Imperador Narrando
Deu certo. Tudo certo. O resgate foi limpo, rápido, do jeito que tinha que ser. Meu irmão tá de volta na quebrada, e eu quero ver qual é o malandro que vai ter coragem de subir aqui pra tentar tirar ele de mim.
— Quero ver quem vai vir buscar.
Falei baixo, olhando pelo retrovisor, vendo o Morte ali atrás, ainda com as algemas no pulso, mas com aquele olhar vivo de novo.
Aquilo ali não era só um resgate, era justiça sendo feita.
Porque no dia que era pra eu descer pro asfalto, quem desceu foi ele.
E foi nesse dia que deu r**m.
— Ele rodou no meu lugar.
Só de lembrar, meu maxilar trava.
— E eu tenho certeza, alguém armou.
Não foi coincidência.
Nunca é.
Operação no lugar que eu ia, no horário que eu ia, numa área que quase nunca tinha viatura, e do nada tava tudo cercado?
— Na maciota ainda…
Muito limpo pra ser acaso.
Mas até hoje. Eu nunca descobri quem foi o filho da püta.
O carro seguia cortando caminho, subindo sentido morro. O vento batendo, o cheiro de liberdade no ar, e o Morte quieto, só observando.
Olhei pra ele de canto.
— Relaxa…
Falei.
— Assim que a gente chegar no morro eu mando tirar essa pörra dessas algemas.
Ele deu uma olhada pro próprio pulso, meio irritado.
— Já tava na hora mesmo. —Respondeu.
Deu um tempo, e ele virou o rosto pra mim.
— E o Juca?
Perguntou direto.
Na hora, eu soltei um sorriso de lado.
Aquele sorriso que já diz tudo.
— Veio não. — Falei tranquilo.
— E nem vai vir.
Ele ficou me encarando, esperando.
Então eu completei.
— Juca tá debaixo de sete palmos.
Dei uma leve inclinada no volante.
— Cüzao rodou na minha mão.
O silêncio veio pesado dentro do carro.
Morte ficou sério na hora, olhando pra frente, processando.
— Qual foi? — Perguntei.
Ele virou o rosto devagar.
— Foi ele que te entregou.
Falou firme.
Meu olhar fechou na hora.
— Ele tinha ideia de tomar teu lugar.
Deu uma pausa.
— Tu sabia?
Balancei a cabeça devagar.
— Não sabia não.
Falei sincero.
— Mas já desconfiava que tinha sujeira.
Respirei fundo.
— Só não achei que era ele.
Dei um leve aperto no volante.
— Mas ele rodou não foi nem por isso.
Continuei.
— Ele tava vacilando.
Morte me olhou de lado.
— Espancando a mina dele, maltratando o próprio filho.
Dei uma pausa.
— Moleque é autista.
O clima pesou de vez.
— Aí não dá.
Falei seco.
— Na quebrada tem regra, e ele esqueceu.
Morte balançou a cabeça, o ódio aparecendo no olhar.
— Cüzao do carälho, eu tava me lambendo para pegar ele. Já estava tudo na mente. Carälho.
O carro já tava chegando perto da entrada do morro. Os moleques já aparecendo nas contenção, tudo atento, já sabendo que o Morte tava voltando.
— Agora é o seguinte.
Falei, olhando pra frente.
— Tu voltou. E aqui… tu tem teu lugar.
Dei um sorriso de canto.
Olhei pra ele mais uma vez.
— E quem tentou derrubar a gente.
Dei uma pausa.
— Já tá no quinto dos infernos, e nós aqui
O motor roncou mais alto enquanto a gente subia.
Assim que a gente entrou no morro de vez, nem precisei falar nada, o primeiro foguete estourou no céu.
E depois foi um atrás do outro.
O morro inteiro já sabia.
— O Morte voltou!
Os gritos começaram, geral saindo na porta, moleque correndo, os cria levantando o braço, comemorando como se fosse final de campeonato.
— Aí, carälho! O Morte voltou!
— Respeita!
Eu só dei um sorrisinho de canto, olhando aquilo tudo. Era disso que eu tava falando, aqui é família, aqui ninguém esquece dos seus.
Subi direto com ele pra minha casa. Assim que entramos, já mandei o papo.
— Chama o Piruba.
Um dos moleques saiu correndo pra buscar. Não demorou muito, ele já apareceu com a chave mestra.
— Chefe…
Ele falou, já indo pro Morte.
— Tira essa pörra logo.
Falei.
O ferro fez aquele barulho seco quando abriu, e na hora que a algema caiu do pulso dele, parecia que fechava um ciclo.
Quatro anos.
Quatro anos que aquele cara tava preso. Agora tava livre de novo.
— Já era.
Falei, batendo no ombro dele.
— Tá em casa.
Ele deu aquela respirada funda, mexendo o pulso, sentindo a liberdade de verdade.
Nem precisei esperar muito.
— Hoje tem festa.
Soltei alto.
Os moleques já se ligaram na hora.
— Já é, chefe!
— Vou mandar geral colar!
Levantei a mão, já cortando.
— Só os de fé, tá ligado?
Olhei sério.
— Vai ser na laje da boca.
Morte nem ficou muito tempo. Olhou pra mim e já lançou.
— Vou lá no meu barraco, tomar banho tirar essa Inhaca de Cadeia.
Assenti.
— Tá do jeito que tu deixou.
Ele me olhou meio desconfiado.
— Ninguém mexeu?
Dei um meio sorriso.
— Eu deixei ninguém encostar.
Expliquei.
— Só a mesma mulher que limpava antes, ia lá uma vez no mês tirar o pó.
Ele ficou quieto por um segundo, como se tivesse absorvendo aquilo.
— Valeu.
Falou baixo.
Eu só fiz um gesto com a cabeça.
— Vai lá.
Ele saiu, descendo pra casa dele, enquanto eu já me virava pro que tinha que resolver.
Fui direto pra boca.
O clima já era outro.
Movimentação pesada, geral animado, os cria organizando as coisas pra festa na laje. Som já começando a ser montado, bebida chegando, tudo no esquema.
Encostei ali, olhando o movimento, sentindo aquela energia subir.
— Santo Amaro ganhou reforço agora. — Falei baixo, mais pra mim mesmo.
E ganhou mesmo.
Porque o Morte não é qualquer um.
É mente, é braço, é respeito.
Um cara que segurou quatro anos sem abrir a boca, sem entregar ninguém.
Isso aí vale mais do que qualquer arma.
Bial colou do meu lado, cruzando os braços.
— Agora o bagulho ficou sério de novo.
Dei um sorriso de lado.
— Sempre foi.
Respondi.
Olhei pro alto, vendo mais um foguete estourar no céu, iluminando o morro.
— Só que agora. — Dei uma pausa. — Ficou melhor ainda.
A noite tava só começando.
E a mensagem já tinha sido dada. Quem é de fé, tá junto.
Quem não é…
— Melhor nem testar.
Mais uma parada passou pela minha cabeça, mandei parar com os foguetes na hora. O filho da Lívia, ele não gosta de barulho. Mërda.
— Aê quem foi o Cüzao que te a ideia de estourar foguete, vou comer o Cü dele, agora.