ANOS ATRÁS — MILÃO, ITÁLIA.
O consultório particular exalava o cheiro de antisséptico e prestígio. Sobre a maca, Alessia segurava a mão do marido, Cesare Belladonna, com força. O monitor de ultrassom era a única fonte de luz na sala penumbra, refletindo o brilho de expectativa nos olhos do casal.
— Será uma menina linda, assim como você — Cesare sussurrou, a voz carregada de uma promessa que ele m*l sabia que moldaria décadas.
— Será sim, querido — Alessandra respondeu, os olhos úmidos enquanto observava os contornos nublados na tela.
O médico deslizou o transdutor com precisão, um sorriso discreto surgindo sob a máscara.
— Pelo que vejo, é uma linda princesa. Ainda é cedo para certezas absolutas, mas o coração bate forte e saudável.
— Deus seja louvado! — Cesare exclamou, fechando os olhos em um agradecimento silencioso. Naquele momento, ele não via apenas uma filha; via o elo que selaria a união de duas linhagens poderosas.
A noite em Milão caiu sobre a imponente mansão dos Belladonna. O som de taças de cristal e uma melodia suave de piano preenchiam o ar, mas o drama real acontecia no centro da sala de estar, onde o pequeno Riccardo, de apenas seis anos, encarava a barriga da tia com uma confusão genuína.
— Então não vai ser um menino? — O garoto questionou, os ombros caídos e a testa franzida em desapontamento.
Matteo Vesperini , o pai de Riccardo e melhor amigo de Cesare, riu baixo, servindo-se de um vinho encorpado.
— Não fique triste, filho. Vocês ainda poderão ser grandes amigos. Talvez até mais do que isso um dia.
— Mas eu queria um amigo para brincar de carrinhos — a criança insistiu, a voz começando a embargar.
Isabella, mãe de Riccardo, aproximou-se e afagou os cabelos escuros do filho.
— Filho, não fale assim. Você terá muitos amigos. A bebê da titia será sua protegida, como suas irmãs gêmeas.
A atmosfera era de celebração, mas Riccardo parecia carregar o peso do mundo. Ele soluçou, as lágrimas banhando seu rosto angelical. Alessia, percebendo o sofrimento do pequeno, sentou-se com dificuldade no sofá, ignorando o desconforto da gestação avançada.
— Ei, pequeno, o que houve? Por que esse choro todo?
— Eu não queria uma amiga — Riccardo soluçou, as mãos cobrindo os olhos. — As meninas são chatas e choram demais. As gêmeas não gostam das minhas brincadeiras... e a sua bebê também não vai gostar de mim.
— As gêmeas amam você, Riccardo. E a Loredana também vai amar. — Alessia sorriu, pegando as mãos pequenas dele. — Você pode me ajudar a cuidar dela, sabia? Quando ela nascer, você será o cavaleiro dela.
Cesare se ajoelhou ao lado da esposa, encarando o afilhado.
— Não chore, campeão. Senão o titio vai ficar triste também. A bebê consegue ouvir tudo o que falamos aqui fora. Sabia?
Riccardo parou de soluçar por um instante, os olhos arregalados de surpresa.
— Ela consegue me ouvir?
— Consegue. E ela sente quando as pessoas são gentis com ela — Cesare incentivou. — Você quer sentir ela se mexer?
O garoto limpou o rosto de forma desajeitada com as costas das mãos. O medo de ter deixado a "nova amiga" triste superou o desapontamento de não ter um companheiro de jogos. Ele se aproximou da enorme barriga de Alessia, encostando os lábios no tecido fino do vestido dela.
— Desculpa, bebê... Eu não queria deixar você triste — ele sussurrou, quase num segredo.
— Ela não vai ficar triste, príncipe — Alessia murmurou, acariciando o cabelo liso do menino.
— Você tem que prometer que vai cuidar dela, Riccardo — Isabella interveio, sentando-se no tapete ao lado deles. — Promete?
— Eu prometo, bebê. Vou cuidar de você e conversar com você até você sair daí de dentro. E quando sair, vou te mostrar meus carrinhos... as gêmeas não gostam, mas eu te ensino.
