Lívia Narrando
Quatro anos Antes...
A minha vida virou um inferno de verdade, sem exagero nenhum. Não tinha mais espaço pra dúvida, nem pra ilusão. O Juca e eu já não discutíamos como antes, aquilo passou de briga de casal pra agressão mesmo. Grito, empurrão, tapa, descontrole. E, por mais que eu reagisse, por mais que eu tentasse me defender, ele sempre me machucava mais. Era mais forte, mais bruto, e parecia não ter limite quando perdia a cabeça.
Eu também mudei. Não aceitava mais calada, não abaixava mais a cabeça. Só que isso só piorava tudo. Virava uma guerra dentro de casa, e no fim quem sempre saía mais ferida era eu.
Teve um momento que eu decidi, dentro de mim, que não ia mais ceder. Que ele não ia mais me tocar como se tivesse direito sobre o meu corpo. Eu coloquei isso na minha cabeça com uma força que eu nem sabia que tinha.
— Não encosta em mim.
Falei uma vez, firme, olhando direto pra ele.
Ele riu, um riso frio.
— Tu acha que manda em alguma coisa aqui?
— Não. Mas em mim tu não manda mais.
Aquilo foi como jogar gasolina no fogo.
Depois disso, tudo ficou ainda pior.
Ele passou a me forçar. Não tinha mais escolha, não tinha mais voz. Eu resistia, brigava, empurrava, mas ele não ligava. Era como se eu não fosse nada além de algo que ele podia usar quando quisesse.
E isso foi me quebrando por dentro de um jeito que eu não sei explicar.
Eu não podia sair. Não podia ver ninguém. Não podia falar com ninguém. Ele começou a trancar a porta da frente, literalmente. A chave ficava com ele. Nem na grade eu podia ficar olhando o movimento da rua.
— Pra dentro.
Ele falava, seco.
E eu ia.
Porque eu já sabia o que vinha se não fosse.
Eu virei uma prisioneira.
Preso dentro daquela casa.
Preso dentro daquela vida.
Preso dentro de mim mesma.
Os dias foram ficando pesados, arrastados, sem cor. Eu já não sabia mais que dia era, nem que hora era. Só sabia que tava ali, sobrevivendo. Juca tirou a tv de Casa, meu celular. Eu só fazia as coisas de casa e dormia.
Até que meu corpo começou a dar sinais.
No começo foi um enjoo leve. Eu ignorei. Achei que era nervoso, estresse, qualquer coisa. Só que foi piorando.
Eu comecei a passar mäl direto.
Vomitar.
Ficar tonta.
Sem força.
Um dia eu não consegui nem levantar direito.
Ele percebeu.
— Que pörra é essa agora?
— Não tô bem…
Minha voz saiu fraca, quase sumindo.
Ele ficou me olhando, avaliando, como se tentasse decidir o que fazer.
— Levanta.
— Não tô conseguindo.
Ele bufou, irritado, mas veio até mim.
— Tu vai comigo no postinho.
Meu coração deu um salto.
Era a primeira vez em muito tempo que eu ia sair dali.
Mas a esperança durou pouco.
Antes de sair, ele segurou meu braço com força, me obrigando a olhar pra ele.
— Escuta bem o que eu vou te falar.
Engoli seco.
— Se tu abrir a boca pra falar qualquer coisa do que acontece dentro de casa.
Ele apertou mais forte.
— Eu mato a tua mãe.
Meu corpo inteiro gelou.
— Não… — sussurrei, já com os olhos cheios de lágrima.
— Então fica na tua. Fala só o necessário.
Assenti, sem força pra discutir.
Só de ouvir ele falar da minha mãe, meu peito doeu de um jeito que eu não sentia há muito tempo. Um aperto pesado, cheio de culpa.
Porque na hora veio tudo.
A voz dela.
O choro dela.
O aviso dela.
E o arrependimento bateu.
Forte, pesado, tarde demais.
