O sol ainda nem tinha cruzado o topo da Vila Kennedy quando o morro já parecia conspirar contra si mesmo.
As vozes ecoavam pelos becos estreitos, carregando rumores que percorriam as paredes como se a comunidade inteira tivesse ouvido o aviso silencioso:
V.K acordou irritado.
Isso sozinho já era sinal suficiente para que até os cachorros evitassem latir.
Após a informação de Vasila sobre a possível operação, o clima ficou denso, carregado de tensão elétrica, como se qualquer faísca pudesse acender uma explosão.
E quando o Don ficava em alerta, ele cobrava cada erro como se fosse traição.
Tigrão seguia ao lado dele, trocando mensagens rápidas pelo rádio.
— Bota dois homens na laje de Dona Nilva. — V.K ordenou.
— Já botei.
— E tira o soldado novo da rua onze.
— Por quê?
— Ele tem medo no olho. Medo atrai tiro.
Tigrão assentiu.
Nem questionava mais.
O que V.K enxergava, ninguém enxergava.
Eles viraram o corredor que levava ao armazém central da boca, onde as armas e parte do dinheiro circulavam. Era a parte mais vigiada da comunidade — justamente porque era a mais visada.
E naquela manhã, havia algo errado no ar.
O portão estava entreaberto.
Tigrão sacou a arma na hora.
— Quem deixou isso assim?
Nenhum soldado respondeu.
V.K caminhou até o portão, sem pressa.
Olhou para os lados.
Olhou para o chão.
Pisou devagar.
O ambiente estava silencioso demais.
Ele empurrou o portão com o pé, revelando o interior do galpão.
— Filha da…
As caixas estavam no chão.
As gavetas tinham sido reviradas.
E — o pior de tudo — uma das mochilas de dinheiro estava aberta.
Faltando maços.
Não era um assalto externo.
Era interno.
Era traição.
Tigrão ficou vermelho de raiva.
— Quem mexeu aqui?!
Um dos soldados, Zulu, deu um passo hesitante.
— Chefia… eu… eu tava de vigia.
— Tu tava dormindo? — V.K perguntou, a voz calma demais.
— Não… eu… eu só virei pra ver um barulho na—
— Barulho onde?
— Lá fora…
— E deixou a porta aberta?
— Eu fechei.
— Não fechou.
— Fechei sim, chefia… juro pela minha—
V.K ergueu a mão.
Zulu calou na hora.
— Sabe o que eu mais odeio?
— O quê, chefia?
— Gente burra.
— Eu não fui burro…
— Foi sim.
— Eu juro que—
V.K deu um passo para perto dele, tão próximo que Zulu prendeu a respiração.
— Tu acha que eu sou i****a?
— Não, chefia…
— Tu acha que eu não sei quando alguém me rouba?
— Eu não roubei!
— Então me diz… por que a mochila tá vazia?
Zulu começou a suar.
— Chefia…
— Fala sem gaguejar.
— Eu… eu não vi nada.
— Não viu?
— Não vi.
— Então tu é burro ou cúmplice?
Outros soldados se afastaram.
Todo mundo sabia que aquelas palavras eram o início de uma sentença.
— Eu… eu não sei.
— Não sabe?
— Não sei quem foi.
— Tu tava onde?
— Aqui.
— Tu dormiu?
— Não.
— Tu virou de costas?
— Só um pouco.
— Só um pouco?
— Foi rápido.
— Rápido demais pra alguém entrar, abrir, pegar e sair?
Zulu ficou em silêncio.
E silêncio, com V.K, era confissão.
O Don respirou fundo, não de cansaço — mas de cálculo.
— Tigrão.
— Fala, chefia.
— Fecha o portão.
— Fechado.
Os soldados se espalharam posicionando-se ao redor.
Zulu tremia.
— Chefia… por favor…
— Eu vou te dar uma chance.
— Qualquer uma!
— Uma só.
Zulu engoliu seco.
— Me diz quem tava contigo aqui ontem.
— Só eu, chefia.
— Não mente.
— Não tô mentindo!
— Se tu mentir… tu morre.
— Eu não tô mentindo!
V.K apertou o maxilar.
— Olha pra mim.
Zulu levantou os olhos, tremendo.
— Tu roubou?
— Não!
— Tu deixou roubar?
— Eu… eu…
— TU DEIXOU?
— Não! Quer dizer… eu virei de costas só um…
— Então deixou.
Silêncio.
O tipo de silêncio que mata.
V.K não gostava de perda de dinheiro — mas dinheiro se ganha de novo.
O que ele realmente não tolerava era brecha.
Brecha dava força para inimigo.
Brecha matava soldado.
Brecha derrubava morro.
E Zulu tinha sido uma brecha ambulante.
— Tigrão.
Tigrão deu um passo.
— Chefia?
— Pega ele.
— Pega como?
— Do jeito que merece.
Zulu caiu de joelhos.
— NÃO, CHEFIA! EU JURO QUE NÃO FOI—
— Cala a boca.
— Chefia, por favor… eu tenho mãe!
— Todo mundo aqui tem mãe.
Tigrão agarrou Zulu pelo colarinho.