O silêncio que se seguiu foi interrompido por um movimento brusco. Loredana, dentro do ventre, deu um chute vigoroso exatamente onde o rosto de Riccardo estava encostado. O menino deu um pulo para trás, os olhos voltando a encher-se de lágrimas, mas dessa vez de susto.
— Tia! Ela me bateu! Ela não gosta de mim! — Ele correu para os braços da mãe, desesperado.
Isabella o abraçou, rindo docemente da pureza da cena.
— Não, meu amor! Isso foi um carinho. Ela gostou da sua voz, meu campeão. Quando um bebê se mexe assim, é porque ele está dizendo "oi".
Os olhos azuis de Riccardo ainda estavam vermelhos e marejados, mas ele esboçou um pequeno sorriso ao ouvir a explicação da mãe. O desejo por companhia masculina vinha de uma solidão que começou cedo: ele tinha apenas um ano quando Isabella engravidou das gêmeas, Alessia e Alina.
Agora, com cinco anos, as meninas eram uma unidade inseparável, um furacão de laços e bonecas que frequentemente excluía o irmão. Riccardo sempre reclamava das tentativas delas de usá-lo como modelo para penteados em seu cabelo liso ou de incluí-lo em chás de bonecas. O conflito atingira o ápice semanas antes: Alina, a mais esquentada das duas, mordera o braço do irmão após ele, em um acesso de tédio, arrancar a cabeça de "Dora", a boneca preferida de Alessia.
Enquanto Alina atacava, Alessia chorava aos pulmões, gritando que o irmão tinha "matado" sua melhor amiga. Desde aquele dia, as gêmeas estabeleceram uma zona de exclusão; sempre que Riccardo tentava se aproximar, as duas saíam correndo rindo, deixando o garoto para trás até que o ar faltasse em seus pequenos pulmões.
A promessa de que a bebê de Alessia seria sua amiga era, para ele, a última esperança de não ser o "eterno excluído".
A atmosfera na mansão Belladonna tornou-se mais íntima quando o último convidado saiu, restando apenas o silêncio confortável da amizade de uma vida inteira. As gêmeas já haviam se rendido ao sono no andar de cima, e Riccardo dormia profundamente no sofá, com a mão ainda próxima à barriga da tia, como se guardasse sua promessa.
Cesare serviu mais uma dose de uísque para Matteo, enquanto Alessia e Isabella descansavam os pés nos sofás de veludo, compartilhando aquele cansaço gratificante de quem construiu impérios juntas.
— Eles parecem destinados, não acham? — Cesare quebrou o silêncio, observando Riccardo. — Olhem para ele. Nem as irmãs conseguiram domar esse garoto, mas a minha filha, antes mesmo de nascer, já o acalmou.
Matteo soltou uma risada baixa, observando o amigo de décadas.
— O sangue Vesperini é indomável, Cesare. Você sabe que os motores da nossa fábrica não são as únicas coisas barulhentas na família. Mas ele tem um respeito por vocês que é raro.
— Não é apenas respeito, Matteo. É conexão — interveio Isabella, ajeitando a echarpe de seda da própria grife. — Alessia e eu unimos nossos escritórios de advocacia para proteger o que é nosso, e transformamos a Belladonna em um ícone da moda mundial. Fizemos isso porque confiamos uma na outra mais do que em nós mesmas. Nossos filhos deveriam ter essa mesma solidez.
Cesare aproximou-se da janela que dava para as luzes de Milão, onde os logotipos da Belladonna e da Vesperini brilhavam no horizonte.
— Estamos no topo. A importação de luxo, os carros esportivos que levam o seu nome, a moda e o direito... somos os donos desta cidade. Mas o topo é um lugar solitário e perigoso para quem está sozinho.
Ele se virou para Matteo com um olhar sério, o olhar de quem planeja não apenas o amanhã, mas o século seguinte.
— Quero selar isso. Não apenas com um brinde, mas com um compromisso. Um contrato de união entre Loredana e Riccardo. Quando ela atingir a maturidade, eles se casarão. As nossas heranças, as empresas e o sangue das nossas famílias se tornarão uma força que ninguém na Itália poderá desafiar.