Saí de casa com ele do meu lado, sentindo o corpo fraco, a cabeça girando, mas o pior não era nem o m*l-estar físico.
Era a sensação de que eu tava cada vez mais presa.
E que, agora. Não era só por mim.
O caminho até o postinho foi um borrão. Eu tava fraca, com o corpo mole, a cabeça pesada e o estômago embrulhado. O cheiro da rua, da moto, até do próprio ar parecia me dar mais enjoo. Fiquei quieta o tempo todo, segurando tudo dentro de mim, principalmente a ameaça que ainda ecoava na minha cabeça.
— Fica esperta — ele murmurou perto do meu ouvido quando a gente entrou.
Assenti sem olhar pra ele.
A sala de espera tava cheia, gente falando, criança chorando, televisão ligada no canto. Aquilo tudo parecia distante, como se eu não fizesse parte dali. Eu só queria deitar e fechar os olhos.
Depois de um tempo, chamaram meu nome.
— Lívia Gomes.
Levantei devagar, sentindo as pernas bambas. Entrei na sala com o coração apertado. O médico era um homem mais velho, de óculos, com um jeito calmo que contrastava completamente com o caos que eu tava vivendo.
— O que você está sentindo? — ele perguntou, enquanto anotava alguma coisa.
Respirei fundo.
— Tô enjoando muito… vomitando… e tô fraca.
Ele assentiu.
— Sua menstruação está regular?
Aquilo me travou por um segundo.
— Eu… não sei direito — respondi, desviando o olhar.
Ele levantou os olhos, me analisando melhor.
— Você tem vida s****l ativa?
Antes que eu respondesse, senti o peso do olhar do Juca atrás de mim.
— Tenho.
O médico continuou o atendimento com calma, pediu pra eu deitar na maca. Examinou minha pressão, apertou minha barriga de leve, fez algumas perguntas que eu respondia quase no automático.
— Vamos fazer um teste rápido, tudo bem?
Assenti.
Ele saiu por alguns minutos e aquele silêncio dentro da sala ficou insuportável. Eu evitava olhar pro Juca, mas sentia ele ali, presente, como uma sombra.
— Para de ficar com essa cara — ele falou baixo.
Não respondi.
Quando o médico voltou, ele tava com um papel na mão e um olhar diferente.
Meu coração disparou.
— Lívia, o resultado deu positivo.
Franzi a testa.
— Positivo, pra quê?
Ele respirou fundo antes de dizer:
— Você está grávida.
O mundo pareceu parar.
O som sumiu.
O ar ficou pesado.
— Grávida? — minha voz saiu quase inaudível.
— Sim.
Minha cabeça girou. Eu fiquei olhando pra ele, tentando processar aquilo, mas não entrava. Não fazia sentido.
Eu só tenho dezesseis anos.
Eu não queria aquilo.
Não daquele jeito.
Não naquela vida.
Não com ele.
Senti meus olhos encherem de lágrima, mas segurei. Engoli tudo.
Do meu lado, o Juca reagiu completamente diferente.
— Sério, doutor?
A voz dele tinha até um tom de animação.
— Sim, está no início ainda, mas já é confirmado.
Ele soltou um riso baixo, satisfeito.
— Eu vou ser pai.
Aquilo me deu um embrulho ainda maior.
Eu não consegui sorrir. Não consegui falar nada. Só fiquei ali, parada, sentindo um peso enorme cair sobre mim.
Porque enquanto ele parecia feliz. Eu só conseguia sentir medo,tristeza e desespero.
Um filho, desse homem.
Desse inferno.
Passei a mão no rosto, tentando me recompor, mas por dentro eu já tava quebrando de novo.
— A gente precisa fazer o acompanhamento certinho — o médico continuou, explicando coisas que eu mäl conseguia ouvir.
Eu só conseguia pensar em uma coisa.
Minha vida, tinha acabado de mudar de novo.
E não foi pra melhor.