Tudo Começou no Santo Amaro/ 07

1377 Words
Lívia Narrando Quatro anos antes... Minha mãe veio me visitar pela primeira vez algumas semanas depois. Eu fiquei nervosa desde o momento em que o Juca confirmou que podia trazer ela, porque uma coisa era ela imaginar, outra completamente diferente era ver de perto. Quando ela chegou, eu abri a porta e vi aquele sorriso no rosto dela, todo animado, olhando em volta como quem tenta absorver cada detalhe. — Nossa, filha. Ela entrou devagar, observando tudo. A casa tava impecável. Limpa, organizada, móveis bons, armário cheio, geladeira abastecida. Tudo no lugar, tudo bonito. Perfeito por fora. — Tu tá bem mesmo, né? — ela falou, olhando pra mim com um alívio que eu não tinha coragem de quebrar. Forcei um sorriso. — Tô, mãe. Ela andava pela sala, passando a mão nos móveis, olhando tudo com aquele olhar de quem sempre sonhou em ver a filha bem. — Olha isso, tudo direitinho. — ela comentou, admirada — Tá vivendo como uma princesa do morro, hein. Aquilo me deu um aperto no peito. Princesa, Se ela soubesse… Se ela tivesse noção do que acontecia quando a porta se fechava, quando ninguém tava olhando, quando o silêncio caía dentro daquela casa. Mas ela não sabia. E eu não deixava saber. — Ele te trata bem? — ela perguntou, ainda olhando ao redor. — Trata. Mentira. Mas saiu tão fácil que até me assustou. Ela sorriu, satisfeita com a resposta. — Que bom, minha filha, eu só quero te ver feliz. Engoli seco, desviando o olhar. Com o tempo, ela começou a vir mais. Quase todo final de semana dava um jeito de aparecer, sempre com alguma coisa na mão, sempre com aquele carinho que eu tanto sentia falta. — Trouxe umas coisinhas pro bebê — ela disse uma vez, colocando uma sacola em cima da mesa. Quando eu abri, meu coração apertou. Roupinhas pequenas. Delicadas. Todas brancas. — Tudo neutro, né — ela falou, sorrindo — Já que a gente ainda não sabe o sexo. Passei a mão pelo tecido, sentindo a maciez. — É lindo, mãe. — Eu vi e lembrei de você na hora. Ela tava feliz. Empolgada. Vivendo aquele momento como uma avó que esperou por aquilo a vida inteira. E eu ali, sorrindo, concordando, fingindo. Porque pra ela, eu tava bem. Tava segura. Tava vivendo uma vida boa. Mas a verdade? Era que eu continuava presa naquele mesmo inferno. Só que agora, com tudo bonito por fora. Depois que comecei o pré-natal, minha rotina mudou um pouco, mas não do jeito que eu queria. O Juca não ficava comigo no posto. Ele me deixava lá e sumia, dizendo que tinha uns corre pra resolver. Eu fazia consulta sozinha, exame sozinha, ouvia tudo sozinha. Quando acabava, eu mandava mensagem ou ligava, e aí sim ele aparecia pra me buscar. — Terminou? — Terminei. — Tô indo. Sempre assim. Rápido, direto, distante. Com o tempo, ele começou a deixar a chave comigo. Foi a primeira vez em meses que senti um mínimo de liberdade. — Se quiser sair, tu pode — ele disse um dia. — Mercado, padaria, essas coisas. Assenti, mas sabia que tinha limite. Eu podia sair, mas sempre sozinha. Nada de amigas, nada de visita, nada de vida de verdade. Mesmo assim, comecei a aproveitar o pouco que dava. Caminhar até o mercado, ir na padaria, até passar na sorveteria da pracinha de vez em quando. Pequenas coisas que, naquele momento, pareciam enormes. Até que, um dia, me deu uma vontade absurda de comer pão de coco. Aqui no morro tem uma padaria que faz um pão de coco com leite condensado que é coisa de outro mundo. Só de pensar, minha boca já enchia de água. Fui até lá quase salivando, com aquela vontade de grávida que não dá pra ignorar. Comprei, segurei o saquinho quente nas mãos e já tava até imaginando o gosto. Só que, quando eu tava saindo… — Olha quem tá aqui. A voz veio