Capítulo 2: Nenhuma era valiosa para ela

1018 Words
Anaya passou toda a noite no porão, adormeceu logo depois de se deitar e acordou naturalmente algumas horas depois. Ninguém bateu em sua porta para acordá-la nem a chamou para fazer tarefas de casa. Isso significava apenas que ela ainda não era necessária. Mesmo depois de acordar à noite, Anaya não voltou para fora. Ela podia ouvir música tocando lá em cima, era a música de aniversário que as outras crianças estavam cantando para Charlotte. Anaya se sentou com certa dificuldade. O sangue em suas costas já havia secado e puxava sua pele, era doloroso, mas nada que Anaya nunca tivesse sentido antes. Dor era a única sensação familiar que ela sentia nesses dias. Ela cantarolou lentamente a música no porão. Sua voz baixa ecoou após a música e isso deixou o porão ainda mais sombrio e triste. Anaya desenhou um pequeno bolo na sujeira com o dedo e assoprou quando a música terminou. Hoje ela estava oficialmente com dezesseis anos. — Feliz aniversário, Arnold — Sussurrou Anaya — Sinto sua falta. Não havia um único dia na vida de Anaya em que ela não fosse lembrada de seu irmão. Sempre que se olhava no espelho, sempre que seus pais a olhavam descontentes. Isso sempre lembrava Anaya de que Arnold não estava mais aqui. Ela não se importava muito com a mudança no comportamento de seus pais após a morte de Arnold. Ela tinha apenas cinco anos na época e não entendia nada, muito menos as emoções profundas de luto e ódio. Disseram a ela que ela era muito parecida com Arnold e que a lembrava deles. Anaya conseguia entender isso e também se sentia culpada e aceitava sua vida conforme ela vinha. Mas, após o nascimento de Charlotte, Anaya teve uma epifania. Charlotte também se parecia com Anaya, também puxou sua mãe. Mas Charlotte era tratada como uma princesa. Por quê? Ela não era também como Arnold? — Charlotte nos foi dada em troca de Arnold. A deusa tem pena de nós e nos deu de volta sua alma. Olha, ela é igualzinha ao Arnold? O sorriso dela é igualzinho ao dele! — Disse seu pai enquanto brincava com sua filha de dois meses, Charlotte. Anaya ouviu isso e sua criança de seis anos ficou confusa. Conforme Anaya crescia, finalmente entendia completamente. Eles a odiavam por ter tirado Arnold deles e tratavam Charlotte como o presente da deusa e uma substituição de seu filho. Anaya não era amada ou desejada em casa e poderia muito bem ter morrido naquele ataque que matou seu irmão. Pelo menos dessa forma seus pais poderiam sentir um pouco de remorso por ela. A música tinha acabado. Na verdade, mais de duas horas haviam se passado e Anaya não percebeu. Anaya suspirou e vestiu seu suéter. Já era tarde para pensar nessas coisas agora. Como ela não morreu naquele momento, Anaya não tinha planos de morrer tão cedo. Embora a dor e o sofrimento parecessem intermináveis agora, na verdade não eram para sempre. Anaya sabia que chegaria um dia em que não precisaria mais sofrer assim, quando estaria livre dessa prisão e voaria no céu como um pássaro livre. Ela não sabia quando esse dia chegaria, mas estava ansiosa por ele. Os ossos de Anaya ainda estavam doloridos e se tornava difícil caminhar, mas, de alguma forma, ela foi até a porta e a abriu. Do lado de fora estava quieto e escuro, então ela se arrastou para fora e voltou para o sótão. Todo mundo já estava dormindo agora. Já era meia-noite. No sótão, Anaya trancou a porta e tirou o suéter. Sua camisola estava arruinada. Com as costas nuas expostas ao frio da noite, a ferida não doía mais tão intensamente. Anaya usou uma espátula para aplicar pomada em suas costas e enrolou desajeitadamente um rolo de bandagem sobre ela para ajudar a pomada a penetrar. Em seguida, trocou a camisola por uma camiseta fina e uma calça de algodão velha e se deitou de bruços no colchão. O colchão tinha dois travesseiros e um cobertor bom o suficiente para cobri-la nas noites frias como aquela, mas Anaya gostava do frio. Isso a tornava insensível a tudo. Ela só desejava que ele também entorpecesse seus pensamentos e emoções. Seria melhor se o frio também levasse embora sua respiração e alma. Anaya havia prometido a si mesma nunca tirar sua própria vida. Não importava o quão difícil ficasse, não importava o quanto ela sofresse, ela havia prometido a si mesma que a vida que tinha era em troca da de seu irmão. Mas a euforia da morte era tentadora e a atraía para si mesma e longe da vida inúmeras vezes. Anaya resistia a ceder, mas ela esperava que algo ou alguém tirasse sua vida para que ela não precisasse continuar. Anaya era assim. Ela estaria pensando em um futuro brilhante e logo depois pensaria na felicidade da morte. Ela achava a linha entre a vida e a morte quase tão fina quanto um fio de cabelo. Nenhuma era valiosa para ela e ambas eram preciosas. Esses pensamentos eram deprimentes, mas verdadeiros para ela. Eles eram o que faziam seus pesadelos e devaneios. Anaya cantarolava para si mesma na noite solitária. Seu aniversário tinha passado. Ela tinha desejado feliz aniversário ao Arnold, mas ninguém lhe desejou. Gotas de lágrimas encharcaram o único travesseiro sob sua cabeça. Anaya não impediu mais as lágrimas. Quando ninguém estava por perto, ela soltava o controle sobre elas e deixava-as fluir. Somente ao liberá-las agora ela seria capaz de controlá-las amanhã. Os morcegos da noite ulularam à distância, dizendo-lhe que a noite ainda era longa. Anaya enxugou suas lágrimas e puxou o outro travesseiro debaixo do rosto. Anaya se sentia sonolenta e seus olhos estavam embaçados devido às lágrimas e ao sono. Ela estava a um piscar de adormecer quando uma voz sussurrou em seu coração. Muito gentil e suave, parecia um conforto que Anaya ansiava. — Feliz aniversário, Anaya — Seu lobo desejou com um tom muito gentil. Anaya sorriu e disse: — Obrigada, lobinho — Antes que o sono tomasse conta de sua consciência.
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