V.K encarou o soldado com um olhar que gelava o sangue.
— Eu não perdoo traição.
— Eu não traí!
— Tu deixou roubar.
— Eu juro que—
— Tigrão.
— Chefia.
— Leva ele.
— Levo pra onde?
— Pra laje da Mirante.
O destino estava decidido.
Zulu gritou.
— NÃO! EU JURO QUE NÃO FUI EU!
— Tu foi burro.
— Eu posso melhorar!
— Não posso esperar.
— Eu aprendo, chefia!
— Não aprendeu ontem.
— Eu… eu tava cansado.
— O morro não descansa.
Tigrão arrastou Zulu até a porta dos fundos do galpão, onde a luz do sol não alcançava.
Enquanto os berros ecoavam, o olhar de V.K não mudou. Não havia prazer em punir — havia necessidade.
Um soldado fraco prejudica todos.
E no código do Don, fraqueza era igual a morte.
Minutos depois, dois tiros secos ecoaram no alto da vila.
O morro já sabia o que tinha acontecido.
Tigrão voltou com expressão séria, limpando as mãos.
— Resolvido, chefia.
— Cavaram o buraco?
— Já estavam cavando.
— Certo.
V.K olhou de novo para o interior do galpão.
Algo ainda não fazia sentido.
— A mochila…
— O que tem nela? — Tigrão perguntou.
— Tá muito bem esvaziada.
— Como assim?
— Quem abriu isso sabia o que tava procurando.
— Então não foi Zulu?
— Não sozinho.
V.K se ajoelhou, passou os dedos pela poeira, observou as marcas no chão.
Ele identificava pegadas como se fossem assinaturas.
E aquelas pegadas não eram de um soldado qualquer.
— Quem mexeu aqui… sabia que eu não estaria por perto.
— Como? — Tigrão perguntou.
— Sabia que eu estaria no alto da laje naquele horário.
— Quem sabe isso?
— Todo mundo que trabalha comigo.
Ele se levantou devagar.
— A traição foi interna.
— Então quem?
— Ainda não sei. Mas vou descobrir.
Tigrão respirou fundo.
— Quer que eu faça uma lista?
— Quero.
— De quem?
— De todo mundo que sabia meus passos ontem.
— Vai dar uma lista grande.
— Então começa logo.
Eles saíram do galpão, atravessando a viela com passos firmes.
Mas antes de chegar à laje central, V.K parou.
Algo capturou sua atenção.
Uma senhora chorava ao pé da escada da laje principal.
Era Dona Alzira, moradora antiga, conhecida por criar netos sozinha e vender doces na praça.
V.K se aproximou.
— O que houve?
Ela levantou os olhos, enxugando as lágrimas.
— Levaram meu menino, Kevin.
— Quem levou?
— A polícia.
— Quando?
— De madrugada.
— Por quê?
— Disseram que ele tava envolvido com coisa errada. Mas meu menino não faz isso.
— Tá com quantos anos?
— Dezessete.
V.K sabia a verdade:
jovem de dezessete se perdesse no caminho, ninguém voltava para buscar.
Ou a polícia levava, ou a rua.
Mas havia uma diferença importante:
— A polícia levou da onde? — ele perguntou.
— Da minha casa.
— Eles subiram aqui?
— Subiram.
— Sem aviso?
— Sem nada.
Tigrão ficou alerta.
— Chefia…
— Eu ouvi. — V.K disse. — A polícia subiu ontem e ninguém me avisou.
Ele olhou para cima, como se pudesse enxergar através das lajes.
— Eles tão vindo atrás de alguém.
— De você? — Tigrão perguntou.
— Talvez.
— Ou é armadilha.
— Talvez.
Às vezes, guerra começava antes do primeiro tiro.
E aquela manhã tinha cheiro de guerra.
V.K olhou para Dona Alzira e colocou uma quantia de dinheiro na mão dela.
— Compra comida.
— Eu quero meu menino…
— Eu vou tentar descobrir onde ele tá.
— Tu promete?
V.K não prometia nada.
Nunca.
Mas, pela primeira vez naquele dia, ele respondeu:
— Prometo.
E seguiu caminho.
Tigrão murmurou:
— Chefia… desde quando tu promete as coisas?
— Desde agora.
— Por quê?
— Porque hoje vai ser longo.
E ele estava certo.
Porque enquanto descia a escada, um barulho estranho fez seu olhar se estreitar.
Um motor desconhecido.
Um pneu rangendo.
E uma caminhonete prata estacionando na rua vinte e três — território onde polícia não entrava sem BOPE.
V.K parou de andar.
— Quem é? — Tigrão perguntou.
— Vamos descobrir.
Mas antes que desse dois passos…
Uma garota desceu da caminhonete.
Curvas grandes, riso tímido, olhar curioso.
E V.K, pela primeira vez naquele dia, sentiu algo diferente no peito.
Como se o morro tivesse mudado de respiração.
Como se alguma coisa — ou alguém — tivesse acabado de bagunçar a lei que ele mesmo criou.
O nome dela?
Ele ainda não sabia.
Mas em poucas horas…ela seria o maior problema dele.
E talvez…o maior resgate também.