Lívia Narrando
Eu tava dormindo. Um sono pesado, daqueles que o corpo desliga porque não aguenta mais sentir dor. Nem sei que horas eram quando ouvi a voz da minha mãe me chamando.
— Lívia… Lívia, acorda.
Meu corpo reagiu na hora. Dei um pulo na cama, o coração disparado, já achando que era ele. Que aquele inferno tinha voltado.
— Ele voltou?
Minha voz saiu trêmula, desesperada.
Minha mãe veio rápido até mim, segurando meu rosto com cuidado.
— Não, minha filha, não é ele. Graças a Deus não é ele.
Soltei o ar devagar, sentindo o corpo ainda em alerta.
— Tem um rapaz aí querendo falar com você.
Franzi a testa, ainda meio perdida.
— Rapaz, mãe?
Ela assentiu.
— Disse que o nome dele é Bial, que veio a mando do chefe.
Na hora eu entendi.
Balancei a cabeça devagar.
— Tá…
Me levantei com cuidado, sentindo o corpo dolorido, principalmente as costelas. Passei a mão no rosto, tocando de leve o olho ainda inchado, mas já menos que antes.
Fui pro banheiro, lavei o rosto, tentando acordar de verdade. Aproveitei e troquei de roupa, colocando algo mais descente.
Quando saí, vi o Noah na sala.
Sentadinho no sofá, comendo bolachinha e assistindo desenho.
Tão concentrado, tão no mundinho dele, que nem percebeu que eu tava ali.
Sorri de leve.
Isso sempre me acalma.
Respirei fundo e fui até o portão.
Bial tava lá, encostado, como se já estivesse esperando fazia tempo.
— Fala, mina.
— Oi.
Fiquei parada na frente dele, esperando.
Ele não enrolou.
— Vim dar um recado do chefe.
Meu coração deu uma acelerada leve.
— O que foi?
Ele me olhou sério dessa vez.
— O chefe mandou tu subir hoje às dez da noite, lá na boca.
Na hora, eu senti um frio passando pelo corpo.
— Pra quê?
Minha voz saiu mais baixa.
— E por quê?
Ele cruzou os braços, tranquilo.
— O Juca já tá na salinha, só aguardando o julgamento.
Fiquei alguns segundos em silêncio, tentando processar.
— Julgamento?
Ele assentiu.
— É o tribunal.
Minhas pernas deram uma falhada na hora.
Apoiei a mão no portão pra não perder o equilíbrio.
Tribunal. Aquilo era sério. Muito sério.
Olhei pra ele de novo.
— Eu… eu vou.
Respirei fundo.
— A boca é aquele galpão lá de cima, né?
— É.
Assenti com a cabeça.
— Tá bom, às dez eu tô lá.
Ele fez um sinal positivo.
— Fechou então.
E saiu, como se fosse só mais um recado qualquer.
Mas não era.
Fechei o portão devagar, sentindo o corpo inteiro tremer.
Quando entrei, minha mãe já tava me esperando no meio da sala, com aquele olhar preocupado.
— O que foi, Lívia?
Engoli seco.
Olhei pra ela.
— Mãe…
Minha voz falhou por um segundo.
— Hoje à noite, vai ter um tribunal do crime.
Ela franziu a testa, sem entender.
— O que tu tem haver?
Respirei fundo, sentindo o coração bater forte no peito.
— O Juca, ele vai ser julgado, e o Imperador quer a minha presença.
Olhei no relógio e, já passava das duas da tarde.
Demorei alguns segundos pra entender onde eu tava. O corpo pesado, dolorido, a cabeça ainda meio lenta por causa do remédio.
— Nossa.
Murmurei baixo, passando a mão no rosto.
Eu tinha dormido praticamente o dia todo.
Me levantei devagar, sentindo as costelas reclamarem na hora. Cada movimento era um lembrete do que eu tinha vivido. Do que eu ainda tava vivendo.
Fui até a cozinha e coloquei um pouco de comida no prato. Não tava com muita fome, mas precisava comer. Comi devagar, em silêncio, tentando organizar meus pensamentos.
Depois peguei o celular e pedi os remédios na farmácia. Pelo menos isso.
O cartão e o dinheiro que ele deixava guardado no cofre ainda estavam comigo.
Respirei fundo.
Se nesse julgamento ele for condenado, se ele morrer.
Eu vou conseguir me virar por um tempo com o que tenho aqui.
E depois, eu dou um jeito.
Arrumo um trabalho, faço qualquer coisa.
Mas livre.
Só de pensar nisso, meu coração acelera.
Uma chance.
Uma chance real de me livrar do Juca.
Balancei a cabeça, afastando os pensamentos. Ainda não era hora de criar esperança demais.
Fui cuidar do Noah.
Dei banho nele com calma, respeitando o tempo dele, cada movimento, cada detalhe que fazia parte da rotina. Ele gosta da água na temperatura certa, do cheirinho do sabonete específico, tudo tem que ser do jeitinho dele.
Minha mãe já tinha feito sopa, e aquilo me deu um alívio. É o que ele mais gosta.
— Vem, meu amor.
Ele sentou, quietinho, e começou a comer.
Fiquei ali do lado, observando.
Ele parecia tão em paz, tão distante de tudo aquilo.
Depois que terminou, ficou ali na sala, no cantinho dele.
Dei o remédio, como sempre, no horário certinho.
E logo comecei a rotina do sono. Luz mais baixa.
Ambiente tranquilo.
Tudo no padrão que ele precisava.
— Vamos dormir, meu príncipe.
Ele deitou, abraçando o paninho dele, e eu fiquei ali até perceber que ele já tava relaxando.
A respiração foi ficando mais leve, até ele dormir.
Fiquei alguns segundos olhando pra ele.
E o coração apertou.
— Mamãe vai ali, e já volta.
Sussurrei baixo, mais pra mim do que pra ele.
Saí do quarto devagar, fechando a porta com cuidado.
Fui pro meu quarto.
Tomei banho com calma, deixando a água cair pelo corpo, tentando aliviar um pouco da dor que ainda insistia em ficar.
Dessa vez, escolhi um vestido.
Nada apertado. Minhas costelas não deixavam.
Me arrumei simples. Sem maquiagem. Só eu e pronto.
Tomei o remédio pra dor antes de sair.
Peguei a chave do carro e fui até a sala. Minha mãe tava me esperando.
Quando me viu, se aproximou na hora.
— Vem cá.
Ela colocou a mão na minha testa e fez o sinal da cruz, devagar.
— Que Nossa Senhora te proteja, minha filha. Que ela te cubra com seu santo manto.
A voz dela saiu carregada de fé, e de medo também.
Engoli seco.
— Amém.
Olhei pra ela por mais um segundo.
— Cuida dele pra mim.
Ela assentiu.
— Sempre.
Respirei fundo e saí.
Entrei no carro, liguei o motor e comecei a subir o morro.
A cada curva, a cada subida meu coração batia mais forte.
A noite já tinha caído pesada, no morro.
O galpão lá de cima já dava pra ver de longe.
A boca.
O lugar onde tudo ia ser decidido. Segurei firme no volante.
— Bora ver. — Murmurei pra mim mesma. — O que o destino reservou pra nós.