Capítulo 10

746 Words
Selena A porta ainda estava entreaberta quando eu voltei para a Sala Ômega. Gustavo e Viktor tinham descido para preparar o perímetro, mas algo dentro de mim dizia que eu tinha que ficar. Não por curiosidade. Por instinto. Helena sempre dizia: “A verdade não espera. Ela morde.” Eu respirei fundo e caminhei até o altar onde ela guardava tudo o que era proibido, sagrado ou perigoso demais. Meus dedos tremiam — não pelo medo, mas pela memória. O cheiro de lavanda ainda estava ali. O dela. Minha mãe adotiva, minha guardiã, minha assassina silenciosa quando necessário… e minha única família de verdade. Ou era o que eu acreditava. Até agora. Abri a segunda gaveta — a que Helena nunca me deixou tocar. Cartas antigas. Relatórios. Arquivos do clã. E no fundo… um envelope vermelho, marcado com cera preta. Seu nome: “SELENA” Meu coração deu um salto violento. Peguei o envelope. Minhas mãos suavam. Quebrei o selo. Dentro havia uma carta escrita com a caligrafia dela — firme, elegante, sempre tão impossível de imitar. Eu li. E o mundo inteiro parou. --- “Minha menina, Se você encontrou esta carta, então Ariston finalmente fez aquilo que sempre temi. E Gustavo descobriu aquilo que sempre escondi.” Minha garganta travou. Continuei. “Selena… você não foi colocada sob minha p******o por acaso. Você não foi encontrada em um abrigo. E você não perdeu sua família para ‘acidentes’.” Meu peito ficou gelado. O ar desapareceu. Não… Não. Eu li a próxima linha e senti meu estômago despencar. “Você é filha de um dos homens que Ariston jurou destruir.” O papel escorregou da minha mão. Caiu no chão como um tiro. Eu agarrei a borda da mesa para não cair também. A letra de Helena tremia levemente nessa parte, como se ela mesma odiasse escrever aquilo. “Seu pai não morreu em uma guerra entre famílias rivais. Ele foi executado. Por ordem direta de Ariston Galanis.” Meu corpo inteiro tremeu. Um som saiu da minha garganta, quebrado, ferido — um som que eu achava que já tinha matado dentro de mim anos atrás. Mas Helena não tinha terminado. “Eu te escondi. Eu te treinei. Eu te transformei para sobreviver. Porque Ariston teria te matado se soubesse quem você era.” Minha visão ficou turva. Lágrimas? Não. Não chorava desde os nove anos. Mas meu corpo não obedecia. Continuei a ler, mesmo sem fôlego. “Você precisa saber, minha menina: Seu pai era o único homem da Grécia capaz de derrubar Ariston. E por isso… ele o matou.” O chão abriu sob meus pés. Tudo desmoronou. Tudo. Meu passado. Minha origem. Minha missão. E então — a frase final. A frase que destruiu o que restava de mim. “E antes de morrer… seu pai fez um pedido. Um pedido que eu prometi cumprir. Prometi guardar sua filha. Prometi criar sua herdeira. Prometi preparar você para o dia em que encontraria Gustavo Galanis. Porque ele… …ele é a arma que você usaria contra o assassino de seu pai.” O envelope escorregou da minha mão. Eu me ajoelhei. A luz da sala pulsou — como se respondesse ao caos dentro de mim. Eu não consegui respirar. Helena… Você escondeu isso de mim. Para me proteger. Ou para me usar? Eu senti a lâmina da verdade entrando onde mais doía: Eu nunca procurei Gustavo. Eu fui preparada para ele. Treinada para ele. Criada para usá-lo. E a pior parte? Eu não sabia onde terminava minha missão… …e onde começava o que eu sentia. Atrás de mim, passos leves ecoaram no corredor. Gustavo. Claro que seria ele. Claro que seria agora. Eu não limpei o rosto. Não escondi a carta. Quando ele entrou, meu olhar encontrou o dele — e o choque em seu rosto foi imediato. — Selena? — ele murmurou, preocupado. — O que aconteceu? Eu apertei a carta no punho. Levantei-me devagar. E quando falei, minha voz estava quebrada e afiada ao mesmo tempo. — Eu acabei de descobrir quem sou, Gustavo. Dei um passo. Outro. Até ficar tão perto que podia sentir sua respiração. — E você… — minha voz saiu como um sussurro envenenado — você é a arma que me fizeram acreditar que eu devia usar contra o homem que matou meu pai. Os olhos dele congelaram. Minha dor encontrou a dele. E algo novo nasceu entre nós: Não amor. Não ódio. Destino. Brutal. Sangrento. Inevitável.
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