Vinícius Kevin Não Perdoa

1543 Words
O sol ainda nem tinha cruzado o topo da Vila Kennedy quando o morro já parecia conspirar contra si mesmo. As vozes ecoavam pelos becos estreitos, carregando rumores que percorriam as paredes como se a comunidade inteira tivesse ouvido o aviso silencioso: V.K acordou irritado. Isso sozinho já era sinal suficiente para que até os cachorros evitassem latir. Após a informação de Vasila sobre a possível operação, o clima ficou denso, carregado de tensão elétrica, como se qualquer faísca pudesse acender uma explosão. E quando o Don ficava em alerta, ele cobrava cada erro como se fosse traição. Tigrão seguia ao lado dele, trocando mensagens rápidas pelo rádio. — Bota dois homens na laje de Dona Nilva. — V.K ordenou. — Já botei. — E tira o soldado novo da rua onze. — Por quê? — Ele tem medo no olho. Medo atrai tiro. Tigrão assentiu. Nem questionava mais. O que V.K enxergava, ninguém enxergava. Eles viraram o corredor que levava ao armazém central da boca, onde as armas e parte do dinheiro circulavam. Era a parte mais vigiada da comunidade — justamente porque era a mais visada. E naquela manhã, havia algo errado no ar. O portão estava entreaberto. Tigrão sacou a arma na hora. — Quem deixou isso assim? Nenhum soldado respondeu. V.K caminhou até o portão, sem pressa. Olhou para os lados. Olhou para o chão. Pisou devagar. O ambiente estava silencioso demais. Ele empurrou o portão com o pé, revelando o interior do galpão. — Filha da… As caixas estavam no chão. As gavetas tinham sido reviradas. E — o pior de tudo — uma das mochilas de dinheiro estava aberta. Faltando maços. Não era um assalto externo. Era interno. Era traição. Tigrão ficou vermelho de raiva. — Quem mexeu aqui?! Um dos soldados, Zulu, deu um passo hesitante. — Chefia… eu… eu tava de vigia. — Tu tava dormindo? — V.K perguntou, a voz calma demais. — Não… eu… eu só virei pra ver um barulho na— — Barulho onde? — Lá fora… — E deixou a porta aberta? — Eu fechei. — Não fechou. — Fechei sim, chefia… juro pela minha— V.K ergueu a mão. Zulu calou na hora. — Sabe o que eu mais odeio? — O quê, chefia? — Gente burra. — Eu não fui burro… — Foi sim. — Eu juro que— V.K deu um passo para perto dele, tão próximo que Zulu prendeu a respiração. — Tu acha que eu sou i****a? — Não, chefia… — Tu acha que eu não sei quando alguém me rouba? — Eu não roubei! — Então me diz… por que a mochila tá vazia? Zulu começou a suar. — Chefia… — Fala sem gaguejar. — Eu… eu não vi nada. — Não viu? — Não vi. — Então tu é burro ou cúmplice? Outros soldados se afastaram. Todo mundo sabia que aquelas palavras eram o início de uma sentença. — Eu… eu não sei. — Não sabe? — Não sei quem foi. — Tu tava onde? — Aqui. — Tu dormiu? — Não. — Tu virou de costas? — Só um pouco. — Só um pouco? — Foi rápido. — Rápido demais pra alguém entrar, abrir, pegar e sair? Zulu ficou em silêncio. E silêncio, com V.K, era confissão. O Don respirou fundo, não de cansaço — mas de cálculo. — Tigrão. — Fala, chefia. — Fecha o portão. — Fechado. Os soldados se espalharam posicionando-se ao redor. Zulu tremia. — Chefia… por favor… — Eu vou te dar uma chance. — Qualquer uma! — Uma só. Zulu engoliu seco. — Me diz quem tava contigo aqui ontem. — Só eu, chefia. — Não mente. — Não tô mentindo! — Se tu mentir… tu morre. — Eu não tô mentindo! V.K apertou o maxilar. — Olha pra mim. Zulu levantou os olhos, tremendo. — Tu roubou? — Não! — Tu deixou roubar? — Eu… eu… — TU DEIXOU? — Não! Quer dizer… eu virei de costas só um… — Então deixou. Silêncio. O tipo de silêncio que mata. V.K não gostava de perda de dinheiro — mas dinheiro se ganha de novo. O que ele realmente não tolerava era brecha. Brecha dava força para inimigo. Brecha matava soldado. Brecha derrubava morro. E Zulu tinha sido uma brecha ambulante. — Tigrão. Tigrão deu um passo. — Chefia? — Pega ele. — Pega como? — Do jeito que merece. Zulu caiu de joelhos. — NÃO, CHEFIA! EU JURO QUE NÃO FOI— — Cala a boca. — Chefia, por favor… eu tenho mãe! — Todo mundo aqui tem mãe. Tigrão agarrou Zulu pelo colarinho. V.K encarou o soldado com um olhar que gelava o sangue. — Eu não perdoo traição. — Eu