carregada de deboche. Levantei o olhar e dei de cara com uma mulher branquinha, cheia de tatuagem, com uma roupa colada que marcava tudo. Do lado dela, uma loira ria baixinho. A tal mulher me olhou de cima a baixo, e sorriu. — E aí, sócia. Meu corpo travou na hora. — De quantos meses tu tá? — ela continuou, como se tivesse intimïdade. Senti o sangue subir. — Eu não sou tua sócia, nem te conheço — respondi firme — E não é da tua conta de quanto tempo eu tô. A loira riu mais alto. — Ih, ficou nervosinha. A outra inclinou a cabeça, me encarando. — Por que a vaca chifruda tá estressada assim? Foi aí que caiu a ficha. Meu estômago virou. Era ela. A mesma mulher que eu tinha visto na garupa do Juca. Meu olhar endureceu, mas eu não respondi. Não valia a pena. Virei as costas e comecei a andar. — Deixa ela, Jordana. — ouvi a loira falar — Ela tá grávida. Jordana. Então esse era o nome dela. Fui embora com o corpo tremendo, o pão de coco esquecendo completamente na minha mão. Quando cheguei em casa, joguei em cima da mesa. A fome tinha sumido. O que ficou foi só raiva. Raiva dele. Raiva dela. Raiva de mim. Quando o Juca chegou, eu não esperei. — Eu encontrei aquela mulher na padaria. Ele tirou a camisa com calma, como se eu tivesse falando qualquer coisa. — Que mulher? — A que tava na tua moto aquele dia. Ele me olhou, e sorriu na minha cara. — Não leva isso em consideração não. Aquilo foi como um tapa. — Como assim não levo? Quem ela pensa que é pra falar comigo daquele jeito? Ele deu de ombros. — A Jordana é assim mesmo. Meu coração apertou. — Então tu conhece bem, né? Ele ficou em silêncio por um segundo, e eu não aguentei. — Fala logo! Ele me encarou, sério. — Ela também é minha mulher. O mundo pareceu escurecer. — O quê? — E eu não vou largar ela por tua causa, quando tu chegou, eu já tava com ela. Aquilo me deixou cega de ódio. — Tu acha que eu sou o quê? — gritei. — Tu é o que eu quiser que tu seja — ele respondeu, frio — E não tem direito de reclamar de nada. Eu te banco, te dou casa, comida, ainda te dou uns trato. — Não tenho direito de reclamar? Eu avancei nele, sem pensar. E ele veio. O empurrão foi forte, mas eu não recuei. Tentei bater nele, empurrar de volta. Ele me deu uma gravata, apertando o meu pescoço. — Tu tá maluca! — ele gritou. E então veio o chute. Nas minhas costas. Com força. Eu perdi o equilíbrio e caí pra frente, batendo com a barriga no chão. A dor foi instantânea. Forte. Cortante. — Ai! — gritei, levando a mão à barriga. Meu corpo travou. O medo veio na mesma hora. — Meu filho… Senti o desespero subir. Ele ficou parado por um segundo, e então o olhar dele mudou. — Carälho… Veio até mim rápido. — Levanta, levanta! — Tá doendo… — falei, chorando. Ele me ajudou, nervoso. — A gente vai pro postinho agora. O caminho foi um borrão de dor e medo. Eu só pensava em uma coisa: eu vou perder meu filho. Quando chegamos, me atenderam rápido. Me colocaram na maca, começaram a examinar. — O que aconteceu? — a enfermeira perguntou. Engoli seco. — Eu caí. Não mostrei as costas. Não podia. Se vissem a marca do tênis, tudo ia piorar. Fizeram os exames, me deixaram em observação. Meu coração batia descompassado, esperando qualquer notícia. Até que o médico entrou. — Fica tranquila — ele disse — O bebê tá bem. As lágrimas vieram na hora. — Sério? — Sim. E é um menino. Meu peito apertou de um jeito diferente. Um menino. Levei a mão à barriga, ainda com medo, mas sentindo algo novo. — Eu vou chamar de Noah. — sussurrei. Sempre achei esse nome lindo. E ali, naquele momento, no meio do caos. Foi a primeira vez que eu senti que talvez. Ele fosse a única coisa boa que saiu de tudo isso.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD