Franzi a testa. — Mãe. — Só cuidado, Lívia. Mas eu não quis ouvir. Ignorei. Porque, na minha cabeça, eu sabia o que tava fazendo. Peguei minha mala, dei um beijo nela e saí. Dessa vez, subi o Santo Amaro diferente. Não era só uma noite. Não era só curiosidade. Era com mala e cuia, Pra viver o meu amor. E naquele momento… Eu tinha certeza que tava fazendo a escolha certa. Mesmo sem saber, que aquela decisão ia mudar o rumo da minha vida, pra sempre.
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