não traí! — Tu deixou roubar. — Eu juro que— — Tigrão. — Chefia. — Leva ele. — Levo pra onde? — Pra laje da Mirante. O destino estava decidido. Zulu gritou. — NÃO! EU JURO QUE NÃO FUI EU! — Tu foi burro. — Eu posso melhorar! — Não posso esperar. — Eu aprendo, chefia! — Não aprendeu ontem. — Eu… eu tava cansado. — O morro não descansa. Tigrão arrastou Zulu até a porta dos fundos do galpão, onde a luz do sol não alcançava. Enquanto os berros ecoavam, o olhar de V.K não mudou. Não havia prazer em punir — havia necessidade. Um soldado fraco prejudica todos. E no código do Don, fraqueza era igual a morte. Minutos depois, dois tiros secos ecoaram no alto da vila. O morro já sabia o que tinha acontecido. Tigrão voltou com expressão séria, limpando as mãos. — Resolvido, chefia. — Cavaram o buraco? — Já estavam cavando. — Certo. V.K olhou de novo para o interior do galpão. Algo ainda não fazia sentido. — A mochila… — O que tem nela? — Tigrão perguntou. — Tá muito bem esvaziada. — Como assim? — Quem abriu isso sabia o que tava procurando. — Então não foi Zulu? — Não sozinho. V.K se ajoelhou, passou os dedos pela poeira, observou as marcas no chão. Ele identificava pegadas como se fossem assinaturas. E aquelas pegadas não eram de um soldado qualquer. — Quem mexeu aqui… sabia que eu não estaria por perto. — Como? — Tigrão perguntou. — Sabia que eu estaria no alto da laje naquele horário. — Quem sabe isso? — Todo mundo que trabalha comigo. Ele se levantou devagar. — A traição foi interna. — Então quem? — Ainda não sei. Mas vou descobrir. Tigrão respirou fundo. — Quer que eu faça uma lista? — Quero. — De quem? — De todo mundo que sabia meus passos ontem. — Vai dar uma lista grande. — Então começa logo. Eles saíram do galpão, atravessando a viela com passos firmes. Mas antes de chegar à laje central, V.K parou. Algo capturou sua atenção. Uma senhora chorava ao pé da escada da laje principal. Era Dona Alzira, moradora antiga, conhecida por criar netos sozinha e vender doces na praça. V.K se aproximou. — O que houve? Ela levantou os olhos, enxugando as lágrimas. — Levaram meu menino, Kevin. — Quem levou? — A polícia. — Quando? — De madrugada. — Por quê? — Disseram que ele tava envolvido com coisa errada. Mas meu menino não faz isso. — Tá com quantos anos? — Dezessete. V.K sabia a verdade: jovem de dezessete se perdesse no caminho, ninguém voltava para buscar. Ou a polícia levava, ou a rua. Mas havia uma diferença importante: — A polícia levou da onde? — ele perguntou. — Da minha casa. — Eles subiram aqui? — Subiram. — Sem aviso? — Sem nada. Tigrão ficou alerta. — Chefia… — Eu ouvi. — V.K disse. — A polícia subiu ontem e ninguém me avisou. Ele olhou para cima, como se pudesse enxergar através das lajes. — Eles tão vindo atrás de alguém. — De você? — Tigrão perguntou. — Talvez. — Ou é armadilha. — Talvez. Às vezes, guerra começava antes do primeiro tiro. E aquela manhã tinha cheiro de guerra. V.K olhou para Dona Alzira e colocou uma quantia de dinheiro na mão dela. — Compra comida. — Eu quero meu menino… — Eu vou tentar descobrir onde ele tá. — Tu promete? V.K não prometia nada. Nunca. Mas, pela primeira vez naquele dia, ele respondeu: — Prometo. E seguiu caminho. Tigrão murmurou: — Chefia… desde quando tu promete as coisas? — Desde agora. — Por quê? — Porque hoje vai ser longo. E ele estava certo. Porque enquanto descia a escada, um barulho estranho fez seu olhar se estreitar. Um motor desconhecido. Um pneu rangendo. E uma caminhonete prata estacionando na rua vinte e três — território onde polícia não entrava sem BOPE. V.K parou de andar. — Quem é? — Tigrão perguntou. — Vamos descobrir. Mas antes que desse dois passos… Uma garota desceu da caminhonete. Curvas grandes, riso tímido, olhar curioso. E V.K, pela primeira vez naquele dia, sentiu algo diferente no peito. Como se o morro tivesse mudado de respiração. Como se alguma coisa — ou alguém — tivesse acabado de bagunçar a lei que ele mesmo criou. O nome dela? Ele ainda não sabia. Mas em poucas horas…ela seria o maior problema dele. E talvez…o maior resgate também.
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