Alessia sentiu um calafrio, mas o peso da responsabilidade familiar falou mais alto.
— Um contrato de destino? — ela murmurou. — Isso é arcaico, mas... é seguro. Garante que ela nunca estará desamparada se algo nos acontecer.
— E garante que o império Vesperini tenha a melhor mente jurídica e o maior canal de exportação ao seu lado — Matteo concordou, estendendo a mão para o amigo. — Pela nossa amizade, pelo futuro da Belladonna e pela glória da Vesperini. Que Loredana e Riccardo sejam o nosso maior legado.
Os dois homens apertaram as mãos, enquanto as esposas trocavam um olhar cúmplice.
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A luz do lustre de cristal sobre a mesa de carvalho maciço da biblioteca parecia pesar sobre o documento à frente deles. O silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo atrito das penas de ouro contra o papel de alta gramatura.
Alessia e Isabella, acostumadas a redigir os contratos mais complexos da Europa, haviam passado a última hora revisando cada cláusula. Não se tratava de uma fusão empresarial comum, embora as empresas Belladonna e Vesperini estivessem citadas como garantias. Era o destino de dois seres humanos, um já nascido e outra ainda no ventre, sendo selado por firmas elegantes e carimbos oficiais.
— Está feito — anunciou Isabella, fechando a tampa da caneta com um clique seco.
Cesare e Matteo assinaram logo em seguida, trocando um olhar que misturava triunfo e uma fraternidade inabalável. O documento foi guardado em uma pasta de couro legítimo com o brasão das duas famílias. O compromisso era irrevogável: na maturidade, Loredana Belladonna e Riccardo Vesperini se tornariam um só perante a lei e a igreja, fundindo dois impérios em uma dinastia intocável.
Horas mais tarde, o silêncio do quarto principal era interrompido apenas pelo som suave do vento batendo nas janelas de vidro duplo. Alessia estava sentada na borda da cama, desfazendo o penteado com mãos trêmulas, enquanto observava Cesare, que retirava o relógio de ouro com a calma de quem acabara de fechar o negócio mais lucrativo de sua vida.
— Cesare... — ela começou, a voz soando pequena na imensidão do quarto. — Você tem certeza disso?
Cesare parou o que estava fazendo e a olhou pelo reflexo do espelho.
— Certeza de quê, querida?
— Do contrato. De decidir o destino da nossa filha antes mesmo de conhecermos o rosto dela — Alessia suspirou, virando-se para ele. — Somos advogadas, Isabella e eu passamos a vida defendendo a liberdade e a justiça. Não soa... contraditório? Estamos prendendo Loredana a um compromisso que ela não escolheu. E se eles não se amarem? E se ela quiser trilhar um caminho completamente diferente do nosso?
Cesare caminhou até ela e ajoelhou-se à sua frente, cobrindo as mãos da esposa com as suas. O olhar dele, antes duro e focado em negócios, suavizou-se, mas manteve uma determinação inabalável.
— Alessia, olhe para o mundo lá fora. Você sabe melhor do que eu que o sobrenome Belladonna é um alvo tanto quanto é um privilégio. Matteo é o meu irmão em tudo, menos no sangue. Os Vesperini têm a força e a proteção que nossa filha precisará quando não estivermos mais aqui.
Ele acariciou o ventre proeminente dela com devoção.
— Não estamos tirando a liberdade dela, estamos garantindo que ela tenha um império para governar. Esse contrato é o meu maior ato de amor. É a melhor ideia que eu tive em anos, Alessia. Unir a maior potência de exportação à maior fabricante de automóveis da Europa... criaremos uma dinastia intocável. Riccardo é um bom menino, ele já prometeu cuidar dela hoje, você viu.
— Ele é uma criança, Cesare. Crianças mudam — ela rebateu fracamente, embora a segurança do marido estivesse começando a acalmá-la.
— O sangue não muda — ele afirmou, levantando-se e beijando a testa da esposa. — Ela será a rainha de Milão, e ele será o seu escudo. Durma tranquila.